domingo, 23 de marzo de 2014

sonhos

Hoje deixaria que meus sonhos me guiassem.
Porque é domingo e porque hoje, domingo, eu sonhei com você, mãe.

Estávamos passendo de carro pelo centro de Londrina e, se já não me falha a memória consciente, você precisava parar em uma loja para comprar materiais de pintura. Eu fiquei te esperando no calçadão... De repente, senti fome. Vi uma barraquinha de lanche e ao sentir o cheiro, tive muita vontade de comer... Mesmo sendo aqueles lanches de rua que todos dizem para não confiarmos. O lanche era magnífico... E cogitei pedir dois, um pra mim e outro pra você, mas me dei conta de que não tinha uma moeda sequer e que talvez você não quisesse comer. Pedi um só e disse para a senhora que estava esperando você para pagá-la. O lanche custava dois reais. Fiquei ali um bom tempo... Comendo o lanche, deixei minha mochila na calçada e experimentava uma paz de espírito ingênua, talvez por saber que você estava por perto e que em algum momento chegaria. Um menino de rua se aproximou e sentou-se ao lado da minha mochila. Ele pediu dinheiro para comer. Perguntei se ele queria um lanche.
"Sim", ele disse.
"E um refrigerante também?", perguntei.
"Não, refrigerante não precisa". 
Por ter me assustado em ouvir que uma criança optava por não tomar refrigerante, falei a primeira coisa que me veio à cabeça:
"Senão vai dar vontade de fazer xixi, né?". O garoto sorriu, pedi o lanche para ele. Conversamos mais um pouco, acho que sobre videogames. Depois um amigo dele passava pelo local e pensei que talvez ele não vivesse nas ruas... Mas enfim.
Você estava demorando pra voltar, então decidi ligar pra você. Foi aí que veio a dúvida: você tinha celular? Se tinha, estava com ele? E como eu faria para lembrar o número? Fazia tantos anos que não ligava para você... Me confundi até com os códigos de área, e disquei o que era o número de casa na época em que você estava viva e sempre atendia às ligações... Depois me dei conta de que aquele número era antigo e liguei no outro. Ninguém atendeu.
A empregada, Nati, viu na bina que eu havia ligado e me deixou um recado no facebook. Dizia assim:
"Sua mãe está lá embaixo, na solidão da mamãe", o que me fez pensar que na verdade estávamos morando na casa da sua mãe, pois é lá que existe um " lá embaixo". Comecei a escrever a resposta... "Diga a ela, quando ela subir, para me ligar.", mas vi no relógio que já era 17:52, e a barraquinha de lanches fecharia às 18h. Então apenas escrevi "Diga para ela me ligar". 
Eu havia postado no facebook, não me lembro se antes ou depois de ter tentado ligar: "mãe, sozinha eu não dou conta", ou "Mãe, me ajuda". O último comentário dessa publicação tinha sido um homem, que disse "Sempre precisaremos dos nossos pais. Isto não é loucura. Não importa quem eles sejam".

E assim foi, mãe. Acordei de olhos bem abertos e quando me lembrei que você esteve nos meus sonhos, enquanto eu dormia, chorei... Chorei muito. Chorei pura e simplesmente porque sinto a sua falta. Ah, mãe, que falta você me faz.

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