jueves, 21 de febrero de 2019

deveria existir um tipo de bônuspara quem aceitasse a castração
mas o único prêmio que se ganha
é aceitar
que não há prêmio algum
ninguém vê
nossas pequenas-grandes
vitórias internas
no pódio
o primeiro lugar vai para a análise
o segundo para quem tiramos do primeiro lugar
o terceiro para nós mesmos
para lembrar sempre
que o importante
é desistir
de tentar ganhar
o tempo inteiro. 

viernes, 15 de febrero de 2019

A psicanálise dá trabalho

A psicanálise dá trabalho. São muitos os sentidos dessa frase. A psicanálise nos dá trabalho, e nos faz trabalhar.
Já ouvi de algumas pessoas que a vida do psicanalista deveria ser fácil: é só ficar ali, sentado confortavelmente em uma poltrona macia, com um copo de água do lado, de frente para a janela com vista para a cidade, e ouvir. De vez em quando basta fazer algum comentário e pronto: nisto se consiste o ofício. Bem, é verdade que a poltrona macia e o copo de água são verdades, no meu caso, mas quem pensa que é confortável o banquinho no qual o analista se senta está enganado. Ou não sabe o que está fazendo, e faz outra coisa que não psicanálise. 
Para estar ali, fazendo "nada mais" do que "ouvir" - sabemos que há uma diferença significativa entre ouvir & escutar, e que o ofício concernente à Psicanálise diz respeito ao segundo verbo, pois o que se escuta não é qualquer coisa; é o sujeito do inconsciente - é preciso estar também na posição daquele que fala. Daquele que se depara com os próprios limites, sintomas, questões, podridões. Falar é aprender a se ouvir, em psicanálise. Ouvir é um aprendizado, transmitido e mantido por muito trabalho. 
Para estar escutando - permito-me o gerúndio - aquele que vem nos procurar, é preciso estar em contato, em primeiro lugar, com nós mesmos. Só assim é possível se desligar de si o suficiente para se dedicar à escuta. Se nossas questões estão rondando feito fantasmas, e às vezes o são, não podemos escutar direito. Acabamos por escutar aquilo que é nosso, e não do outro - e se é do outro significa que é outro, diferente, e eu preciso escutar aquele como se fosse o primeiro, porque é. 

Por esses pequenos motivos que listei e desenvolvi de modo bastante simples, é que o lugar do analista não é confortável. Ele está em contato com o que de si mais necessita ser trabalhado, e precisa estar atento para não deixar sua pessoalidade contaminar sua escuta. 

A psicanálise nos põe a trabalho, e que trabalho! Trabalho de si, de saber de si, e um desejo em saber do outro. 
Não é fácil, muito menos cor-de-rosa, como disse Lacan, por isso é necessário estar em constante estudo, análise e supervisão. Estudo para guiar a prática e não falar besteiras; análise para saber de si mesmo e separar o joio do trigo ("não é a mamãe"); supervisão para trabalhar os pontos cegos (super-visão, afinal, não temos olhos nas costas e não sabemos tudo) e, com o olhar de um outro mais experiente do que nós, apreender o que estamos fazendo. 
A psicanálise é cara. Nos faz gastar. Nos gastamos para saber mais. Nos gastamos para não des-gastar a neurose, para não jogar energia fora. Aprender a não desperdiçar, reciclar, manter, decompor, semear. 
O solo propício para tudo isso é o que vem do desejo, que brota de um trabalho, trabalhoso. 
Tempos depois, quem sabe poderemos des-frutar da colheita... 

jueves, 6 de septiembre de 2018

o amor

o amor é te ver sair pelo portão e esperar pelo barulho característico quando você volta.
o amor é esquentar a janta, esquentar a cama, esquentar os pés, a água do chuveiro. o amor é essa ininterrupção de acasos fortuitamente calculados, é uma insistência em algo que a gente não sabe. e aí o amor dá certo. dá certo quando dá errado, quando é hora de falar, mas é uma escolha entender que o outro está nervoso e, por isso, é melhor não dizer nada. amar é esperar.
o amor é um silêncio que respeita, é um ruído que não cessa, é esse zumbido no ouvido dizendo que tudo está perdido, que você se perdeu justamente quando achou.

o amor encosta os pés debaixo da mesa.
o amor é a garrafa térmica antiquada que ainda mantém o café quente,
o amor é o silêncio de nós dois preparando o café
o amor é esse reconhecimento, de si e do outro, de nada. reconhecer que não há nada que se possa fazer para evitar os escombros. que fizemos todo o possível, mas apenas quando fomos nós mesmos é que o amor nasceu.
o amor é o beijo de bom dia e o de boa noite, é reconhecer a chegada do outro pelo barulho do portão.
o amor é um descanso e é um maremoto, é uma delícia de desprazer, é maravilhoso perder.
é poder ser inteiro ainda que falte uma parte, é não precisar de maquiagem, etiqueta ou cabelo.
o amor é lindo, e é tenebroso porque nos põe de frente para o espelho.
o amor é essa poesia que não sai como o esperado
que não rima
que não orna.
o amor é um verso torto, e por isso belo
é um erro gramatical terrível
é conjugar o que não devia
acentuar de primeira a proparoxítona
é que o amor não fala línguas
não lê livros
não gosta de poesia.
o amor é esse membro meio torto
que se apoia pelos cotovelos
que assiste ao declínio
sentado no camarote.

jueves, 26 de octubre de 2017

tudo muda

tudo muda
o rio, a ave, o chão de giz
os gizes com que riscamos nossos solos
pés que pisam estradas já batidas
mas tudo muda
o menino muda
a menina sangra
a mulher gera muda
e nasce

tudo muda
sobretudo quando a gente não
emudece

tudo muda
a casa, o vinho, o pão
o amigo, o irmão

tudo muda
quando a gente muda
faz mudar o mundo
girar a roda da fortuna vida gasta, bela,
que muda.

tudo muda
mas o que permanece?
eu, você, esse dia
enquanto
entardece.

miércoles, 27 de septiembre de 2017

no ritmo que ando
só o poema pra me acompanhar,
no ritmo que penso
só a poesia
pra me fazer rimar,
no ritmo dessa cidade
imensa
só a poesia pra não me esquecer de amar.

no ritmo de tudo
que me sufoca
e me faz nadar
só a poesia me confere coletes salva vidas:
a poesia salva
vidas que podem
se perder
do ritmo das árvores
do vento
da primavera
que enfim está.

se me perguntas como estou
com uma poesia hei de responder,
se me dizes
estás bem?
procurarei uma poesia para responder.
as palavras não me cabem
não caibo,
só a poesia pode mascarar aquilo que não quero fingir,
pode mostrar aquilo que quero esconder

por isso, escuta
mas escuta assim, com cuidado
porque o que digo não são só palavras
as palavras não são nada.
ouça o que eu falo
através do vento
através do céu
que hoje está meio sem cor
ouça o que digo
quando não digo
ouça no meu afeto
sem nome
a angústia que se revela
por medo de não dar conta
por ter o peito sufocado dentre milhares
que também têm o peito sufocado,
por me identificar com estes
por me diferenciar destes.

por ser uma igual
por ser diferente
por poder fazer diferente e por vezes
simplesmente se cansar,
se acostumar a ser igual
e não fazer diferente.

ouça tudo isso
e também o nada que vem com isso
enfim, o que ouço e o que falo
só a poesia
pode expressar.

martes, 5 de septiembre de 2017

amanhece

amanhece
para o meu espanto não sou a única
que desperta tão logo
o sol nasce

amanhece
parte de mim se amansa
enquanto o resto
enlouquece

amanhece
rápido como um suspiro
breve como se fosse uma prévia
da vida

mas tudo
só está
começando.

lunes, 4 de septiembre de 2017

rede

eu sonho tu
ela sonha eu
os sonhos que já não temos
resistem nas imagens
para as palavras
que não tenho.
ainda que não saibas,
pois dormes dentro de ti,
eu sonho nós
:
a ilusão eu perdi
- eu não devo a ti
e tu não deves a mim -
mas
desperta de nada
e (ainda) sem conclusão
sonho
agora por mim.