jueves, 26 de octubre de 2017

tudo muda

tudo muda
o rio, a ave, o chão de giz
os gizes com que riscamos nossos solos
pés que pisam estradas já batidas
mas tudo muda
o menino muda
a menina sangra
a mulher gera muda
e nasce

tudo muda
sobretudo quando a gente não
emudece

tudo muda
a casa, o vinho, o pão
o amigo, o irmão

tudo muda
quando a gente muda
faz mudar o mundo
girar a roda da fortuna vida gasta, bela,
que muda.

tudo muda
mas o que permanece?
eu, você, esse dia
enquanto
entardece.

miércoles, 27 de septiembre de 2017

no ritmo que ando
só o poema pra me acompanhar,
no ritmo que penso
só a poesia
pra me fazer rimar,
no ritmo dessa cidade
imensa
só a poesia pra não me esquecer de amar.

no ritmo de tudo
que me sufoca
e me faz nadar
só a poesia me confere coletes salva vidas:
a poesia salva
vidas que podem
se perder
do ritmo das árvores
do vento
da primavera
que enfim está.

se me perguntas como estou
com uma poesia hei de responder,
se me dizes
estás bem?
procurarei uma poesia para responder.
as palavras não me cabem
não caibo,
só a poesia pode mascarar aquilo que não quero fingir,
pode mostrar aquilo que quero esconder

por isso, escuta
mas escuta assim, com cuidado
porque o que digo não são só palavras
as palavras não são nada.
ouça o que eu falo
através do vento
através do céu
que hoje está meio sem cor
ouça o que digo
quando não digo
ouça no meu afeto
sem nome
a angústia que se revela
por medo de não dar conta
por ter o peito sufocado dentre milhares
que também têm o peito sufocado,
por me identificar com estes
por me diferenciar destes.

por ser uma igual
por ser diferente
por poder fazer diferente e por vezes
simplesmente se cansar,
se acostumar a ser igual
e não fazer diferente.

ouça tudo isso
e também o nada que vem com isso
enfim, o que ouço e o que falo
só a poesia
pode expressar.

martes, 5 de septiembre de 2017

amanhece

amanhece
para o meu espanto não sou a única
que desperta tão logo
o sol nasce

amanhece
parte de mim se amansa
enquanto o resto
enlouquece

amanhece
rápido como um suspiro
breve como se fosse uma prévia
da vida

mas tudo
só está
começando.

lunes, 4 de septiembre de 2017

rede

eu sonho tu
ela sonha eu
os sonhos que já não temos
resistem nas imagens
para as palavras
que não tenho.
ainda que não saibas,
pois dormes dentro de ti,
eu sonho nós
:
a ilusão eu perdi
- eu não devo a ti
e tu não deves a mim -
mas
desperta de nada
e (ainda) sem conclusão
sonho
agora por mim.

jueves, 27 de abril de 2017

é preciso viver tudo. o dar e o não dar, o saber e o não saber, o amor e o não amar. 
é preciso estar dos dois lados, um de cada vez; é preciso ter paciência e impaciência.
é preciso mandar tudo à merda, é preciso respirar e contar até dez. 
é preciso atravessar no sinal verde, é preciso parar no sinal vermelho, vice-versa para ambos; é preciso correr riscos. é preciso tomar decisões sem pensar muito, sem olhar o cardápio, sem comparar preços. é preciso beijar sem ter escovado os dentes. é preciso atingir o ponto da angústia de ranger os dentes, é preciso conhecer um pouco do escuro. é preciso não ser preciso, não dar conselhos, não escrever textos que comecem com "é preciso", porque cada um deve descobrir a sua própria (im)precisão. é preciso não escrever nada e deixar que escrevam, é preciso repetir o que já escreveram, é preciso, enfim, para não deixar de existir. é preciso se saber limite, solidão, pequeno, incapaz, faminto de algo que não vende. é preciso desconhecer. é impreciso tentar dizer é preciso, é preciso não conhecer os seres humanos porque são surpreendentes, e possuem mecanismos dos mais articulados; é preciso ter cuidado com seres humanos, ou que supostamente são chamados bípedes. é preciso postar no facebook, para ser visto, para ser curtido e odiado, para não ser nada, é preciso ser mais um texto enorme nas timelines alheias. é preciso precisar de tudo e não ter dinheiro, é preciso passar perrengue, é preciso conhecer o fracasso. é preciso conhecer a glória, a liberdade, o acaso dos destinos que se cruzam num café, se conhecem, apaixonam-se, casam-se e têm dois filhos lindos e inteligentes que se tornam profissionais bem sucedidos e com aposentadoria garantida, sem direitos trabalhistas óbvios suprimidos. é preciso ser brasileiro para conhecer a nobreza pobre, a pobreza alegre, o lodo e o ódio. é preciso ir a lugar algum. é preciso sentir-se paralisado, iludir-se e depois desiludir-se, não por muito tempo, pois é preciso aguentar a realidade que transcorre tão bem quanto os fones de ouvido que se emaranham dentro da bolsa durante a noite. 
é preciso falar e é preciso ser ouvido, é preciso passar pela experiência analítica para que se possa dizer. primeiro do outro, outros, sempre o outro, infernos dos outros, para que depois possa se dizer que inferno ser eu, o inferno é bom, o inferno é o paraíso, o inferno é, o inferno.
é preciso decepcionar os outros, decepcionar a si mesmo, é preciso ser imperfeito. é preciso ficar quieto, mudar de rumos, de rotas, de jeitos, a marca da geleia. eu mesma vivo precisamente: preciso de tudo, sou imprecisa com certas coisas, precisa com outras, e neste momento preciso precisar de coisa alguma. preciso do espaço vazio que se abre quando penso no que é preciso e não chego a conclusão alguma. é (im)preciso ser eu.  

viernes, 3 de marzo de 2017

miércoles, 25 de enero de 2017

de repente a gente começa
a sentir falta
a querer junto
a querer perto
a querer bem
bem se sabe o que isso significa
o coração começa a esperar pelo outro
a pensar nos restaurantes mais próximos
que combinariam
com ele.
bem se sabe que isso
é um perigo
delírio
lástima
esperança
alegria
e por fim
a gente se rende
se deixa fiar
se costura ao outro
a uma história
que pode ser
mais bonita
do que
a anterior.