sábado, 30 de noviembre de 2013

Em quase todo aniversário meu, minha mãe me mandava uma dessas mensagens por telefone. Os famosos "disk mensagens". Tocava o telefone lá pelas tantas, ela fingia estar fazendo algo muito importante e que não escutava o telefone, para que eu fosse atendê-lo. Era estranho receber mensagens dela com ela em casa, era engraçado. Enquanto eu ouvia a mensagem, ela ia de lá pra cá e nem ligava, continuava fingindo que não era com ela. Quando eu desligava, ia até ela para agradecer. Ela me olhava com aqueles olhos azuis sinceros, e me segurava com intensidade, e, ou me dava um beijo na testa, dizendo que me amava, ou me dizia alguma outra coisa, como "Não foi nada, filha".
Minha mãe sempre me dizia coisas intensas nos meus aniversários. Me lembro do meu aniversário de 12 anos. Ela encomendou um bolo, doces e uma torta, se não me engano, e eu chamei alguns amigos. Apenas 3 amigos foram. A escória da classe, na época. Eu, nessa época, era muito palhacinha, e fiz uma grande amiga que também era. Então ficamos a noite toda fazendo macaquices, até que em um determinado momento fomos cantar parabéns. Depois, antes de eu cortar o bolo, minha mãe me pediu um minutinho, e me disse, tocando de leve a minha mão, para eu ter calma (isto é, para eu parar de dar tanta risada e espalhar cobertura pela cara da minha amiga)... Então eu e ela ficamos frente a frente. Ela segurou as minha mãos, me olhou bem dentro dos olhos e me disse que desejava que eu fosse muito feliz... Me disse o quanto eu era linda, perfeita, bem humorada... Me disse para eu ter cautela em todas as situações da vida, mas não deixar de curtir. E me disse tudo isso ali, na frente dos meus amigos. Eu, claro, fiquei com vergonha, queria que ela falasse logo... Mas então ela me disse para não ter vergonha, pois ela estava sendo sincera... E eu não deveria ter vergonha de ouvir alguém me desejando coisas tão especiais. A vergonha não passou, mas a cena me marcou. E hoje, me lembrei dela muito claramente. 
Ela sempre me parava no meio das minhas macaquices pra me dizer o quão espontânea eu era e o quanto isso era maravilhoso... Eu ia às vezes rodopiando e cantando (literalmente) pela casa, e ela segurava meus ombros, dava risada, e dizia "Ah Manuelinha, só você!". Passava a mão no meu cabelo e dizia como ele era lindo, que a cor dele era linda... E que eu era linda. Claro que parte disso era para eu me "comportar" mais, não rir tão alto e parar com os palavrões, mas hoje vejo o outro lado disso tudo... Dessa espontaneidade calma. Desse "curtir" tendo cautela, e desse elogiar as pessoas quando sentimos que vem do coração, mesmo que a pessoa fique tímida no início... Hoje eu enxergo como esses elogios dela me fizeram aprender, mesmo que aos poucos, a me dar valor, a olhar no espelho e gostar do que vejo. Tem muita coisa nisso tudo... Mas o importante é que hoje eu enxergo o "outro lado". Afinal, não somos completos, cometemos erros, muito mais do que acertos... Nos omitimos, abaixamos a cabeça e muitas vezes morremos por isso. Mas hoje, hoje eu preciso enxergar este outro lado desta que me é tão cara, tão rara... E é uma só. Desta minha riqueza mais profunda, porque se não fosse ela, eu não estaria no mundo. Como eu teria sobrevivido? Se não fosse ela, eu não teria aprendido a maior parte das coisas que sei, tanto as boas como as ruins. Sem ela, eu não teria aprendido tudo... E eu arrisco dizer que não teria aprendido a viver. Porque entre essas coisas boas e ruins que aprendi com ela, entre muito sangue, lágrimas, ela me ensinou o que é a morte. Sem saber, talvez. Apesar de eu ter certeza que ela sabia. Ela sabia que estava me ensinando isso. Ela estava me ensinando sobre a finitude da vida, das coisas, que não adianta se preocupar com as contas que vencerão na segunda feira, porque domingo podemos não estar aqui... E, ao mesmo tempo, ensinou que é necessário deixar o dinheiro para a conta separado, só por precaução. Entende? Ela me ensinou as duas coisas. Não se preocupe com o amanhã, mas não viva de maneira inconsequente... 

Esta mulher que é forte, mas que chora
que é fraca, mas fala firme
sabe dos seus limites, mas cede
ama, e às vezes ama errado
mas no fundo sabe que não existe amor errado
aceita, e de vez em quando não é feliz
mas simplesmente por não saber qual das portas abrir para fugir... para correr livre para a liberdade de ter a si mesma.
de vez em quando não sabemos o caminho, e por isso não te culparei. 
porque você é parte de mim, eu sou parte sua
e a minha vida, minha querida
é sua também. 
obrigada pela vida. apesar de você não estar mais viva,
eu aprendi a tê-la aqui dentro de mim, sempre viva. 

miércoles, 27 de noviembre de 2013

Meus aniversários nunca foram lá grande coisa. Eu adorava, contava os dias para que eles chegassem, e quando dava meia noite, eu fingia que "não estava me lembrando", só para fingir descaso. Não sei porquê. Mas as pessoas se lembravam. Minha mãe principalmente. Depois, quando eu já havia crescido um bom tanto, meu irmão era o primeiro que se lembrava. Sempre vinha muito afetuoso, "festejar" comigo a meia noite do dia 30 de novembro. Meu pai eu não sei... Ele de vez em quando "fingia" (ou não) que não estava se lembrando do dia, e sempre, depois que eu havia crescido um pouco, perguntava se eu estava fazendo 20, ou 21, quando na verdade eu estava completando 23 ou 24. Acho que na verdade ele nunca soube quantos anos eu tenho, só se parar para fazer as contas. 2013 - 1987 = 26. Bingo!

Só que não.
Não que eu não goste mais de fazer aniversário, eu só estou cansada. 
Não que eu não goste de comemorações, eu gosto. Gosto de receber parabéns sinceros, de pessoas que realmente querem me dizer "Parabéns, você fez um bom trabalho ao ter nascido. E o faz até hoje. Porque a vida é isto, esse kung fu eterno que embalamos com nossas questões internas e o mundo externo". Gosto disso. Gosto de um BOM papo. Pessoas que não querem se mostrar eu quero, hoje, é que vão para a puta que o pariu. Eu não estou nervosa, só cansada. Por favor, não me entenda mal.
São muitas questões, muitas coisas, eu ando sonhando demais, bebendo demais, trabalhado demais, pensado demais. Mas não que eu quisesse algo diferente. Na boa, eu só queria um sofá e um aconchego para a minha cabeça. Se tiver sopa no fogão, melhor ainda.
A vida real é muito diferente daquilo que imaginei quando era adolescente,
a vida real é muito mais real do que qualquer possibilidade de realidade que já passou pela minha cabeça humana.
Na vida real tem tiro, dor, morte. Tem também paixão, café e amigos. 
Na vida real o roteiro não está escrito, a trilha sonora não está montada, o diretor não pára e diz "corta!", e não temos tempo para rodar novamente determinada cena.
Se você simplesmente quer fazer um filme mudo, é possível. Se quer fazer um roteiro melodramático, você pode. Se não quer fazer nada, também pode. É tudo sempre por nossa própria conta. No fim, quem paga somos nós. 
Eu vou pagar? 
Já não sei se quero. 

domingo, 24 de noviembre de 2013

domingo

É difícil definir o que eu estou sentindo. É difícil por ser um misto. Não é emoção. Não me sinto tão sozinha assim. Me sinto livre, no sentido mais ingênuo que esta palavra pode ter. Me sinto me curando e me ferindo, mas bem menos do que antes. Eu buscava em você coisas que você nunca poderia dar. Hoje é tudo tão igual, e tão diferente... Eu vivo a minha vida e sempre acho que poderia ter bebido um pouco menos. Eu falo com pessoas, me aproximo delas... e elas também se aproximam de mim, agora. Ontem acordei sob quatro patas. Corri solta e pisei na grama. Não busco nas pessoas a minha solução, acho que busco algo muito mais simples: companhia. Companhia para as minhas músicas, aquelas que não são feitas para se ouvir sozinha.
Tenho feito muito por mim. 
Principalmente vivido
por mim, pra mim
e porque vivo sigo deste modo
deixando as coisas que me fazem mal para trás...
Pensando em busca de mim mesma. Desta que precisa se curar de tantas feridas, mas que mesmo assim as enfaixa e sai em busca de abrigo. Tenho este abrigo em mim. Nele cabem algumas pessoas, cabem algumas coisas, alguns discos. Mas lá não tem espaço para você.

Agora tudo faz mais sentido. Este agora, este hoje. Conversar com você é sempre andar sob quatro patas: corremos soltas, pisamos na grama, gargalhamos. E ninguém ali irá dizer que a gargalhada deveria ser só um pouquinho mais baixa. Não gostamos de pouquinho. Você, libriana, me ensinou a quebrar a balança que confundem com equilíbrio, mas na verdade é miséria. A gente não quer miséria. Queremos viver bem, comer e beber bem, rir bem alto. Falar das coisas que realmente importam... E o que importa, não é mesmo? Os problemas? Ah, eles sempre estarão ali apimentando e temperando a vida corriqueira... Assim são as contas e os eventuais problemas financeiros. Decepções, velórios e enterros dão à vida justamente aquilo que queremos: intensidade. Quem não chora por medo de parecer fraco e quem não ri com medo de parecer tolo não vive, não é? Você me traz esta cavaleira que há em mim. Então monto em meu cavalo, te ajudo a subir nele e vamos galopando... galopando... galopando vida afora. Vida pra dentro só dura os poucos meses da gestação. A gente gosta é de nascer. Sangrar, dar a vida, dar à morte a vida necessária e à vida a morte que ela precisa. A gente não quer esconder essas coisas em um baú, como fazem os medrosos... A gente quer é abrir o porão e dançar com os esqueletos. A gente quer é colocar a melhor saia, a mais comprida e rodada que tivermos, e balançar os quadris. A gente quer fazer amor, se enroscar em alguém que nos faça dar risadas e nos lembrar que temos pele. A gente sente tudo à flor da pele, e isso por muito tempo foi julgado... considerado loucura. Os loucos são eles, que perdem o melhor da vida. E o melhor da vida é vivê-la com intensidade. Poucos sabem o que isto significa. Intensidade é ouvir o coração acelerar e desacelerar aos poucos, é se sujar cozinhando, é cantar, rir, dançar, chorar com toda a dor da nossa alma... Porque sim, intensidade é sentir tudo o que podemos sentir, usar toda a nossa capacidade para ser aquilo que viemos ser. E nós viemos ser nós mesmas. Quando sentarmos na mesa e abrirmos um bom vinho, você verá. Perceberá como tudo parece ir num ritmo próprio, perfeito. Seu relógio irá soar de quinze em quinze minutos, mas não teremos pressa. Pressa é para aqueles que se escravizam, e há muito sabemos que isto já não vale muito... A vida é curta. O tempo nunca é suficiente para fazer tudo o que queremos, mas não... nós conseguimos. Conseguimos despertar anjos e demônios, prostitutas, parteiras, irmãs, avós e ancestrais que vivem aqui dentro do nosso peito combalido. Combalido, mas não cansado. A vida nunca cansa. A vida é isto: este vai-e-vém de emoções, e se não soubermos rir de nós mesmas, como faremos? Por isso, quando nos reunirmos, vamos rir muito. Nascemos pra isso. Uma risada contagia a outra, e nos intervalos comeremos um pedaço de uma torta doce feita com muito amor. Amor por estas mulheres que carregamos em nós, amor por nós mesmas. Amor pelas coisas que nos fizeram sangrar e renovaram nossa alma. Amor pela dor, porque entendemos bem que ela veio para despertar nossa parte adormecida... A parte que achava que a dor é ruim. A dor vem mostrar...