viernes, 5 de diciembre de 2014

sobre corpos que vivem.

Acabo de voltar de um espetáculo de dança árabe, de uma escola de dança aqui da minha cidade. Só tenho duas palavras: estou maravilhada. Aliás, eu tenho mais para dizer. E para dançar.

Lá, em cima daquele palco, haviam mulheres. Mulheres belas, grandes, fortes, pequenas, delicadas, tristes e alegres. Mas não só. Lá, em cima daquele palco, haviam corpos. Corpos que habitam almas, almas que dançam, escandalosa e maravilhosamente, com toda a dor que carregam nos joelhos. Lá, as mulheres sorriam enquanto requebravam seus quadris, balançavam seus quadris, mexiam seus ombros e gingavam seus pescoços no ritmo dos tambores. As roupas eram extravagantes e belas, coloridas de cores também belas, além de marcantes. Os rostos daquelas mulheres me diziam que tudo é possível para quem possui um corpo, porque o corpo pode tudo. Ele pode morrer, e também pode nascer muitas vezes. Pode sofrer - e sofre - e pode ressurgir das cinzas. E ressurgindo, pode fazer poesia com os braços, pernas, pés e mãos e ventre. E pode dançar. Os órgãos estão vivos: pulsantes, jorram sangue, fluidos, vida. E morte. Porque se trata da mesma coisa, só que de diferentes perspectivas. 
Naquele palco, nesta noite, haviam mulheres girando, girando e girando, com seus pés descalços, no ritmo da música. 
Eu, que mesmo não sabendo dançar como elas, me vi cheia de vida. E chorei e ri e até gargalhei ao olhar tanta vida junta em um mesmo lugar. Eu, mesmo com meus joelhos estragados, me vi bela. Eu, mesmo com um corpo que não se adequa aos padrões de beleza ocidentais, me senti poderosa. Era eu rodando, remexendo meus quadris e gritando naquele palco. Era eu, vestida com as saias lindas e coloridas, adornada com as flores no cabelo, mil pulseiras, anéis e brincos, mexendo tudo o que em mim está vivo. Há vida em mim, e aquelas mulheres me mostraram que é possível ser viva e ter vida com o corpo que eu tenho. Esta sou eu: mulher como sou. E como toda mulher é um universo, e é bonita por conseguir habitar em si mesma um universo, eu me senti igualmente bonita. E tive vontade de viver, e de continuar morrendo com as experiências que me pedem sepultura. Ali, eu perdi o medo da morte, e o medo do meu escuro. E bati palmas com as minhas mãos suadas - porém, belas e vivas - e senti o meu coração pulsar de alegria e de temor. 
Eu posso dançar com o que tenho, sendo quem sou, e posso existir sendo eu mesma, e posso fazer outras pessoas felizes. Isso é genuíno e quase uma afronta ao mundo em que vivemos hoje, mas esta noite eu me senti poderosa. E talvez estas mulheres tenham encontrado em sua dança a razão para sobreviver, e também viver mais e melhor. Por isso continuam a girar, girar e girar. 
Porque são belas, e porque girar é lindo. E porque essas mulheres aprenderam quando é hora de parar de girar. 
No meu peito cabe uma angústia que não sei nomear, um vazio que quase sempre tem nome do que não vivi, mas esta noite eu senti que havia uma possibilidade. Por isso continuo. Viver talvez seja encontrar, dia após dia, uma possibilidade para continuar. Meus dedos param e eu não sei dizer muito mais do que isso, que na verdade é o que posso, e por isso vou parando. Porque, como aquelas mulheres, eu estou aprendendo quando parar. E, como aquelas mulheres, continuo remexendo os meus quadris, usando os meus lenços amarrados na cintura, meus anéis e meu lápis marrom nos olhos, e meu batom vermelho nos lábios; porque há uma possibilidade de vida justamente aí. E sei que não estou sozinha. Continuemos, a pintar a cara, o corpo, a dançar, a gargalhar bem alto, aprendendo a amar nossos corpos como eles são, cultivar flores em nossos ventres, acariciar-nos, dar de comer a esta que ficou abandonada na estrada, pedindo o seu rumo de volta. Venha, seu rumo é aqui. Aqui, onde seguem essas mulheres que dançam. Dancemos.  

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