jueves, 29 de mayo de 2014

o que vive do que ficou?
sensações, corações, terremotos.
o que sobra do que restou?
pesares, ipês, talheres.
quase nada fica surdo
quase nunca me anulo
agora que sei que tu não és nada.
agora que sei que tu não és.

martes, 27 de mayo de 2014

Seus olhos de pantera
seu sorriso franco,
seus olhos tristes.
Choram a vida que passa,
choram e borram a maquiagem
mas não deixam de viver.

Seus olhos são o mundo inteiro:
o mundo que viveu
as paixões que viveu
o tempo que morreu
e o tempo que virá.

Você, tão jovem, tão velha,
dá risada do caos
com seu copo de martini em uma mão
e o cigarro em outra.
Enquanto a fumaça se esvai,
você chora
e você vive,
porque sabe que dentro da sua alma habita uma bela loba.

jueves, 15 de mayo de 2014

confissão

palavra presa vira o quê?
palavra presa vai pra onde?
pra onde vão todos os sonhos que a gente não come?
pra onde vão as desesperanças de amores perdidos,
roubados, rasgados?
pra onde vão os sentimentos que não dizemos por
medo da dúvida, medo de não ser, medo do medo?

coração preso por quê?
se não cometeu crime algum...
coração preso por quem?
coração sobrevivente não só bate.
precisa de todos os cuidados.
precisa de cuidados melhores.

e quando a gente não sabe definir o que sente?
é medo, é certo ou é nada?
meu sentimento não sabe perdurar,
só sabe ser quando é.

o que precisa morrer hoje para que mais vida possa nascer?
estou com medo do sono tranquilo, do confiar que o outro não dilacerará meu coração...
estou com medo de pegar na sua mão, de ser feliz, porque quem é feliz também é triste,
mas eu tenho a impressão que quem ama, está cego.
Eu tenho medo de escolher, dizer "sim" para o seu amor.
Porque quando a gente fala de escolher, eu me lembro da escolha que fui feita.
Não achei que fosse ter que escolher de novo tão cedo. Tenho medo de errar,
mesmo sabendo que não há erro.
Porque eu nunca fui feliz.

domingo, 11 de mayo de 2014

antes o medo gritava
me dizia do peso da escolha
da possibilidade do erro
da possibilidade de.

com medo mesmo,
fui caminhando
devagar, sem pensar.

entrei nos seus espaços
deixei que entrasse nos meus
simples e complexo.

derramei por mim lágrimas de compaixão
derramei-me por inteiro do que fui
e o medo me dizia que se havia a possibilidade de dar errado,
daria.

hoje me dei conta: não conta.
não ouvia mais os gritos
e ouvi um sussuro.

sábado, 10 de mayo de 2014

Hoje não sofro de grandes faltas.
Sofro das pequenezas que compõe a vida,
sofro pela árvore que morre
pela rua de asfalto
pela falta de raízes no solo.
Sofro por aqueles que negam as batidas do próprio coração,
como se coração fosse coisa pouca.

Ausências são buracos que se esvaem
onde tudo cabe nada
e o nada pode tudo: na ausência há uma completude que só a falta pode trazer.
Há um tempo descobri
que é preciso voltar-se para a terra,
pegar na lama
sentir as raízes
para, então, voar bem alto.
É disto que estou falando: de remexer em baús
redescobrir cartas
soltar os presos que têm tanto a me contar.
É disto: deste aceitar, que eu falo. Coisa estranha, bem sei, mas
coisa também que não quero perder.
Porque já perdi tempo demais achando que meus baús deveriam ser fechados,
lacrados, esquecidos.
E dia a dia, enquanto envelheço, remexo neles:
Pra não te perder na memória
pra não deixar a vida me afastar das raízes
pra não esquecer desta história, minha.