sábado, 29 de marzo de 2014

já é noite

E se já for tarde e eu pegar no sono, tudo bem.
E se já for tarde e eu não conseguir dormir, e se por um acaso a angústia da madrugada sem garantias visitar minha alma, eu seguro a sua mão. Esta mão, que é morta, mas que também é viva. Esta mão cheia de vazios, que me dá quase nada. Mas eu sei, segurar na sua mão me protegeria das minhas próprias feras. Porque eu sei que poderia sacodir você e dizer eu não consigo dormir, não páro de pensar que existem mil lobos dentro de mim, correndo loucamente. como posso dormir assim?, e que por fim você entenderia. Porque eu sei que você já andou nessas estradas escuras. Tão escuras quanto a noite. Afinal, por que tudo é tão escuro? Por que faz tanto silêncio? Não podemos, ao menos, sussurrar? Eu quero poder sussurrar antes de morrer. Porque se vivo, já morro, e se já estamos todos fadados à morte, que a minha seja tão medíocre quanto a morte daquele que tem medo do escuro, pois em nada sou diferente dele. 
Eu já nem sei mais porque andei tanto... Eu já nem sei se deveria ter tanto medo, se se trata sempre da mesma morte. Esta, lenta, causada pelas intensidades dos momentos que, logo em seguida, morrem. Esta intensidade de falar tanto e de sonhar tanto, e de anotar todos esses sonhos... 
Eu só não consigo entender como os ciclos do dia podem me fazer morrer a cada instante.

Como Lóri, eu desejo que uma mão humana segure a minha no momento de minha morte.
o som que a noite faz é alto
à noite tudo é demais: um grilo perturba
as dores aumentam
os carros avançam no sinal vermelho,
e vermelho é a cor do meu sangue que corre também.

o som que a noite faz é baixo
à noite tudo é de menos: o álcool torna as atitudes desculpáveis
os amores sórdidos
e descartáveis.

o som que comove a noite é o do pulsar do meu peito
tum-tum-tum, nunca para, e vez ou outra é surpreendido
por uma pequena falta de ar:
falta algo. falta algo que mesmo se fosse preenchido, seria vazio.

domingo, 23 de marzo de 2014

sonhos

Hoje deixaria que meus sonhos me guiassem.
Porque é domingo e porque hoje, domingo, eu sonhei com você, mãe.

Estávamos passendo de carro pelo centro de Londrina e, se já não me falha a memória consciente, você precisava parar em uma loja para comprar materiais de pintura. Eu fiquei te esperando no calçadão... De repente, senti fome. Vi uma barraquinha de lanche e ao sentir o cheiro, tive muita vontade de comer... Mesmo sendo aqueles lanches de rua que todos dizem para não confiarmos. O lanche era magnífico... E cogitei pedir dois, um pra mim e outro pra você, mas me dei conta de que não tinha uma moeda sequer e que talvez você não quisesse comer. Pedi um só e disse para a senhora que estava esperando você para pagá-la. O lanche custava dois reais. Fiquei ali um bom tempo... Comendo o lanche, deixei minha mochila na calçada e experimentava uma paz de espírito ingênua, talvez por saber que você estava por perto e que em algum momento chegaria. Um menino de rua se aproximou e sentou-se ao lado da minha mochila. Ele pediu dinheiro para comer. Perguntei se ele queria um lanche.
"Sim", ele disse.
"E um refrigerante também?", perguntei.
"Não, refrigerante não precisa". 
Por ter me assustado em ouvir que uma criança optava por não tomar refrigerante, falei a primeira coisa que me veio à cabeça:
"Senão vai dar vontade de fazer xixi, né?". O garoto sorriu, pedi o lanche para ele. Conversamos mais um pouco, acho que sobre videogames. Depois um amigo dele passava pelo local e pensei que talvez ele não vivesse nas ruas... Mas enfim.
Você estava demorando pra voltar, então decidi ligar pra você. Foi aí que veio a dúvida: você tinha celular? Se tinha, estava com ele? E como eu faria para lembrar o número? Fazia tantos anos que não ligava para você... Me confundi até com os códigos de área, e disquei o que era o número de casa na época em que você estava viva e sempre atendia às ligações... Depois me dei conta de que aquele número era antigo e liguei no outro. Ninguém atendeu.
A empregada, Nati, viu na bina que eu havia ligado e me deixou um recado no facebook. Dizia assim:
"Sua mãe está lá embaixo, na solidão da mamãe", o que me fez pensar que na verdade estávamos morando na casa da sua mãe, pois é lá que existe um " lá embaixo". Comecei a escrever a resposta... "Diga a ela, quando ela subir, para me ligar.", mas vi no relógio que já era 17:52, e a barraquinha de lanches fecharia às 18h. Então apenas escrevi "Diga para ela me ligar". 
Eu havia postado no facebook, não me lembro se antes ou depois de ter tentado ligar: "mãe, sozinha eu não dou conta", ou "Mãe, me ajuda". O último comentário dessa publicação tinha sido um homem, que disse "Sempre precisaremos dos nossos pais. Isto não é loucura. Não importa quem eles sejam".

E assim foi, mãe. Acordei de olhos bem abertos e quando me lembrei que você esteve nos meus sonhos, enquanto eu dormia, chorei... Chorei muito. Chorei pura e simplesmente porque sinto a sua falta. Ah, mãe, que falta você me faz.