jueves, 24 de julio de 2014

Hoje é seu aniversário. Nem sei porquê estou levando isto tão a sério, já que não sou sua mãe e não fui eu que te pari, sequer estava viva quando você veio ao mundo. Você veio ao mundo no dia 25 de julho de 1953, não sei que horas. Acho que foi de manhã.
Eu nem estava viva quando você nasceu, mas foi você quem me deu a vida. 
E hoje seria o dia em que comemoraríamos os seus 61 anos de vida vividos. Mas, você comemorou apenas 52. Seja como for, hoje é o seu dia. Porque não é só porque as pessoas morrem que não se pode mais comemorar seus aniversários. Lógico que não vou chamar convidados, nem encomendar uma torta salgada, mas, obviamente, me lembrarei de você. 
Não me assusta mais a ideia da sua ausência, ou mesmo de sua presença, em meus pensamentos, ações e devaneios diários. 
O que eu te diria neste dia? 
Bem, eu não posso dizer ao certo... uma vez que seria uma injustiça com você, que nem está aqui para poder se defender. Afinal, se eu mudei nesses 8 anos, você também haveria de ter mudado. Não sei no que teria se transformado. Por ora, só posso falar por mim.
Então, dirijo-me a mim mesma. O que eu diria a você no dia do seu aniversário, tendo em vista minhas próprias mudanças, e imaginando você aí, sentada, me ouvindo ou lendo. 

Mãe,

Hoje acordei e não precisei do calendário para me lembrar que havia chegado o dia 25 de julho.
Gosto muito desse dia. Acho uma data bonita. E acho também que gosto do número 25. Não sei explicar, agora, o motivo. Não me leve tão a sério. Você bem sabe - ou eu espero que saiba - que sua filha aqui, a caçula, é muito filosófica. Tenho capacidade para sentar e ficar apenas pensando por horas a fio. Tentarei ser discreta e objetiva. Obviamente irei fracassar nessa tarefa. 

Fico imaginando você, com toda a sua majestosa paciência, lendo-me. O que pensará? 
Imagino que se orgulhe. E eu também. Acho que posso dizer que me orgulho de mim mesma. E talvez por isso hoje queira lhe dar os parabéns. Eu devo um "muito obrigada" a você. Você fez o que pode. E fez o melhor. As mães sempre dão seu melhor. Dão aquilo que têm e também aquilo que não têm, em certa medida. Acho que você deu aquilo que estava ao seu alcance. Deu aquilo que recebeu, aquilo que achou que seria certo, aquilo que, imagino, faria você se orgulhar um dia.

Eu desejo que você passe um bom dia, que reflita, que reze, coma e dance, se puder. Receba os presentes. Você é uma mulher mais forte do que imagina. Você é mais mulher do que imagina. O mundo inteiro cabe dentro de você, porque dentro de mim eu carrego o mundo inteiro, e um dia estive aí... da maneira mais próxima que alguém pode estar de outra pessoa: dentro dela. 
No fundo, mãe, eu não consigo te imaginar fazendo muitos aniversários. Eu não sei o que vem por aí. Talvez você seja uma velhinha frágil, magricela, pouco falante. Talvez você dê aqueles tapinhas nas minhas costas quando eu bater o pé dizendo que vou fazer tal e tal coisa. 
O fato, mãe, é que eu te amo. E acho que sempre vou amar. Continuarei amando, mesmo que a morte nos separe. Mesmo que eu te odeie, eu te amo. Mesmo que eu sinta ódio ou mágoa, eu te amo. Meu amor por você não é condicional. Eu não tenho escolha quanto a isso. Te amo e não abdico do cargo de filha. Mesmo que você suma. Saiba que um tanto do que você me ensinou eu também vou ensinar aos meus filhos, mesmo que eu condene algumas coisas, mesmo que eu odeie algumas coisas, mesmo que. Porque é assim: posso até falar disso, e transformar algumas besteiras que você fez em feitos um pouco melhores, um pouco mais autênticos de minha parte, mas um resquício seu sempre haverá. Por exemplo: vou sempre levar comigo a sua gargalhada. O seu bom humor e calma matinais. A sua paciência em dizer coisas pra mim. A sua sabedoria nas pequenas coisas, e até um pouco dos seus erros. Seus piores erros foram os que me transformaram em quem eu sou. 
Mãe, pode parecer loucura, mas você não sabe a cagada que fez quando engravidou: é pra sempre. É brincadeira, claro. Eu já estou no mundo há 26 anos, não posso dizer que tem algo errado nisso, caso contrário eu seria uma baita hipócrita. Me analisei o suficiente para saber que se eu nasci, mesmo sem pedir por isso, já estou posta no mundo e devo arcar com as dificuldades dele. Mas existem também as belezas... E delas você me ensinou bastante. A olhar com calma, a comer com calma, a falar com calma, existir com calma. "Nada é pra já". 

Obrigada por ter existido. Aos antepassados que foram passando você de geração em geração, até eu nascer. Obrigada, mesmo pelos genes ruins. Obrigada por ter me ensinado a descascar laranja e a lavar meias brancas. Obrigada por ter me ensinado a manter o meu guarda roupa organizado, e por me fazer entender que sofrer por antecipação é uma idiotice sem fim. Obrigada por ter me ensinado a humildade, e o respeito a qualquer outro ser humano (ou quase todos, vai, porque você não é Chico Xavier. E que bom que não é). Obrigada por ter me levado ao médico quando eu precisei, mesmo se desesperando assustadoramente quando eu aparecia com um corte no dedão. Obrigada por ter me protegido, por ter ido ao meu quarto toda santa noite me dizer para não ter medo, e que qualquer coisa eu poderia ir até o seu quarto te chamar. Obrigada por ter me dado meu primeiro absorvente e sutiã. Obrigada por ter ido ao ginecologista comigo pela primeira vez, e por ter adivinhado no meu olhar a primeira vez em que fui ao motel. Eu nunca conseguiria te dizer isso espontaneamente. Obrigada por ter me ensinado a dirigir, e por ter abdicado horas do seu dia pra ir tomar sorvete e comprar revista na praça aos domingos. Obrigada por ter me feito aprender a pintar, mesmo que porcamente, porque eu não levo jeio pra coisa (mas de vez em quando me arrisco). Obrigada por me apoiar em todos os cursos que eu já quis fazer: jornalismo, medicina, música, filosofia, musicoterapia e psicologia. Acho que se eu te dissesse que queria ser lixeira você me apoiaria. Obrigada por ter me contado coisas a respeito da minha infância e da época em que eu ainda estava dentro da sua barriga. Isso ajuda a reconstruir a nossa história. Obrigada por ter me elogiado tantas e tantas vezes, nunca ter me humilhado ou maltratado deliberadamente. Se hoje olho no espelho e me vejo bonita, muito do que vejo foi visto antes por você. Obrigada por isso. Obrigada por ter me deixado, porque isso me fez amadurecer como nunca nessa vida. E obrigada por ter me ensinado o que significa perder alguém, o que significa cuidar de alguém doente, o que significa ver alguém perto do fim... O aprendizado e o crescimento que vieram com isso são impagáveis, apesar do sofrimento absurdo. Obrigada, mãe.

Feliz aniversário.

Sua filha,
menina,
mulher,
e que um dia também será mãe,

Manuela.  

lunes, 14 de julio de 2014

carta nº 1

Me diga uma coisa: você está vivendo a sua vida?
Não. você não me entendeu. Eu perguntei vivendo. Vi-ven-do. Está vendo?
Mas como você é cabeça dura. Ouça-me: está ou não está sentindo o seu coração bater?
Me diga, qual foi a última vez em que sentiu que dentro do seu peito tem um coração?
É incrível senti-lo bater!

Sabe que eu tive essa experiência esta semana, e me peguei pensando: esse órgão tão pequenino consegue fazer o meu corpo inteiro funcionar? Se um dia (e este dia vai chegar) ele parar de bater, vou morrer. É loucura. É loucura.
Este órgão tão pequeno se acelera quando você menos espera,
porque ali virando a esquina está aquela que faz seus pelos se arrepiarem. E ela vem linda...

Este órgão parece murchar e sentimos como se houvesse uma mão sufocando-o,
quando ouvimos "eu não sinto nada por você", "que merda tudo isso que você fez", e o pior: "ela se foi". O pior de tudo é quando o coração do outro pára. Para de sentir, para de bater, morre. Que merda. Temos aí uma das coisas mais bizarras da vida.

Mas veja, é preciso sentir. Sentir que o seu coração bate. Não importa se você está no trânsito ou em uma reunião importante, ou fazendo amor (convenhamos que nesta última ocasião o mínimo a sentir é o coração batendo).
Viva a sua vida. Sabe que eu já nem sei se me importa estarmos tão longe? Foi assim que aprendemos, não foi? Aprendemos a perder. Mas aí achamos que perder uns aos outros não faria diferença. Faz? Acho que desaprendemos (ou nunca aprendemos isso?) a demonstrar o que sentimos uns pelos outros.  
Às vezes me sinto uma desconhecida perto de você. Acho que você não me (re)conhece mais, nem eu a você. Eu mudei muito. Me mudo todos os dias, mas o ruim é quando me mudo de mim. Aí sinto uma ausência de alma, e é justamente neste momento que eu temo a morte. Ando sofrendo deste medo. De morrer. Fico pensando que, no mesmo momento em que estamos aqui, conversando, piscando, comendo, enfim, fazendo todas as coisas que nos cabe fazer; em um outro momento não estaremos. Seremos um corpo gelado em um caixão brega cheio de flores. Que merda. Fico pensando se já falei o suficiente, se já amei o suficiente, se já te disse "eu te amo" olhando nos seus olhos. E se há uma coisa que eu não quero é ter a percepção de que passei a maior parte da minha vida trabalhando, enfrentando filas, pagando contas, correndo para não me atrasar, correndo para chegar depressa, correndo para nem sei onde e indo ao mercado. Todas essas coisas fazem parte, eu sei, mas o que eu tento fazer é rimar no meio delas. Às vezes não rimo, porque há dias em que nada rima, nem ri, nem rema. Há dias em que eu fico parada. Calada, quieta, apenas envelhecendo junto aos minutos que passam.  

Eu ando tendo medo da morte, mas não é só ela que me assola, não. Me assola o medo de mim mesma. Sabia que de vez em quando eu acho que seria fácil pra mim enlouquecer? Sabia que de vez em quando me sinto tão distante daquilo que era que acho que consigo ser deus? Não Deus, mas esse deus menor, esse deus eu. Que inocência a minha. Que inocência a minha, mas preciso compartilhar uma grande descoberta que fiz: a cada dia que passa, mais próximos estamos da morte. E se for hoje? O que eu vou ter deixado? 

miércoles, 9 de julio de 2014

eu não sei o que a vida é
o que quer
eu quase nunca soube.
eu não sei se ando devagar
porque não sei se o que a vida quer de mim é calmaria

nem sei sequer se ela me ouve.

eu não sei mais se me movo,
porque quanto mais falo
mais morro.

me pergunto: é preciso saber?
a possível resposta é que tenho medo da resposta certa
acho que as coisas não tem muito jeito
ou sou eu que não tenho jeito com elas?