miércoles, 17 de diciembre de 2014

instante




[ouvi dizer que é desperdício
gastar instante ocioso 
com palavra.
pois que me mandem ao hospício
instante gasto com palavra
é precioso
prender palavra no peito
é homicídio]



a criatividade 
é comunista
o que ela quer
é liberdade

lunes, 15 de diciembre de 2014

presente de natal

há um tempo decidi
de repente
aos que me são caros - de perto ou nem tão perto assim
aquilo que em si
nos salva da vida
faço uma poesia
e vira presente.

tem coisa melhor?
palavra que vai ficar marcada
ou até pendurada
na parede
pra ser sempre lembrada
.
.
no fundo,
quem vai presentear
será a palavra
escrita ou cantada
e vai mostrar que o que importa
não está escancarado
se não escondido
entre as linhas
do nosso próprio desalinho.

miércoles, 10 de diciembre de 2014

hoje eu disse:
"não tenho mais palavra"
e me dei conta
num susto
que palavra
era tudo que eu tinha.

e suspirei aliviada

restante

de mim só me resta
palavra finita
da qual sou freguês
a mim não me resta
mais que duas ou três.

chega de festa:
o que resta de mim
está escrito
na testa, 

viernes, 5 de diciembre de 2014

sobre corpos que vivem.

Acabo de voltar de um espetáculo de dança árabe, de uma escola de dança aqui da minha cidade. Só tenho duas palavras: estou maravilhada. Aliás, eu tenho mais para dizer. E para dançar.

Lá, em cima daquele palco, haviam mulheres. Mulheres belas, grandes, fortes, pequenas, delicadas, tristes e alegres. Mas não só. Lá, em cima daquele palco, haviam corpos. Corpos que habitam almas, almas que dançam, escandalosa e maravilhosamente, com toda a dor que carregam nos joelhos. Lá, as mulheres sorriam enquanto requebravam seus quadris, balançavam seus quadris, mexiam seus ombros e gingavam seus pescoços no ritmo dos tambores. As roupas eram extravagantes e belas, coloridas de cores também belas, além de marcantes. Os rostos daquelas mulheres me diziam que tudo é possível para quem possui um corpo, porque o corpo pode tudo. Ele pode morrer, e também pode nascer muitas vezes. Pode sofrer - e sofre - e pode ressurgir das cinzas. E ressurgindo, pode fazer poesia com os braços, pernas, pés e mãos e ventre. E pode dançar. Os órgãos estão vivos: pulsantes, jorram sangue, fluidos, vida. E morte. Porque se trata da mesma coisa, só que de diferentes perspectivas. 
Naquele palco, nesta noite, haviam mulheres girando, girando e girando, com seus pés descalços, no ritmo da música. 
Eu, que mesmo não sabendo dançar como elas, me vi cheia de vida. E chorei e ri e até gargalhei ao olhar tanta vida junta em um mesmo lugar. Eu, mesmo com meus joelhos estragados, me vi bela. Eu, mesmo com um corpo que não se adequa aos padrões de beleza ocidentais, me senti poderosa. Era eu rodando, remexendo meus quadris e gritando naquele palco. Era eu, vestida com as saias lindas e coloridas, adornada com as flores no cabelo, mil pulseiras, anéis e brincos, mexendo tudo o que em mim está vivo. Há vida em mim, e aquelas mulheres me mostraram que é possível ser viva e ter vida com o corpo que eu tenho. Esta sou eu: mulher como sou. E como toda mulher é um universo, e é bonita por conseguir habitar em si mesma um universo, eu me senti igualmente bonita. E tive vontade de viver, e de continuar morrendo com as experiências que me pedem sepultura. Ali, eu perdi o medo da morte, e o medo do meu escuro. E bati palmas com as minhas mãos suadas - porém, belas e vivas - e senti o meu coração pulsar de alegria e de temor. 
Eu posso dançar com o que tenho, sendo quem sou, e posso existir sendo eu mesma, e posso fazer outras pessoas felizes. Isso é genuíno e quase uma afronta ao mundo em que vivemos hoje, mas esta noite eu me senti poderosa. E talvez estas mulheres tenham encontrado em sua dança a razão para sobreviver, e também viver mais e melhor. Por isso continuam a girar, girar e girar. 
Porque são belas, e porque girar é lindo. E porque essas mulheres aprenderam quando é hora de parar de girar. 
No meu peito cabe uma angústia que não sei nomear, um vazio que quase sempre tem nome do que não vivi, mas esta noite eu senti que havia uma possibilidade. Por isso continuo. Viver talvez seja encontrar, dia após dia, uma possibilidade para continuar. Meus dedos param e eu não sei dizer muito mais do que isso, que na verdade é o que posso, e por isso vou parando. Porque, como aquelas mulheres, eu estou aprendendo quando parar. E, como aquelas mulheres, continuo remexendo os meus quadris, usando os meus lenços amarrados na cintura, meus anéis e meu lápis marrom nos olhos, e meu batom vermelho nos lábios; porque há uma possibilidade de vida justamente aí. E sei que não estou sozinha. Continuemos, a pintar a cara, o corpo, a dançar, a gargalhar bem alto, aprendendo a amar nossos corpos como eles são, cultivar flores em nossos ventres, acariciar-nos, dar de comer a esta que ficou abandonada na estrada, pedindo o seu rumo de volta. Venha, seu rumo é aqui. Aqui, onde seguem essas mulheres que dançam. Dancemos.  

jueves, 4 de diciembre de 2014

já.

tenho tantos planos encabeçados
livros engavetados
poemas não publicados
já se foram tantas coisas
já perdi tanto tempo
(mas acho que ainda resta algum).

ainda não tive filhos
já perdi minha mãe
e já mandei para a puta
que o pariu.
já gastei muito
em bebida e rock n' roll
mas nunca conheci
um rock star
talvez a star
disso tudo
seja eu
talvez rock
seja mesmo
ser
e estar.

sábado, 8 de noviembre de 2014

o que achei que fosse
não era
quem achei que era 
não fui.
me resta caminho 
pedra por pedra
reúno ruína 
deste monte que tenho no peito
e sigo,
invariavelmente, (as)sim. 


martes, 28 de octubre de 2014

Simplicidade

O que é a vida que levo
senão a vida que vivo?
O que é essa vida que levo
senão a vida que posso?



sábado, 25 de octubre de 2014

daquilo que se arca

dentre as escolhas mais difíceis, está uma que elejo: a de arcar.
com as próprias tranqueiras afetivas, com o passado (meu e do outro),
o presente e o futuro. arcar implica assumir riscos, fazer escolhas conscientes, ou quase lá,
mas que não sejam mais culpa do outro. culpa de Deus. arcar significa assumir a culpa.
assumir que não importa quanto não se queira assumir, esta decisão deverá ser tomada.
assumir que não importa sob quais condições, a escolha é nossa e apenas nossa.
é chegada a hora de viver legitimamente. seja para assumir isto ou aquilo, tomar este ou aquele caminho, é preciso arcar. inclusive com a própria dor.
arcar não significa que "tudo vai dar certo".
às vezes as coisas não funcionam, não saem conforme o planejado,
o outro não quer o mesmo que a gente.

tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas, e também por aquilo que assumes.


viernes, 24 de octubre de 2014

os prematuros são apressados
têm pressa de viver
e sonhar
querem tudo ao mesmo tempo.

os prematuros têm certeza
de que o mundo acaba amanhã
de amanhã não passa: não amanhece
nem anoitece
"hoje é a minha última noite" -
berram eles.

se há deslize
já existe motivo para
"tudo está perdido"
prematuros não têm cura
seu único remédio
se chama "é pra já".

viernes, 17 de octubre de 2014

Ai.

me dói
me dói a dor de viver
a dor de amar
a dor de partir
a dor de deixar.

me dói as dores que já doeram
me corrói a pele o toque desfeito
o amor desfeito
o amigo desfeito
o beijo desfeito:
bem-feito.

me doem as opressões
as impressões
as visões que tenho do passado
e do presente.

me dói
e estou só.


domingo, 12 de octubre de 2014

Quando a gente é criança, dá pra fazer algumas coisas sem pensar nas consequências.
Dá pra 'ir levando'. Tem sempre alguém na retaguarda pra dar abrigo, se a gente perder o jogo. Ou se o amigo fez chorar. 
Não acho que quando crescemos (porque crescer não significa ser adulto. existem adultos não crescidos) somos, assim, tão castigados. Só porque agora não dá mais pra esperar a retaguarda de alguém, só porque não dá mais pra não enxergar as consequências das coisas, não significa que "quando éramos crianças era melhor". Era melhor porque não precisávamos nos responsabilizar. Foi essa palavra que colocaram no vocabulário dos adultos, e que torna tudo tão difícil, a vida tão dura. 
Bebeu até cair? Tratou alguém mal, sem ter a intenção? Transou com um desconhecido? Não pagou a conta de luz? Esqueceu de fazer mercado? Problema seu. Meu, nosso. 
Agora, simplesmente, não dá pra pedir socorro. Só se dissermos "Socorro, vida real!", e ela vai responder, lá no eco da nossa maturidade "Te vira, neguinho". 
A gente, como criança crescida, ou como adultos, que seja, pode curtir. Podemos não querer enxergar as consequências. Mas é preciso se responsabilizar. Se comprometer. Ser legítimo. Bancar o estrago no dia seguinte. 
Podemos agir como crianças, mas não podemos nos esquecer da palavrinha que nos acrescentaram: responsabilidade. 

Que, ironicamente, rima com idade, maturidade, infantilidade e saudade.
Que saudades da minha infância!

domingo, 5 de octubre de 2014

A título de força.

Minha querida, há tempos quero te escrever. Mas o que dizer? 
A gente tem tantas palavras pra tantas coisas, e agora elas me faltam. 
Ah, nos encontramos tantas e tantas vezes para falar sobre a vida... jogar palavras pro ar. Onde foi que jogamos as palavras? Quero-as de volta, para poder te dizer. Te dizer te dizer te dizer, te dizer o quê? Que você faz falta, além de fazer poesia. 
... Às vezes me pergunto se falar seria aconselhável. Mas se não temos as palavras, temos o quê? Temos. Temo. Tememos. Vamos falar dos temores? Terrores? Também não sei...
O que uma alma que teme poderia conversar com outra que também teme?  
Eu não posso mentir, porque eu mudei. Eu emudeci.
Mas eu continuo a mesma, a mesma que você (eu sei) sabe quem é. E é por isso que gosto tanto de você: porque você é parte de mim. Daquilo que perdemos quando nascemos, e encontramos depois que crescemos. Amigo. 
Minha amiga, mesmo sem palavras, mesmo muda, em mim cabe o que você quiser dizer. Seja palavra, grito, poema, nada. O que tenho pra você é ouvido, alma. 
Sinto que você tem se mostrado forte, e acho isso muito bonito. Eu também tenho tentado estar forte.

Desejo, imensamente, que tudo isso acabe logo. Que sua fé não se esgote. Que as miudezas miúdas, como a formiga do Manoel, te façam ter esperança. Que o cheiro do café (tomara que não esteja te enjoando) te revigore. Que a luz do céu (azul, cinza ou chuvoso) te mostre como a natureza é sábia, constante, apesar das tempestades. E que a vida é isso, minha querida: temos que passar pelas tempestades. Tarefa difícil... mas desejo que você encontre força no sorriso de alguém que te ama,
em uma noite regeneradora de sono, em uma leitura ou em um filme que assistir. 
É uma merda ter que encontrar forças, eu sei,  mas eu tenho um ato-falho engraçado pra te contar.
Estava conversando com a Lilian e ela tinha que ir embora. Ela me perguntou: "O que você vai fazer agora?", e eu ia até a unimed buscar o cheque do meu pagamento. Então eu disse: "Vou lá buscar meu cheque, pra ver se 'dá um up' nesse banheiro!". Banheiro?! Meu Deus, por que eu disse banheiro? - falei pra ela. Ela, se matando de rir, falou: "porque é assim, Manu, você quer encontrar um up no meio dessa merda toda... porque às vezes tudo está um banheiro mesmo, cheio de merda!"
Eu não sei o que queria dizer no lugar de banheiro. Provavelmente, banheiro mesmo. 
E é isso... No meio de toda essa merda, a gente encontra coisinhas pra dar um up... 
Desejo que você as encontre... e reencontre... dia após dia. Até estarmos juntas de novo pra tomar um café e rir da vida. 

Te amo muito.
Beijos. 

viernes, 29 de agosto de 2014

entardece
e a noite chega em um instante penoso.
entardecer é grave e plácido.
entardecer acontece com tudo aquilo que nasce,
a noite chega como a morte: rápida, incólume, estranha.
é estranho morrer assim
sem o clarão do dia
o nosso vazio que fica é ainda maior.

domingo, 17 de agosto de 2014

cada dia acontece em mim um mundo.
talvez seja um dom estar dentro de tudo,
sem sair do lugar

cada dia nasce uma nova morte
que dá espaço para mais vida

cada dia o mundo que há em mim desaba,
aflora.
cada dia vivo de mais instantes tão intensos
que me preenchem
mesmo na melancolia,
mesmo na dor.

porque para me sentir viva
não preciso me sentir feliz.
para ser feliz
eu preciso me sentir inteira
Quando eu era mais moça, gostava de escrever muito aos domingos. Escrevia sobre o meu tédio e horror à esse dia, escrevia contos de garotas que fumavam escondido e sobre a vida de mulheres de vinte e poucos anos. Hoje eu sou essa mulher de vinte e poucos anos. Hoje eu não fumo escondido. Hoje eu já não faço quase nada escondido: não sou mais escondida. Me achei, depois de um longo período me procurando, e agora ando com uma placa levantada pelas ruas: eu sou eu. 
Demorei pra chegar até aqui, demorei para gostar disso, e às vezes ainda penso que sou insuficiente. Mas, logo depois me questiono: insuficiente pra quem? Quem gostaria que eu fosse mais do que eu sou? Só eu posso querer isso. E aí quando vejo que posso ser mais, que posso querer mais do que quero, eu vou à luta. Calço minha botas, me estrepo pelo caminho, mas luto. 
Eu não preciso mais me esconder de tantas coisas, sou o que sou e prefiro quem goste de mim desse jeito. 
Prefiro que não tentem se adaptar a mim. Prefiro quem, simplesmente, bate o santo com o meu. Porque não, eu não vou gastar muita energia para manter por perto aqueles a quem minha companhia não faz tanta diferença. Quero aqueles que digam: "Não, sem a Manuela não há festa." E aí então eu estarei lá. Fazendo a festa, fazendo a diferença. Por muito tempo me perguntei o que eu realmente fazia pelos ambientes que ocupava e com as pessoas em minha volta. Qual era o meu brilho especial? O que faz as pessoas gostarem e se aproximarem de mim? O que pensam as pessoas quando me veem?
Hoje posso afirmar com um pouco mais de firmeza que faço algo que ninguém mais faz. Eu brilho. Mesmo que meu brilho às vezes seja opaco e minha voz embargada, mesmo quando estou melancólica e vazia. Eu brilho do fundo do poço. E disso eu não me envergonho. 

jueves, 24 de julio de 2014

Hoje é seu aniversário. Nem sei porquê estou levando isto tão a sério, já que não sou sua mãe e não fui eu que te pari, sequer estava viva quando você veio ao mundo. Você veio ao mundo no dia 25 de julho de 1953, não sei que horas. Acho que foi de manhã.
Eu nem estava viva quando você nasceu, mas foi você quem me deu a vida. 
E hoje seria o dia em que comemoraríamos os seus 61 anos de vida vividos. Mas, você comemorou apenas 52. Seja como for, hoje é o seu dia. Porque não é só porque as pessoas morrem que não se pode mais comemorar seus aniversários. Lógico que não vou chamar convidados, nem encomendar uma torta salgada, mas, obviamente, me lembrarei de você. 
Não me assusta mais a ideia da sua ausência, ou mesmo de sua presença, em meus pensamentos, ações e devaneios diários. 
O que eu te diria neste dia? 
Bem, eu não posso dizer ao certo... uma vez que seria uma injustiça com você, que nem está aqui para poder se defender. Afinal, se eu mudei nesses 8 anos, você também haveria de ter mudado. Não sei no que teria se transformado. Por ora, só posso falar por mim.
Então, dirijo-me a mim mesma. O que eu diria a você no dia do seu aniversário, tendo em vista minhas próprias mudanças, e imaginando você aí, sentada, me ouvindo ou lendo. 

Mãe,

Hoje acordei e não precisei do calendário para me lembrar que havia chegado o dia 25 de julho.
Gosto muito desse dia. Acho uma data bonita. E acho também que gosto do número 25. Não sei explicar, agora, o motivo. Não me leve tão a sério. Você bem sabe - ou eu espero que saiba - que sua filha aqui, a caçula, é muito filosófica. Tenho capacidade para sentar e ficar apenas pensando por horas a fio. Tentarei ser discreta e objetiva. Obviamente irei fracassar nessa tarefa. 

Fico imaginando você, com toda a sua majestosa paciência, lendo-me. O que pensará? 
Imagino que se orgulhe. E eu também. Acho que posso dizer que me orgulho de mim mesma. E talvez por isso hoje queira lhe dar os parabéns. Eu devo um "muito obrigada" a você. Você fez o que pode. E fez o melhor. As mães sempre dão seu melhor. Dão aquilo que têm e também aquilo que não têm, em certa medida. Acho que você deu aquilo que estava ao seu alcance. Deu aquilo que recebeu, aquilo que achou que seria certo, aquilo que, imagino, faria você se orgulhar um dia.

Eu desejo que você passe um bom dia, que reflita, que reze, coma e dance, se puder. Receba os presentes. Você é uma mulher mais forte do que imagina. Você é mais mulher do que imagina. O mundo inteiro cabe dentro de você, porque dentro de mim eu carrego o mundo inteiro, e um dia estive aí... da maneira mais próxima que alguém pode estar de outra pessoa: dentro dela. 
No fundo, mãe, eu não consigo te imaginar fazendo muitos aniversários. Eu não sei o que vem por aí. Talvez você seja uma velhinha frágil, magricela, pouco falante. Talvez você dê aqueles tapinhas nas minhas costas quando eu bater o pé dizendo que vou fazer tal e tal coisa. 
O fato, mãe, é que eu te amo. E acho que sempre vou amar. Continuarei amando, mesmo que a morte nos separe. Mesmo que eu te odeie, eu te amo. Mesmo que eu sinta ódio ou mágoa, eu te amo. Meu amor por você não é condicional. Eu não tenho escolha quanto a isso. Te amo e não abdico do cargo de filha. Mesmo que você suma. Saiba que um tanto do que você me ensinou eu também vou ensinar aos meus filhos, mesmo que eu condene algumas coisas, mesmo que eu odeie algumas coisas, mesmo que. Porque é assim: posso até falar disso, e transformar algumas besteiras que você fez em feitos um pouco melhores, um pouco mais autênticos de minha parte, mas um resquício seu sempre haverá. Por exemplo: vou sempre levar comigo a sua gargalhada. O seu bom humor e calma matinais. A sua paciência em dizer coisas pra mim. A sua sabedoria nas pequenas coisas, e até um pouco dos seus erros. Seus piores erros foram os que me transformaram em quem eu sou. 
Mãe, pode parecer loucura, mas você não sabe a cagada que fez quando engravidou: é pra sempre. É brincadeira, claro. Eu já estou no mundo há 26 anos, não posso dizer que tem algo errado nisso, caso contrário eu seria uma baita hipócrita. Me analisei o suficiente para saber que se eu nasci, mesmo sem pedir por isso, já estou posta no mundo e devo arcar com as dificuldades dele. Mas existem também as belezas... E delas você me ensinou bastante. A olhar com calma, a comer com calma, a falar com calma, existir com calma. "Nada é pra já". 

Obrigada por ter existido. Aos antepassados que foram passando você de geração em geração, até eu nascer. Obrigada, mesmo pelos genes ruins. Obrigada por ter me ensinado a descascar laranja e a lavar meias brancas. Obrigada por ter me ensinado a manter o meu guarda roupa organizado, e por me fazer entender que sofrer por antecipação é uma idiotice sem fim. Obrigada por ter me ensinado a humildade, e o respeito a qualquer outro ser humano (ou quase todos, vai, porque você não é Chico Xavier. E que bom que não é). Obrigada por ter me levado ao médico quando eu precisei, mesmo se desesperando assustadoramente quando eu aparecia com um corte no dedão. Obrigada por ter me protegido, por ter ido ao meu quarto toda santa noite me dizer para não ter medo, e que qualquer coisa eu poderia ir até o seu quarto te chamar. Obrigada por ter me dado meu primeiro absorvente e sutiã. Obrigada por ter ido ao ginecologista comigo pela primeira vez, e por ter adivinhado no meu olhar a primeira vez em que fui ao motel. Eu nunca conseguiria te dizer isso espontaneamente. Obrigada por ter me ensinado a dirigir, e por ter abdicado horas do seu dia pra ir tomar sorvete e comprar revista na praça aos domingos. Obrigada por ter me feito aprender a pintar, mesmo que porcamente, porque eu não levo jeio pra coisa (mas de vez em quando me arrisco). Obrigada por me apoiar em todos os cursos que eu já quis fazer: jornalismo, medicina, música, filosofia, musicoterapia e psicologia. Acho que se eu te dissesse que queria ser lixeira você me apoiaria. Obrigada por ter me contado coisas a respeito da minha infância e da época em que eu ainda estava dentro da sua barriga. Isso ajuda a reconstruir a nossa história. Obrigada por ter me elogiado tantas e tantas vezes, nunca ter me humilhado ou maltratado deliberadamente. Se hoje olho no espelho e me vejo bonita, muito do que vejo foi visto antes por você. Obrigada por isso. Obrigada por ter me deixado, porque isso me fez amadurecer como nunca nessa vida. E obrigada por ter me ensinado o que significa perder alguém, o que significa cuidar de alguém doente, o que significa ver alguém perto do fim... O aprendizado e o crescimento que vieram com isso são impagáveis, apesar do sofrimento absurdo. Obrigada, mãe.

Feliz aniversário.

Sua filha,
menina,
mulher,
e que um dia também será mãe,

Manuela.  

lunes, 14 de julio de 2014

carta nº 1

Me diga uma coisa: você está vivendo a sua vida?
Não. você não me entendeu. Eu perguntei vivendo. Vi-ven-do. Está vendo?
Mas como você é cabeça dura. Ouça-me: está ou não está sentindo o seu coração bater?
Me diga, qual foi a última vez em que sentiu que dentro do seu peito tem um coração?
É incrível senti-lo bater!

Sabe que eu tive essa experiência esta semana, e me peguei pensando: esse órgão tão pequenino consegue fazer o meu corpo inteiro funcionar? Se um dia (e este dia vai chegar) ele parar de bater, vou morrer. É loucura. É loucura.
Este órgão tão pequeno se acelera quando você menos espera,
porque ali virando a esquina está aquela que faz seus pelos se arrepiarem. E ela vem linda...

Este órgão parece murchar e sentimos como se houvesse uma mão sufocando-o,
quando ouvimos "eu não sinto nada por você", "que merda tudo isso que você fez", e o pior: "ela se foi". O pior de tudo é quando o coração do outro pára. Para de sentir, para de bater, morre. Que merda. Temos aí uma das coisas mais bizarras da vida.

Mas veja, é preciso sentir. Sentir que o seu coração bate. Não importa se você está no trânsito ou em uma reunião importante, ou fazendo amor (convenhamos que nesta última ocasião o mínimo a sentir é o coração batendo).
Viva a sua vida. Sabe que eu já nem sei se me importa estarmos tão longe? Foi assim que aprendemos, não foi? Aprendemos a perder. Mas aí achamos que perder uns aos outros não faria diferença. Faz? Acho que desaprendemos (ou nunca aprendemos isso?) a demonstrar o que sentimos uns pelos outros.  
Às vezes me sinto uma desconhecida perto de você. Acho que você não me (re)conhece mais, nem eu a você. Eu mudei muito. Me mudo todos os dias, mas o ruim é quando me mudo de mim. Aí sinto uma ausência de alma, e é justamente neste momento que eu temo a morte. Ando sofrendo deste medo. De morrer. Fico pensando que, no mesmo momento em que estamos aqui, conversando, piscando, comendo, enfim, fazendo todas as coisas que nos cabe fazer; em um outro momento não estaremos. Seremos um corpo gelado em um caixão brega cheio de flores. Que merda. Fico pensando se já falei o suficiente, se já amei o suficiente, se já te disse "eu te amo" olhando nos seus olhos. E se há uma coisa que eu não quero é ter a percepção de que passei a maior parte da minha vida trabalhando, enfrentando filas, pagando contas, correndo para não me atrasar, correndo para chegar depressa, correndo para nem sei onde e indo ao mercado. Todas essas coisas fazem parte, eu sei, mas o que eu tento fazer é rimar no meio delas. Às vezes não rimo, porque há dias em que nada rima, nem ri, nem rema. Há dias em que eu fico parada. Calada, quieta, apenas envelhecendo junto aos minutos que passam.  

Eu ando tendo medo da morte, mas não é só ela que me assola, não. Me assola o medo de mim mesma. Sabia que de vez em quando eu acho que seria fácil pra mim enlouquecer? Sabia que de vez em quando me sinto tão distante daquilo que era que acho que consigo ser deus? Não Deus, mas esse deus menor, esse deus eu. Que inocência a minha. Que inocência a minha, mas preciso compartilhar uma grande descoberta que fiz: a cada dia que passa, mais próximos estamos da morte. E se for hoje? O que eu vou ter deixado? 

miércoles, 9 de julio de 2014

eu não sei o que a vida é
o que quer
eu quase nunca soube.
eu não sei se ando devagar
porque não sei se o que a vida quer de mim é calmaria

nem sei sequer se ela me ouve.

eu não sei mais se me movo,
porque quanto mais falo
mais morro.

me pergunto: é preciso saber?
a possível resposta é que tenho medo da resposta certa
acho que as coisas não tem muito jeito
ou sou eu que não tenho jeito com elas?

lunes, 23 de junio de 2014


aqui dentro de mim, mora eu
a casa é um pouco bagunçada,
coisas se perdem, coisas se acham
coisas que são minhas, e mais nada.

aqui dentro de mim mora eu
sentada numa cadeira, só,
olho para o móvel cheio de pó.
eu que sou nós,
tu
eles.
a sós.

aqui dentro mora eu
e não me cabe mais nada
a não ser cuidar
disso tudo que é meu.

sábado, 21 de junio de 2014

o ato de ser

Esta sou eu.
E o que sou,
se não passo de mim?
Tento, mas não consigo.
Não me passo por nada
e ultrapasso por pouco,
o medo a vida o caos.
Então encontro-me e dou de cara com ele:
Espelho meu, existe no mundo alguém com mais de mim do que eu?

jueves, 29 de mayo de 2014

o que vive do que ficou?
sensações, corações, terremotos.
o que sobra do que restou?
pesares, ipês, talheres.
quase nada fica surdo
quase nunca me anulo
agora que sei que tu não és nada.
agora que sei que tu não és.

martes, 27 de mayo de 2014

Seus olhos de pantera
seu sorriso franco,
seus olhos tristes.
Choram a vida que passa,
choram e borram a maquiagem
mas não deixam de viver.

Seus olhos são o mundo inteiro:
o mundo que viveu
as paixões que viveu
o tempo que morreu
e o tempo que virá.

Você, tão jovem, tão velha,
dá risada do caos
com seu copo de martini em uma mão
e o cigarro em outra.
Enquanto a fumaça se esvai,
você chora
e você vive,
porque sabe que dentro da sua alma habita uma bela loba.

jueves, 15 de mayo de 2014

confissão

palavra presa vira o quê?
palavra presa vai pra onde?
pra onde vão todos os sonhos que a gente não come?
pra onde vão as desesperanças de amores perdidos,
roubados, rasgados?
pra onde vão os sentimentos que não dizemos por
medo da dúvida, medo de não ser, medo do medo?

coração preso por quê?
se não cometeu crime algum...
coração preso por quem?
coração sobrevivente não só bate.
precisa de todos os cuidados.
precisa de cuidados melhores.

e quando a gente não sabe definir o que sente?
é medo, é certo ou é nada?
meu sentimento não sabe perdurar,
só sabe ser quando é.

o que precisa morrer hoje para que mais vida possa nascer?
estou com medo do sono tranquilo, do confiar que o outro não dilacerará meu coração...
estou com medo de pegar na sua mão, de ser feliz, porque quem é feliz também é triste,
mas eu tenho a impressão que quem ama, está cego.
Eu tenho medo de escolher, dizer "sim" para o seu amor.
Porque quando a gente fala de escolher, eu me lembro da escolha que fui feita.
Não achei que fosse ter que escolher de novo tão cedo. Tenho medo de errar,
mesmo sabendo que não há erro.
Porque eu nunca fui feliz.

domingo, 11 de mayo de 2014

antes o medo gritava
me dizia do peso da escolha
da possibilidade do erro
da possibilidade de.

com medo mesmo,
fui caminhando
devagar, sem pensar.

entrei nos seus espaços
deixei que entrasse nos meus
simples e complexo.

derramei por mim lágrimas de compaixão
derramei-me por inteiro do que fui
e o medo me dizia que se havia a possibilidade de dar errado,
daria.

hoje me dei conta: não conta.
não ouvia mais os gritos
e ouvi um sussuro.

sábado, 10 de mayo de 2014

Hoje não sofro de grandes faltas.
Sofro das pequenezas que compõe a vida,
sofro pela árvore que morre
pela rua de asfalto
pela falta de raízes no solo.
Sofro por aqueles que negam as batidas do próprio coração,
como se coração fosse coisa pouca.

Ausências são buracos que se esvaem
onde tudo cabe nada
e o nada pode tudo: na ausência há uma completude que só a falta pode trazer.
Há um tempo descobri
que é preciso voltar-se para a terra,
pegar na lama
sentir as raízes
para, então, voar bem alto.
É disto que estou falando: de remexer em baús
redescobrir cartas
soltar os presos que têm tanto a me contar.
É disto: deste aceitar, que eu falo. Coisa estranha, bem sei, mas
coisa também que não quero perder.
Porque já perdi tempo demais achando que meus baús deveriam ser fechados,
lacrados, esquecidos.
E dia a dia, enquanto envelheço, remexo neles:
Pra não te perder na memória
pra não deixar a vida me afastar das raízes
pra não esquecer desta história, minha.

sábado, 29 de marzo de 2014

já é noite

E se já for tarde e eu pegar no sono, tudo bem.
E se já for tarde e eu não conseguir dormir, e se por um acaso a angústia da madrugada sem garantias visitar minha alma, eu seguro a sua mão. Esta mão, que é morta, mas que também é viva. Esta mão cheia de vazios, que me dá quase nada. Mas eu sei, segurar na sua mão me protegeria das minhas próprias feras. Porque eu sei que poderia sacodir você e dizer eu não consigo dormir, não páro de pensar que existem mil lobos dentro de mim, correndo loucamente. como posso dormir assim?, e que por fim você entenderia. Porque eu sei que você já andou nessas estradas escuras. Tão escuras quanto a noite. Afinal, por que tudo é tão escuro? Por que faz tanto silêncio? Não podemos, ao menos, sussurrar? Eu quero poder sussurrar antes de morrer. Porque se vivo, já morro, e se já estamos todos fadados à morte, que a minha seja tão medíocre quanto a morte daquele que tem medo do escuro, pois em nada sou diferente dele. 
Eu já nem sei mais porque andei tanto... Eu já nem sei se deveria ter tanto medo, se se trata sempre da mesma morte. Esta, lenta, causada pelas intensidades dos momentos que, logo em seguida, morrem. Esta intensidade de falar tanto e de sonhar tanto, e de anotar todos esses sonhos... 
Eu só não consigo entender como os ciclos do dia podem me fazer morrer a cada instante.

Como Lóri, eu desejo que uma mão humana segure a minha no momento de minha morte.
o som que a noite faz é alto
à noite tudo é demais: um grilo perturba
as dores aumentam
os carros avançam no sinal vermelho,
e vermelho é a cor do meu sangue que corre também.

o som que a noite faz é baixo
à noite tudo é de menos: o álcool torna as atitudes desculpáveis
os amores sórdidos
e descartáveis.

o som que comove a noite é o do pulsar do meu peito
tum-tum-tum, nunca para, e vez ou outra é surpreendido
por uma pequena falta de ar:
falta algo. falta algo que mesmo se fosse preenchido, seria vazio.

domingo, 23 de marzo de 2014

sonhos

Hoje deixaria que meus sonhos me guiassem.
Porque é domingo e porque hoje, domingo, eu sonhei com você, mãe.

Estávamos passendo de carro pelo centro de Londrina e, se já não me falha a memória consciente, você precisava parar em uma loja para comprar materiais de pintura. Eu fiquei te esperando no calçadão... De repente, senti fome. Vi uma barraquinha de lanche e ao sentir o cheiro, tive muita vontade de comer... Mesmo sendo aqueles lanches de rua que todos dizem para não confiarmos. O lanche era magnífico... E cogitei pedir dois, um pra mim e outro pra você, mas me dei conta de que não tinha uma moeda sequer e que talvez você não quisesse comer. Pedi um só e disse para a senhora que estava esperando você para pagá-la. O lanche custava dois reais. Fiquei ali um bom tempo... Comendo o lanche, deixei minha mochila na calçada e experimentava uma paz de espírito ingênua, talvez por saber que você estava por perto e que em algum momento chegaria. Um menino de rua se aproximou e sentou-se ao lado da minha mochila. Ele pediu dinheiro para comer. Perguntei se ele queria um lanche.
"Sim", ele disse.
"E um refrigerante também?", perguntei.
"Não, refrigerante não precisa". 
Por ter me assustado em ouvir que uma criança optava por não tomar refrigerante, falei a primeira coisa que me veio à cabeça:
"Senão vai dar vontade de fazer xixi, né?". O garoto sorriu, pedi o lanche para ele. Conversamos mais um pouco, acho que sobre videogames. Depois um amigo dele passava pelo local e pensei que talvez ele não vivesse nas ruas... Mas enfim.
Você estava demorando pra voltar, então decidi ligar pra você. Foi aí que veio a dúvida: você tinha celular? Se tinha, estava com ele? E como eu faria para lembrar o número? Fazia tantos anos que não ligava para você... Me confundi até com os códigos de área, e disquei o que era o número de casa na época em que você estava viva e sempre atendia às ligações... Depois me dei conta de que aquele número era antigo e liguei no outro. Ninguém atendeu.
A empregada, Nati, viu na bina que eu havia ligado e me deixou um recado no facebook. Dizia assim:
"Sua mãe está lá embaixo, na solidão da mamãe", o que me fez pensar que na verdade estávamos morando na casa da sua mãe, pois é lá que existe um " lá embaixo". Comecei a escrever a resposta... "Diga a ela, quando ela subir, para me ligar.", mas vi no relógio que já era 17:52, e a barraquinha de lanches fecharia às 18h. Então apenas escrevi "Diga para ela me ligar". 
Eu havia postado no facebook, não me lembro se antes ou depois de ter tentado ligar: "mãe, sozinha eu não dou conta", ou "Mãe, me ajuda". O último comentário dessa publicação tinha sido um homem, que disse "Sempre precisaremos dos nossos pais. Isto não é loucura. Não importa quem eles sejam".

E assim foi, mãe. Acordei de olhos bem abertos e quando me lembrei que você esteve nos meus sonhos, enquanto eu dormia, chorei... Chorei muito. Chorei pura e simplesmente porque sinto a sua falta. Ah, mãe, que falta você me faz.

miércoles, 29 de enero de 2014

A morte me deu vida. Isto é tudo o que eu tenho a dizer.
Tenho meus momentos, minhas pequenas-grandes depressões devastadoras, mas não quero falar disso.
Por tantos momentos me entreguei às grandes tempestades de minha alma,
aos grandes furacões que minhas lembranças de vez em quando ousam fazer.
Para a mim a morte sempre foi uma grande solução. Ela veio, devastou tudo. Fiquei sem mar, sem colo, sem chão. Aos poucos, fui reconstruindo tudo. Minha pele foi se regenerando, eu fui crescendo. Ao contrário de algumas pessoas, em mim parece existir um grande impulso para a vida. Por mais que seja calado, por mais que seja contemplativo; pois de vez em quando o que aprecio mesmo é sentar-me em um banco qualquer e observar a vida. Pra no fim perceber que é incrível como tudo está em seu devido lugar. Até mesmo o barulho insuportável dos pedreiros na obra ao lado. Até mesmo o calor escaldante. Até mesmo a falta de dinheiro para o carro 0km. Até mesmo a falta de uma companhia para dividir a cama.
Não se trata disso. Se trata de sentido. Existe um sentido. Um sentido para a vida, para as coisas serem, acontecerem, que de vez em quando tudo é óbvio...

sábado, 4 de enero de 2014

E se a vida não é isso, é o quê?
E se a vida não for isso, é o quê?
E se a vida for tudo isso, o que eu faço com uma vida só que me deram pra viver?

Não tem remédio, não tem receita, não tem verso, não tem rima...
A vida é mesmo toda essa monotonia e vulcões em erupção. Nossa rotina, nossos relacionamentos, nosso trabalho (ou no plural), nossa louça cheia de pia, nossa roupa cheia de tanque, nossos baldes cheios, nossa cabeça cheia, nossa paciência cheia. Mas vai me dizer, que a vida não é boa?
Principalmente quando o dinheiro está ali, separado para as contas e, quem sabe, dessa vez dê até pra ousar e pedir aquele chopp mais caro do bar que você vai toda semana...
Principalmente quando aquele amigo, por quem você brilha os olhos junto e chora junto, vem te visitar, e se abre espaço para boas risadas, boas conversas, boas comidas e boa vida.
Principalmente quando você encontra alguém e se apaixona. Sim. Simples. Principalmente quando a geladeira está cheia, o coração está cheio e os rancores estão calmos.
Quando o travesseiro não pinica, quando amanhece azulado e você decide caminhar...

O fato é que a vida está sempre nos oferecendo coisas. É praticamente um buffet, tem de tudo. Pratos frios, quentes, saladas, grelhados, massas, e churrasco. O que você vai querer comer? Melhor: do que você tem fome? parece propaganda de refrigerante, mas é a vida real. Se você não souber o que quer comer, qualquer coisa serve. Na vida amorosa também. Vale a mesma frase. "Não sabe o que quer comer? Posso dar uma sugestão? Peça este aqui...".
Em tempos difíceis como os de "ultimamente", saber o que se quer comer é como ter olho em terra de cego. Estão todos cegos, loucos, burros. Querem alguém, querem algo, querem alguma coisa. Mas ninguém sabe quem, o quê, quando. Aí fica fácil... Aparece "qualquer coisa".
Saber o que se quer comer é essencial para ser feliz. O frango pode ser delicioso, mas hoje você simplesmente acordou com vontade de moqueca de peixe. É a moqueca que você quer. Se vier frango, tudo bem. Mas o desejo grita "moqueca". Por que insistimos em nos contentar com "qualquer coisa"? Cazuza disse "migalhas dormidas do teu pão... Mentiras sinceras me interessam, me interessam!". Não, Cazuza, NÃO! Não me interessam mais mentiras sinceras. Quero sinceridade, e até pode ser defendida, mas quero verdade.

Escolha o que alimente a sua alma...
E isso não significa "bom" ou "ruim". Apenas "sagrado".

miércoles, 1 de enero de 2014

o primeiro do ano

O silêncio das tardes cálidas
que já não caem
porque depois dos fogos
vem a ressaca... o mar se acalma...
e daqui só ouvimos o canto dos pássaros.
Depois que eu morrer, quero continuar vivendo
porque uma vida só
é muito pouco pro tanto que eu tenho guardado no peito.

o dia de hoje é assim
traz a dor de amor antigo
traz a dor de morte antiga
traz a ausência do amigo
a ausência de prosa

o dia de hoje só traz café fresco
para o estômago oco
os olhos fundos
que choram de vez em quando
ao longo deste dia
que é assim...
até que o ano acabe e comece novamente.
ciclos. ciclos infinitos... isto é viver!