lunes, 14 de julio de 2014

carta nº 1

Me diga uma coisa: você está vivendo a sua vida?
Não. você não me entendeu. Eu perguntei vivendo. Vi-ven-do. Está vendo?
Mas como você é cabeça dura. Ouça-me: está ou não está sentindo o seu coração bater?
Me diga, qual foi a última vez em que sentiu que dentro do seu peito tem um coração?
É incrível senti-lo bater!

Sabe que eu tive essa experiência esta semana, e me peguei pensando: esse órgão tão pequenino consegue fazer o meu corpo inteiro funcionar? Se um dia (e este dia vai chegar) ele parar de bater, vou morrer. É loucura. É loucura.
Este órgão tão pequeno se acelera quando você menos espera,
porque ali virando a esquina está aquela que faz seus pelos se arrepiarem. E ela vem linda...

Este órgão parece murchar e sentimos como se houvesse uma mão sufocando-o,
quando ouvimos "eu não sinto nada por você", "que merda tudo isso que você fez", e o pior: "ela se foi". O pior de tudo é quando o coração do outro pára. Para de sentir, para de bater, morre. Que merda. Temos aí uma das coisas mais bizarras da vida.

Mas veja, é preciso sentir. Sentir que o seu coração bate. Não importa se você está no trânsito ou em uma reunião importante, ou fazendo amor (convenhamos que nesta última ocasião o mínimo a sentir é o coração batendo).
Viva a sua vida. Sabe que eu já nem sei se me importa estarmos tão longe? Foi assim que aprendemos, não foi? Aprendemos a perder. Mas aí achamos que perder uns aos outros não faria diferença. Faz? Acho que desaprendemos (ou nunca aprendemos isso?) a demonstrar o que sentimos uns pelos outros.  
Às vezes me sinto uma desconhecida perto de você. Acho que você não me (re)conhece mais, nem eu a você. Eu mudei muito. Me mudo todos os dias, mas o ruim é quando me mudo de mim. Aí sinto uma ausência de alma, e é justamente neste momento que eu temo a morte. Ando sofrendo deste medo. De morrer. Fico pensando que, no mesmo momento em que estamos aqui, conversando, piscando, comendo, enfim, fazendo todas as coisas que nos cabe fazer; em um outro momento não estaremos. Seremos um corpo gelado em um caixão brega cheio de flores. Que merda. Fico pensando se já falei o suficiente, se já amei o suficiente, se já te disse "eu te amo" olhando nos seus olhos. E se há uma coisa que eu não quero é ter a percepção de que passei a maior parte da minha vida trabalhando, enfrentando filas, pagando contas, correndo para não me atrasar, correndo para chegar depressa, correndo para nem sei onde e indo ao mercado. Todas essas coisas fazem parte, eu sei, mas o que eu tento fazer é rimar no meio delas. Às vezes não rimo, porque há dias em que nada rima, nem ri, nem rema. Há dias em que eu fico parada. Calada, quieta, apenas envelhecendo junto aos minutos que passam.  

Eu ando tendo medo da morte, mas não é só ela que me assola, não. Me assola o medo de mim mesma. Sabia que de vez em quando eu acho que seria fácil pra mim enlouquecer? Sabia que de vez em quando me sinto tão distante daquilo que era que acho que consigo ser deus? Não Deus, mas esse deus menor, esse deus eu. Que inocência a minha. Que inocência a minha, mas preciso compartilhar uma grande descoberta que fiz: a cada dia que passa, mais próximos estamos da morte. E se for hoje? O que eu vou ter deixado? 

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