jueves, 27 de abril de 2017

é preciso viver tudo. o dar e o não dar, o saber e o não saber, o amor e o não amar. 
é preciso estar dos dois lados, um de cada vez; é preciso ter paciência e impaciência.
é preciso mandar tudo à merda, é preciso respirar e contar até dez. 
é preciso atravessar no sinal verde, é preciso parar no sinal vermelho, vice-versa para ambos; é preciso correr riscos. é preciso tomar decisões sem pensar muito, sem olhar o cardápio, sem comparar preços. é preciso beijar sem ter escovado os dentes. é preciso atingir o ponto da angústia de ranger os dentes, é preciso conhecer um pouco do escuro. é preciso não ser preciso, não dar conselhos, não escrever textos que comecem com "é preciso", porque cada um deve descobrir a sua própria (im)precisão. é preciso não escrever nada e deixar que escrevam, é preciso repetir o que já escreveram, é preciso, enfim, para não deixar de existir. é preciso se saber limite, solidão, pequeno, incapaz, faminto de algo que não vende. é preciso desconhecer. é impreciso tentar dizer é preciso, é preciso não conhecer os seres humanos porque são surpreendentes, e possuem mecanismos dos mais articulados; é preciso ter cuidado com seres humanos, ou que supostamente são chamados bípedes. é preciso postar no facebook, para ser visto, para ser curtido e odiado, para não ser nada, é preciso ser mais um texto enorme nas timelines alheias. é preciso precisar de tudo e não ter dinheiro, é preciso passar perrengue, é preciso conhecer o fracasso. é preciso conhecer a glória, a liberdade, o acaso dos destinos que se cruzam num café, se conhecem, apaixonam-se, casam-se e têm dois filhos lindos e inteligentes que se tornam profissionais bem sucedidos e com aposentadoria garantida, sem direitos trabalhistas óbvios suprimidos. é preciso ser brasileiro para conhecer a nobreza pobre, a pobreza alegre, o lodo e o ódio. é preciso ir a lugar algum. é preciso sentir-se paralisado, iludir-se e depois desiludir-se, não por muito tempo, pois é preciso aguentar a realidade que transcorre tão bem quanto os fones de ouvido que se emaranham dentro da bolsa durante a noite. 
é preciso falar e é preciso ser ouvido, é preciso passar pela experiência analítica para que se possa dizer. primeiro do outro, outros, sempre o outro, infernos dos outros, para que depois possa se dizer que inferno ser eu, o inferno é bom, o inferno é o paraíso, o inferno é, o inferno.
é preciso decepcionar os outros, decepcionar a si mesmo, é preciso ser imperfeito. é preciso ficar quieto, mudar de rumos, de rotas, de jeitos, a marca da geleia. eu mesma vivo precisamente: preciso de tudo, sou imprecisa com certas coisas, precisa com outras, e neste momento preciso precisar de coisa alguma. preciso do espaço vazio que se abre quando penso no que é preciso e não chego a conclusão alguma. é (im)preciso ser eu.  

viernes, 3 de marzo de 2017

miércoles, 25 de enero de 2017

de repente a gente começa
a sentir falta
a querer junto
a querer perto
a querer bem
bem se sabe o que isso significa
o coração começa a esperar pelo outro
a pensar nos restaurantes mais próximos
que combinariam
com ele.
bem se sabe que isso
é um perigo
delírio
lástima
esperança
alegria
e por fim
a gente se rende
se deixa fiar
se costura ao outro
a uma história
que pode ser
mais bonita
do que
a anterior.

jueves, 5 de enero de 2017

quando você saiu
fiquei só
tentando adivinhar
qual seria o barulho
que o portão
(e o meu peito)
fariam
ao ouvir
você chegar.


sábado, 27 de agosto de 2016

essa noite sonhei
que te abraçava as pernas
como quem não quer deixar
alguém partir:
meu inconsciente não aceita o fato
e me consola
com mentiras
clichês.

viernes, 22 de julio de 2016

crescer para baixo

não sei bem ao certo
mas posso afirmar
que o fruto deu flor:

nunca estive tão sóbria
cercada de loucos,
nunca voei tão alto
tendo os pés no chão,
nunca controlei tanto a vida
ciente dos imprevistos desvios de rota.

me desliguei da ilusão
e quando não consigo lidar com a realidade,
eu salto.
mergulhada em mim
o fundo é belo
porque sou eu.

cultivo rasuras
de cara lavada,
me ligo às sutilezas
habitando o mundo real,
conservo a capacidade de ser criança
sempre que o mundo exige
mais uma responsabilidade:
a cada minuto a menos que ganho
desadulteço.

domingo, 3 de julio de 2016

um amor para (re)acordar



lembrei 
das caminhadas infindáveis que fazíamos juntos,
dos dias em que nos sentávamos em botafogo 
pra tomar sangria às quatro da tarde,
da cama compartilhada indevidamente
porque eu gostava de dormir juntinho e ele queria espaço.
nos quereríamos
se não fosse eu.
se não fosse ele.

se eu fosse ele,
haveria de ter me querido
mas querido tanto
que até ligaria 
e diria
"te amo".

mas, essa maneira de conjugar os verbos
cujo nome da gramática não recordo
é típica de quem já pode falar de amor antigo
sem doer,
sem gemido baixinho à noite, quando desperta, mas ainda dorme e lembra o sonho que teve,
sem alegria hipócrita,
sem nada.

essa forma de escrever
descreve como as feridas
(até mesmo as mais graves)
se curam
depois de cozidas por longas horas
no fogo da vida.

o verbo fica conjugado
na beleza da comprovação
de que a Terra gira
quando a gente lembra de alguém
que de tão (ultra)passado
parece
nunca
ter
existido.