lunes, 23 de noviembre de 2015

malformações

meu cardiologista interrompeu minhas tarefas cotidianas com um telefonema, às quatro da tarde. 

"foi encontrada uma malformação no ventrículo direito, o que faz com que o seu músculo cardíaco inche mais e mais a cada dia. será preciso tomar um medicamento ininterruptamente até o fim da sua vida, ou corre-se o risco de um infarto fulminante a qualquer momento." 

entendi algumas poucas palavras de seu vocabulário médico - graças ao professor de biologia do segundo grau -, mas pra mim o mundo continuou sendo esse lugar esquisito, em que médicos são mais valorizados do que jardineiros. há uma delicadeza em cuidar do desabrochar silencioso da vida, enquanto humanos cuidando da saúde de outros seres humanos são desumanizados. 

ainda restava uma esperança de que haveria poesia no fato de alguém ter escolhido cuidar do coração das pessoas e saber o significado simbólico de possuir um. mas hoje a humanidade me decepcionou. 
já passei por inúmeras desilusões-cardíacas, mas a grande ironia da vida foi ter meu coração partido pelo meu próprio cardiologista. pior do que isso, a descoberta de que ele mesmo não tem coração. 
pelo menos não no sentido que deveria. 

foda-se o ventrículo esquerdo. 

domingo, 15 de noviembre de 2015

*** recortes sobre o amor ***

sua lembrança me causa palidez estomacal. é como se eu estivesse cheia estando vazia. 
você é um poço de eternidade, e desde que te vi soube que seria um pouco difícil me recuperar do tombo. se identificar com alguém é sempre cair. pelo que a gente se apaixona no outro? por aquilo que o outro não é. por aquele olhar que não diz nada e a nossa ilusão completa todas as lacunas. amar é sempre solitário. amar é sempre um poço. amar sempre foi aquoso. explica-se porque pedras não amam; porque o amor não pode ser duro. nem na queda o amor é duro. a queda do amor é macia. o que machuca é o levantar-se. é sempre o movimento de sair do chão que causa dor nas articulações.

portanto, articulamos meios de não sofrer muito: não amar muito, não falar muito, não se entregar muito. mas o amor sofre de artrite reumatóide. o amor é uma doença auto imune. começa sozinho e só pode ser curado no consultório do analista, tendo em vista que nunca tem causa conhecida. e tudo o que não tem causa conhecida vai parar no consultório do analista (o médico me disse que esse aperto no peito é psicológico).

o amor é um charlatão, e quem se engana é a gente. nem se deveria mais tocar no nome do amor, escrever cartas de amor, fazer coisas por amor. tudo isso acaba mal. 

o amor não deixa eu me concentrar. o amor me dá sono. o amor não me deixa trabalhar. faz tempo que o conheço, e nunca aprendi a lidar. será um tipo de droga? você sabe que faz mal, e usa. tem ressaca, mas assim que se recupera, toma mais uma dose. céus, que tipo que coisa é essa que inventaram? 

vamos nos ver? hoje, agora, daqui cinco minutos. não, desculpa, eu não quis dizer isso, apaga, deleta. mas palavra não se apaga mas só essa por favor faça essa gentileza com a minha falta de tato. vamos nos ver vamos ver um pouco mais mas eu acho que quem tem problema de visão aqui é você. 
quer o telefone do meu oftalmologista? quem sabe poderíamos dividir os graus de miopia que ele me deu aos 11 anos? vamos ficar em silêncio enquanto esperamos a secretária nos chamar. 
nosso silêncio cabe inteiro dentro de mim. ele não persegue nem arromba, não me destrói nem descansa. nosso silêncio cabe no barulho do mundo. 

o amor é um fliperama. eu tenho moedas de 1996 que não servem mais. agora é tudo no débito. 
eu esqueci de me atentar às palavras, fiquei só com as batidas do meu coração. eu esqueci de olhar o outro. eu só quero poder recostar minha cabeça e descansar um pouco. eu preciso descansar um pouco, não me leve a mal. me leve pra casa. entre comigo e não diga nada. fiquemos em silêncio até às 3 ou 4 da manhã, que é quando começa a hora perigosa da madrugada. então falaremos no escuro, deitados na cama frente a frente com nossos hálitos quentes e submersos nas entrelinhas que dizem "vida". você vai me contar uma estória que é metade mentira metade verdade e eu vou fingir que acredito. eu vou te contar uma parte triste de tudo e você vai dizer que acha bonita a tristeza. então os nossos lábios irão se encostar e aí eu posso dormir em paz. eu quero estar em paz. 

                                                                                                               

                                                                                                                   mas o amor é uma guerra. 




o amor é uma coisa terrível muito terrível e a gente nem sabe como vai fazer pra ser-com-o-outro e continuar sendo inteiro. 



P.

lunes, 2 de noviembre de 2015

findado

finados e a garoa fina
que sempre antecede o aniversário do meu irmão.

finado é aquele que por força das circunstâncias findou antes de mim.
finado é aquele com quem a gente não consegue ser futuro,
mas mesmo assim está.

a morte é a visita incoveniente que nunca tem assuntos interessantes
e fica.

a ausência vai ficando confortável com o passar do tempo.
como é que uma ausência se torna confortável?
a ciência ainda não descobriu.
o fato é que a ausência, em certo momento, deixa de doer.
é como se a dor se acomodasse em alguma poltrona da nossa alma, sentasse, pegasse uma xícara de café e ali ficasse durante horas. mas ela fica por dias, semanas, décadas. é isso o que acontece com a ausência acostumada.

finado é aquele que chegou
ao fim
do que o destino
prometeu
e sempre cumpriu.


a garoa é uma forma de compaixão 
é como se deus se desculpasse pelos estragos causados 
pelo temporal da morte. 

domingo, 25 de octubre de 2015

sábado, 24 de octubre de 2015

obstetrícia analítica

[tem palavra
que precisa
ser retirada às pressas
antes que corra o risco
de icterícia
ou falta de oxigenação.
ela precisa nascer
e ainda suja de placenta
ser levada
imediatamente
ao colo da mãe.

durante o trabalho
parto e permaneço
com a corda pendurada no ponteiro
da bolsa que rompe o tempo
escorre e molha
o divã inteiro.
foram tantas
contrações
pra dar luz ao rebento
que por um instante
me arrependo,

mas a palavra
recém-nascida
berra alto
e não tem quem a faça
voltar pra dentro.


volto
semana que vem]

jueves, 22 de octubre de 2015

Santa Mônica

Os olhos são intrusos. se metem onde não foram chamados. como no dia em que te vi, parado, imóvel - o que seria a mesma coisa - em frente à prateleira. eu não ia olhar. estava cansada, apesar da vida estar indo bem (mas eu me utilizei da fantasia pra escrever tudo isso. pra ficar menos óbvio e porque eu não sei escrever difícil. assim pareço mais verossímil? assimilável?).

o que senti naquele dia?
tédio?
vazio?

quero crer que sim.
quero crer que você não me ligou só para dizer "tenho algo a te dizer". e não disse. ficamos conversando sobre outras diversas coisas, e como eu sempre tendo a desviar do assunto (ou é você que faz isso?), fugimos. e fugimos tanto que eu perdi o caminho de volta. foi como quando entrei num ônibus que não sabia pra onde ia. eu estava no centro da cidade, girei a roleta e sentei ao lado de um velho barbudo e mal cheiroso. parei num bairro chamado santa mônica. quis ser santa, desejei com a força dos meus ossos nunca mais me apaixonar. mas o que eu sei sobre a paixão? absolutamente nada. fiquei ali, andando por um tempo - ou foi por uma tarde? - e quis não ser mais eu. quis ser a mônica santa. quis me transformar em uma pessoa melhor, em uma mulher melhor (quis ser mulher, afinal), que não se apaixona por ideias, que não se envolve com estranhos, que não sorri para mendigos, que não procura só pelo mais difícil. quis ser sóbria. mas parece que nasci errada, torta, prematura. faltou tempo para eu maturar e agora amadureço na crueza dos dias, e desse seu olhar tão doce.
eu tomava ansiolíticos aos 17 e talvez fosse melhor nunca ter me envolvido com a música pop. ela me tornou uma pessoa horrível, que escreve poesias. uma pessoa que ninguém quer ser.
(...)

me indago, agora, 12 anos depois: onde eu estava com a cabeça quando desci no santa mônica? por que você também estava lá? por um acaso se perdeu?
mas então, eu não disse nada. nunca. e tudo se transformou em uma grande novela cruel dentro da minha cabeça, e se meus órgãos internos pudessem falar, eles gritariam.
e então você me ligou.

- "esqueci de te dizer algo importante."
- pois diga.
- "não é assim que se aborda alguém que quer dizer algo importante."
- quis.
- "o quê?"
- você não disse que se esqueceu?
- "por que você não deixa escapar nada?"
- foi você que disse.

te incriminei. pelo esquecimento de palavras. afinal, você não tinha esquecido. só teve medo de dizer. mas agora era eu quem tremia de medo dessas palavras esquecidas. queria escutá-las?
você queria que eu desse as respostas.

- "tá, tudo bem. o erro foi meu de não ter dito no momento certo. o fato é que não consigo dormir."
- eu também não consigo dormir (desde santa mônica eu nunca mais dormi bem).
- "como faço para te dizer?"
- dizendo.
- "tenho medo da sua reação."
- seu suspense só faz piorar a situação. e rimar foi um acidente.
talvez tudo isso seja um acidente. o problema é que eu não tenho seguro. vou ter que pagar pelo conserto. sozinha.
- "eu também vou ter que pagar."
- estamos quites.

estremeci. afinal, era grave. era muito grave. era gravíssimo. a gradação só fazia diminuir a minha vontade de ter descido em santa mônica.

- eu não posso te ajudar. é preciso ter coragem.
- "mas eu sou medroso."

eu fui avisada.

você apareceu depois de um tempo, com seus tênis velhos. eu não sabia mais como descrever. abri a porta e te olhei como se nunca quisesse ter te reconhecido. mas eu reconhecia, meu corpo inteiro te reconhecia, minha pele reconhecia. minhas mãos reconheciam. e por fim, vieram os olhos. eles disseram. era o inferno na terra. mas você era doce.
sentou no meu sofá, disse que havia sido muito burro em ter esquecido. e fez algo pelo qual nunca vou te perdoar: você chorou.
fui até a cozinha e preparei um chá pra você. te servi na minha caneca favorita. com açúcar, com afeto. você agradeceu. e logo começou a contar.
eu não queria ouvir. nunca quis. mas eu não te avisei, pensei que os olhos pudessem fazer tudo isso por mim. mas eles não puderam.

- "passou muito tempo. ainda é possível dizer?"
- você se esquece que já está dizendo.
- "então por que você não responde?"
- porque eu preciso escutar primeiro.

você chorou mais. busquei papel higiênico pra você. te vi assoar o nariz. foi deprimente. e você tão doce. covarde como uma criança perdida no supermercado. eu queria ser a santa que perdoa tudo. mas eu era apenas mônica: humana.

- eu nunca vou te perdoar.
- "não?"
- não. eu não sou santa. eu não desejo que você se lasque. eu apenas não vou te perdoar. esse fardo é meu, não seu. minha vida foi marcada e agora não dá pra voltar atrás.
- "você está certa."
- não me importaria se estivesse errada.

eu poderia ser mônica, mas era apenas uma mulher qualquer. enfim agora havia me transformado em medusa? eu te paralisava e transformava em pedra?

você disse as piores coisas que alguém pode dizer. falou do presente. elogiou meu corte de cabelo. minha biografia do neruda. meu herman hesse. invadiu minha literatura. invadiu meu olhar naquela maldita tarde nublada. e sempre permaneceu imóvel, como no dia em que te encontrei imóvel em frente à prateleira.

- "eu não sei mais o que te dizer."
- você nunca soube.
- "não precisa ser cruel."
- você não lida bem com o fato de eu encarar as coisas de frente.
- "você não entende."
- foda-se.

desconstrui sua linha de raciocínio com um palavrão. você me olhou torto. ainda era doce, mas agora era alguém doce que me olhava torto. agora além de não ser santa não ser mônica e não ser nada eu era mal criada.

- vá embora. eu preciso dormir.
- "mas,"
- mas?

e o silêncio durou pra sempre.

martes, 20 de octubre de 2015

[um casal se beija
no sol do meio-dia:
a paixão
não tem medo
de insolação.

o amor passa protetor solar
porque se lembra
das marcas
de queimaduras
passadas]

domingo, 18 de octubre de 2015

religare


[não tenho dúvidas
de que deus existe.
escrevo deus
sem maiúscula
porque ele mora
nas pequenas coisas.
deus se sustenta
na alça da minha xícara de café
já trincada
há muito tempo
mas que nunca se quebrou por inteiro;
na luz do fim do dia
que bate de certo modo no umbral da porta da cozinha
e me faz querer viver para sempre
este instante;
no seu olhar
que, apesar de vivo
e atento
se mostra frágil
e me faz querer cuidar de você
como quem cuida de um passarinho;
no ipê que desfloresce
deixando presa em meu cabelo
uma flor amarela
que só percebo na hora do banho;
na risada da minha amiga
que é pulsante
apesar de ter o coração quebrado.

deus mora
na possibilidade
de te ver de novo;
mora
no meu lugar preferido
do sofá;
deus repousa
no meu travesseiro
que fica ao lado esquerdo da cama:
deixo ele ali
imperturbável,
dormindo ao lado
do coração.

deus existe
e não me resta a menor dúvida.

deus mora na pergunta
que ainda não fiz.

deus mora
no bebê que demora
a nascer
na brisa fresca
de um entardecer
na rima pobre
e feliz.

deus mora
no clichê brega
de um coração disparado
porque
deus
é amor]

sábado, 17 de octubre de 2015

[eu não gosto
de medir palavras
pra caber nos ouvidos
de quem só me escuta
pela metade]

uma comum existência

estar em casa à tarde é:

ferver água pra um café;
lavar roupa;
passar o café, com três colheres de sopa cheias;
deixá-lo passando em cima da pia, voltar pra mesa e esquecer de fechar a garrafa térmica;
pensar em você no meio de tudo isso;
ouvir o barulho da construção e as risadas dos pedreiros;
tomar três ou mais xícaras de café;
escrever alguns poemas;
lavar a louça;
cochilar por 18 minutos;
ler um pouco;
escrever um pouco;
pensar em você absorto nas coisas de uma tarde normal
e quente pra burro.


sabe, tem feito calor aqui dentro.

jueves, 15 de octubre de 2015

licença poética

[o frio na espinha que aqueceu meu peito e eram duas da tarde;
o dia em que a tristeza parecia maior do que o mundo inteiro;
a mão que eu queria ter tocado para expressar minha compaixão;
a felicidade estampada na boca da criança melecada de recheio de biscoito;
as saudades jamais reveladas por medo da rejeição;
o adeus que eu queria ter dado humanamente;
o palavrão que eu deveria ter dito naquela noite de dois mil e alguma coisa quando você disse que estava indo embora.


já cogitei que a poesia pudesse ser uma maneira bonita de ser covarde
(uma vez que dizer em prosa é mais fácil do que dizer com boca, com saliva que é viva e é tanto), mas hoje vejo que não:
poesia é uma forma de marcar as coisas
que alcançaram o peito
e foram direto
ao coração]

martes, 6 de octubre de 2015



[no fundo
sou politeísta:
toda noite
agradeço tanta coisa
que pego no sono
no meio da oração]

martes, 29 de septiembre de 2015

[meu coração
é um órgão inquieto
insone
tem olheiras por ficar acordado a noite toda
pulsando.
de manhã
em cima da mesa
(pulsa)
no fim da tarde
está cansado
mas sabe
que (ainda) há trabalho a fazer
porque não encontrou
o seu sentido
de ser.

meu coração resume-se
a uma rima pobre:
órgão passível
de comoção,
sensível
por vocação.

mesmo assim
o cadastrei na lista de doadores:
poeta, ansiosa e fumante.
coitado
do primeiro
na fila
do transplante] 

domingo, 27 de septiembre de 2015

notas sobre um deslizamento de terra. ninguém se feriu.

Em cima da mesa, o café mancha a toalha com galos bordados. A garrafa não foi enxugada corretamente, então, quando a apoio na toalha com galos bordados, mancha. 
O café mancha. Minha angústia escorre pelas paredes da casa, a fumaça do café se mistura com ela e torna tudo um pouco mais vivo, mais real.  
O café, ao menos, me salva. Me salva da minha própria moléstia, da minha própria solidão, do desespero que criei.
Esses dias me perguntaram se eu tinha uma "pessoa fixa". Respondi sinceramente: "Eu não tenho salário fixo, eu não tenho uma pessoa fixa. Eu não sou alguém fixo". 
Acha que fiz mal em ser tão sincero? 
Eu acho que sempre me dou mal quando sou sincero. As pessoas querem a mentira, é mais confortável. Você não. Você sempre quis a verdade. Entrego-lhe, como se passasse para os seus braços um bebê recém-nascido: com cuidado. 
As palavras devem ser manuseadas com cuidado. Especialmente aquelas que falam sobre o cômodo escuro que temos em nós. Desse cômodo, escorre uma água suja, toda vez que uma palavra não é dita. Nesse cômodo moram os incômodos. Os medos são inquilinos que nunca pagam o aluguel. Merda. Você sabe que não há cura para pessoas como nós, certo? Nunca existirá. Porque, eu já disse, as pessoas gostam da mentira. Elas gostam de se enganar. Por isso são enganadas. Assim é mais fácil. 

Sobre aquele dia, preciso lhe dizer algo: você achou que eu falava de amor, enquanto eu apenas falava da vida. Por favor, não confunda as coisas. 
Bem, mas acho que você não tem cura no que diz respeito a isso, não é? Tudo bem. Eu vou rezar por você. Quem sabe daqui há uns 10 anos você encontre alguém que também esteja falando de amor. 
Por favor, não se esqueça: quando encontrar essa pessoa, peça para que me ligue. Eu vou dizer algumas verdades a seu respeito. É melhor que seja eu a dizer as verdades sobre você. É melhor que as coisas já comecem claras desde cedo, não quero ver você se culpando mais uma vez. Meu telefone sempre será o mesmo. 

Te espero no bar de sempre, às nove. Dessa vez nada de exagerar na bebida. 

Ass: L. 

viernes, 25 de septiembre de 2015

se a associação poética fosse livre

dia de cão. dia de gato. dia de leão. um leão por dia. a palavra me assola, me assombra, me perfura e me arromba. bendita seja a palavra. bendita suas vísceras entre as mulheres. e homens. crianças e idosos primeiro, pelo portão à esquerda, por favor. passei o dia compondo, sentindo, tecendo, meio dormindo. meu corpo não respondia aos sinais vitais porque os sinais eram virtuais. um dois três: dois pra lá dois pra cá. mas eu gosto de dança contemporânea. quero morar no litoral de mim mesma: sempre perto de amar. pra eu não esquecer que eu jorro. gosto de molhar a cabeça, de andar descalça. sou palestina livre. sou bolsa família. mas uma coisa leva a outra e eu me levo a lugares que rimam. escolho restaurantes pelos sorrisos. cumprimento o motorista e o porteiro. sorrio para indigentes. índios que também são gente. família tradicional passou longe.
mas como eu ia dizendo afinal eu estou sempre dizendo alguma coisa e sempre perco as palavras no meio das frases e procuro senti-las ao invés de tocá-las e aí olho pra cima. um ponto uma mosca é josé é maria é madeira de vento tombo da ribanceira é mistério profundo. mas o dia de hoje foi duro. duro feito as pedras de gelo que caíram do céu e fez calor suei nos pés e no fim do dia deus me recompensou pelo meu sofrimento. me deu guarda chuva furado e banho de água de carro. eu sorri. os semáforos queimaram e os carros iam passando e eu ando ando ando. pedi carona na ciclovia conheci um estranho imaginário que me trouxe pra casa passamos café conversamos muito mesmo pra tentar nos conhecer carinha de cursinho que nada casamos e tivemos dois filhos que sempre pegavam recuperação em história uma vergonha para pais de humanas e de esquerda. fim da história porque era mentira. imaginei você vindo me visitar trazendo em uma das mãos uma sacola com pitangas. as pitangas que eu nunca comi porque em casa só tem água gelada preciso fazer mercado senhor jesus quanta coisa preciso comprar e não quero e não preciso porque tenho a mim mas nunca basta. deus me recompensou com o conforto desconfortável do meu lar e dos meus livros mas como sempre falta uma coisa e é o vazio que enche o saco eu imaginei você aqui. fomos felizes por uma noite que durou o mesmo tanto que esse dia quente cheio vazio tórrido besta insensível. eu pedi pra você ficar declarei meu amor no vidro embaçado enquanto você foi ao banheiro e quando escutei a maçaneta girar eu apaguei rápido porque sou tímido e espalhafatoso de perto ninguém é normal. mas deus me recompensou com um banho de chuva enquanto eu voltava pra casa e eu senti que a felicidade é uma coisa difícil muito difícil quase inalcançável mas deus me recompensou com a alegria difícil como disse lispector como eu disse pra você ler a biografia do mozart que eu nunca terminei. sentei no sofá da sala de espera e você abriu a porta com o sorriso que eu conheço e me ouviu porque é isso que você faz. enquanto eu falava ininterruptamente porque agora vou só uma vez na semana e tem tanta coisa pra contar aquele dia aquela noite aquela pessoa aquele sintoma aquela mãe perdida no meio da estrada aquele suspiro que eu dei quando me apaixonei e aquele medo que tive de enfim ser vista mas como ser amada sem ser vista eu não sei eu não sei. mas deus me recompensou e nem freud explica e nem quer explicar porque freud às vezes é chato. mas deus. recompensei você dos meus atrasos perdidos com um poema de guardanapo que você guardou na carteira mas que rasgou quando nos separamos e fui eu. aí eu conheci outra pessoa pessoas muitas pessoas fui promíscua com os meus sentimentos prostituta distribuindo amor pra quem nunca quer receber mas acho que confundi as bolas porque prostituta dá e não recebe e o amor é um puteiro. mas é um puteiro bonito com flores no vaso com mulheres de ancas enormes com tetas enormes como a grande mãe que me assombra e ao mesmo tempo acolhe. não não o amor não é um puteiro e não tem mais quartos do que uma pensão de putas me desculpa garcia marquez. meu amor é uma casa pequena com um só dormitório. quero dormir de conchinha com o amor até mesmo nos dias quentes até mesmo nos dias em que eu penso em morrer mas o amor me afasta do abismo mentira o amor aproxima. mas deus me recompensou e eu fui molhada pela água que caía do céu me lembrei quando era pequena e perguntei à minha mãe de onde vinha a água do céu. ela me deu uma resposta tão bonita e acho que foi aí que eu comecei a ser poesia. enquanto minha mãe pintava eu caçava gafanhotos no jardim. escrevi um livro aos 13 anos que ninguém leu nem você vai ler porque sempre tem coisas que é melhor a gente não revelar assim de cara vai que assusta vai que eu me assusto com a sua reação de aceitar as minhas imperfeições. mas você também não revelou aquela cirurgia de apendicite porque eu ia achar que era câncer e você ia brigar comigo dizendo que pra mim tudo é câncer e que um dia vai ser mesmo e eu vou chorar e você vai dizer que vai cuidar de mim mas eu não quero um amor assim. mas deus me recompensou e eu bolei um roteiro de um filme será que tento escrever mais me dá uma ideia o que você acha aqui fica melhor colocar outra personagem homem ou mulher tanto faz tudo selvagem. mas deus me recompensou e eu vim andando na chuva molhando as minhas alpargatas e a barra da minha saia. cheguei em casa tirei a roupa e entrei no banho quente que soou como abraço depois de amar. não tem nada pior do que abraço do amor. não tem nada pior. não tem nada. não tem. não. mas deus me recompensou e sei que ele existe porque eu pude senti-lo em mim quando fui humana e jamais santa. a verdade é que cheguei em casa e depois do banho quente estourei pipoca e comi o balde inteiro enquanto pensava no tanto que ainda há pra fazer mercado feira roupa meu quarto meu deus meu quarto minha vida me arrumar pra ir te ver. aleluia ainda não tenho filhos porque preciso arrumar meu quarto antes mas quem falou em filhos meu deus como você é precipitada. você deixou eu falar sobre filhos mas teve medo e meu deus por que tanto medo se filho é uma continuação e é sempre bonito se a gente explicar pra eles de onde vem a chuva de uma maneira poética. deus me recompensa quando eu posso ser eu mesma. e o melhor, mas o melhor de tudo, com vírgula e tudo, é quando a gente pode ser a gente mesmo com alguém que, sendo também alguém mesmo, tolera os furos da gente. e não tenta tampar com verborreia generalizada ou discurso machista disfarçado de tolerante. o melhor de tudo é poder ser inteiro mesmo estando faltando uma parte. mas se não faltasse não seria inteiro. se fosse inteiro seria uma desgraça. mas deus me recompensou com a esperança, e por isso sou uma niilista de meia tigela. não aguento nietzsche. 

martes, 22 de septiembre de 2015

[descobri
que em tudo
sempre haverá
esse lado
meio-vazio
como se no meio da multidão alegre
houvesse alguém parado
de olhar perdido,
como se a foto do aniversário
flagrasse alguém
de sorriso forçado.
descobri
que isso se deve
ao fato
da morte ter manchado
a minha pintura
enquanto eu estava distraída
borrou a tela
de tinta a óleo
e é impossível
retocar.
por isso
aceito
assino
assumo:
o pingo de chuva
no meio do dia,
o gosto amargo
no meio da língua,
esse aperto no peito
no meio da vida,
uma lágrima torta
no meio do riso,
um pedaço de angústia
no dia contente
essa quase predileção
por enxergar humanidade
onde a maioria
não]

domingo, 20 de septiembre de 2015

solitário

[queria
almoço de família
mas só sobrou
uma marmita fria

sobrou
o silêncio de quem já sabe
o que é estar sozinho
porque o barulho de uma pessoa só
é pequeno:
os vizinhos nunca reclamam
nem sequer
sentem.

os passos do solitário pela casa caminham rumo
à escuta
de outros talheres batendo
enquanto ele se satisfaz
em colocar a mesa
pra uma pessoa só]

sábado, 19 de septiembre de 2015

conclusões inacabadas



- nossa vida afetiva é uma orquestra que deveria estar afinada.

- preciso estudar composição e regência pra dar conta da minha. 
a vida se expressa
e não é no detalhe.
a vida berra quando,
finalmente,
me deito
e ouço no prédio ao lado
um bebê chorar
desesperadamente.
a vida tem fome
a vida fez um corte
de verbas
para melhorias da minha condição.

miércoles, 16 de septiembre de 2015

qual a palavra
que desabrocha
por cima do grito
que mesmo mudo
te ouço gritar?
qual a palavra
que arrebenta
o seu silêncio
o seu pesar
a sua perda
o aperto que sei que sente?
qual a palavra
que desabotoa
o seu peito
ensolarado?
qual a palavra
que ressoa
vem de dentro
que enquanto não sai
eu não sei?
eu não sei.

domingo, 13 de septiembre de 2015

[alguém
que me cure do status
de ninguém
que se ocupe de mim
sem me fazer de refém.
que me coce as costas
onde não alcanço
que me dê impulso
no balanço.
alguém
que entre comigo
na piscina da vida
porque sozinha

não dá pé]

viernes, 11 de septiembre de 2015

à analista

a que me escuta
me incute
me toca
naquilo que mais se aproxima de mim
me sabe
e sei que posso contar
(cantar, por vezes,
fica difícil).
a que me escuta
ouve também
os meus desafinos
desatinos
destinos escolhidos.
a que me escuta
está comigo
e mesmo
quando não está presente
está.
e estará.
a que me escuta
de certa forma
sou eu
apenas de um lugar
que nunca
havia sido escutado antes.

martes, 25 de agosto de 2015

o poeta é um eterno insatisfeito

o poeta é um eterno insatisfeito.
não encontra, em outras palavras, aquilo que expressa a sua verdade, a sua cólera ou a sua agonia.
por isso, o poeta faz palavras com as próprias mãos.
pois, não havendo ainda, para ele, palavra suficiente no mundo, ele as cria, recria, ele as tira de um estado de latência e as traz de volta para o centro do seu ser, para encontrar um sentido.
o poeta está sempre com o estômago roncando.
se desfaz em palavras
e se refaz com as mesmas palavras que outrora atirou ao lixo.
mastiga os papeis em que escreve,
digere o mundo inteiro que não coube no verso e defeca palavras ásperas, palavras de desapontamento, palavras que a vida dá todos os dias, com seus normais percalços.
o poeta traça o próprio caminho porque não suporta a ignomínia de outro alguém colocar palavras em sua boca
e apesar de lê-las, não fazem total sentido porque não são dele.
o poeta é um profundo egoísta, vendo por este lado.

o poeta é também alguém com enorme coração.
porque distribui ao mundo, sem muito pudor, suas vísceras, cheias de anseio por algo que seja diferente da mesmice, que esteja para além do amor banal.
o poeta é tudo e nada. é compositor barroco e é também a puta pobre na esquina escura, com o esmalte velho, as unhas roídas, o dinheiro amassado dentro do sutiã.
o poeta tem medo de ser roubado pela rotina, de ser engolido pela falta de sentido.
o poeta é algo que jamais se viu e é o que mais se vê, em tempos como os de agora.
o poeta é uma palavra que rima com qualquer coisa e que não rima com nada.
o poeta é difícil e é fácil.
o poeta é e não é.
não tentem definir o poeta. não elogiem o poeta. não esqueçam o poeta. comprem os livros do poeta. paguem cervejas ao poeta. dêem risada com o poeta. ajudem o poeta. não achem que o poeta é um louco, abstrato feito pintura do Miró, onde apenas vislumbres humanos podem ser vistos. o poeta é colorido, é cinza, é preto, branco, é o espectro de espelhos. é o dark side of the moon. o poeta é física quântica e é leite apodrecido. o poeta é a fruta mofada esquecida na fruteira. o poeta é a caixa de suco integral que custa dez reais. o poeta é o caviar na boca dos velhos ricos e burros. o poeta é rico. o poeta é pobre. mas não é contradição. repare bem.
o poeta é simples, come sem guardanapo, não sabe se começa pelos talheres de dentro pra fora ou vice-versa. o poeta vira amigo do garçom, do mendigo, da empregada. o poeta é a escória.
o poeta gosta de árvore, mato, água, planta, café, gato, silêncio e barulho. o poeta gosta de segunda-feira, terça sexta e domingo. o poeta gosta de ficar olhando as coisas serem coisas, insípidas, infinitas por um segundo. o poeta gosta de ônibus, de andar a pé, mas dêem carona para o poeta.
o poeta não lê camões. o poeta é o objeto indireto jogado no mundo, à procura de.
o poeta detesta bons modos, mas não abre a geladeira em casa alheia.
o poeta não tem mãe.
o poeta é órfão de insensibilidade, condenado a ser tolo.
o poeta não sabe dizer as coisas.
o poeta não sabe a medida das coisas.
o poeta erra a receita.
o poeta erra.
o poeta tem duas pernas, mas também tem asas. e não voa.
o poeta só voa enquanto escreve. quando a poesia acaba, ele desaba. cai no chão feito fruto maduro. que ninguém vê e pisa. que ninguém vê e por isso não come.
salvem o poeta. ele está se afogando. mas ele não quer uma boia. ele quer uma palavra, aquela palavra. ele quer paixão, ele quer amor, ele quer comer, beber, ele quer nascer mil vezes. o poeta precisa pagar a conta de luz vencida. o poeta não sabe lidar com a realidade. o poeta tem um problema com a realidade. o poeta tem déficit de atenção, ele só consegue se concentrar em linhas curtas. o poeta se apega às prosas que passam rápido feito os dias.
o poeta admira os que nunca precisaram escrever uma só linha para esboçar um relance de felicidade ou júbilo. o poeta inveja os engenheiros. o poeta inveja o sapateiro, que nem se preocupa com as palavras. o poeta amaldiçoa o dia em que aprendeu a ler. mais ainda, o dia em que percebeu que não poderia viver sem escrever. um só dia. este foi o dia de sua condenação.
mas este também foi o dia de maior alegria na vida do poeta: o dia em que escreveu.
e não há um só dia em que não escreva que faça sentido para o poeta.
não há um só dia em que o poeta não anseie chegar, pra ver qual é a palvra que vai parir.
quando o poeta for se deitar e pensar
'amanhã não quero me levantar'
mandem-o à poesia que o pariu.

jueves, 20 de agosto de 2015

a poesia
é uma forma de confissão
disfarçada

assim como
o olhar
denuncia o amor
o verso
denuncia
o autor.
[ao lado do prédio em que trabalho
há um prédio menor
onde trabalha o sapateiro,
ele conserta sapatos.
eu conserto palavras.

esses dias pela rua
reconheci o sapateiro,
fumando, cabisbaixo
com a camisa suja:
uma mão ia no bolso,
o caminhar ia certeiro.

pensei
"com o que se preocupa?"
solas sem solução?
cadarços esgarçados?
saltos quebrados?
eu não sei.

entre eu
e o sapateiro
há uma ligeira semelhança
enquanto ele cola palmilhas
eu colo palavras
que andam soltas.

o que me diferencia do sapateiro
não é o ofício
nem o nível de instrução
o sapateiro
só deve ser mais livre
do que eu.]



martes, 18 de agosto de 2015


[a minha solidão
é a coisa mais povoada que conheço
nela moram artistas, rebeldes, ativistas.
a rima, não.
esta me ocorre apenas por acidente,
assim como você
assim como eu.

somos uma batida de frente
no meio da rodovia.
nenhum ferido,
mas a polícia veio
checar o que houve.
atrapalhamos o trânsito
de um dia normal:
"calma, senhores, é só uma atração
nada fatal
nada banal
um pouco carnal".

nada de mais, afinal.

nada de mais.

mesmo assim
nos levaram ao hospital
para alguns exames.
desconfiam de uma fratura interna
intensa
hemorragia grave
morte lenta
e horrorosa.

não é nada de mais.

mas o meu coração
- este órgão que é cego,
surdo,
mudo
e apenas pulsa;
este órgão
a quem dotamos sentido,
fiascos,
temores,
e poderes sobrenaturais -
diz que não.

assumo, por fim:
foi um pouco grave.
mas antes uma batida de frente,
encarar de uma vez por todas
o demônio com seu tridente
(o amor, enfim)
do que passar uma vida inteira
dirigindo dentro do limite de velocidade]

domingo, 16 de agosto de 2015

[uma poesia cai no chão.
o barulho que ela faz é limpo
é puro,
imperceptível
aos olhos insensíveis.

uma poesia cai no chão
e não é preciso varrer
porque as palavras vão se juntando
aos azulejos
formando azaleias,
baleias,
formas insignificantes
aos olhos menos românticos.

uma poesia cai no chão
seu barulho é grosso
e meu vizinho de baixo
reclama.
pobre vizinho,
não sabe que tudo tem um sentido
e o único sentido da poesia
é cair.
para que pisem nela,
para que pisoteiem-na
como são pisoteadas as uvas
com os pés descalços
- já cansados -
para dar origem
ao mais consagrado vinho.

vinho que beberão
os pobres
os negros
as mulheres
os grandes e os pequenos
que tiverem nascido
com o mesmo defeito congênito:
o de enxergar belezas
em palavras vacilantes]

sábado, 15 de agosto de 2015

estou cercada de prédios
janelas
construções
janelas
grades
prédios
janelas
telas de proteção

esses prédios
ó deus
altos
baixos
gordos
magros
assimétricos
arquitetos
engenheiros
mestres de obra
mestres em subir tijolos
armar concretos

janelas
telas
janelas
grades
janelas

meu grito
é abafado
pelos prédios
minha vida
não é privada
da minha janela
só mais janelas
janelas
acesas
apagadas
com telas
janelas
fechadas
janelas
abertas

hoje em dia
ver o céu
é privilégio
por isso
ando nas ruas
olhando pra cima.

viernes, 14 de agosto de 2015

eu preciso reagir
eu preciso agir
eu preciso ir
eu preciso.

é imprecioso viver
mas preciso
com certa imprecisão
estar
e parir
esta que já sou
enterrar aquela que já fui
pois não quero morrer.
ninguém quer morrer.
quem quer morrer
teme muito mais a vida
porque não existe nada mais assustador
do que estar vivo.
há vida.
entretantos
desencontros
a vida me procura
me acha escondida nos cantos
a vida me procura
e quando me acha
me pega pela cintura
me reinaugura
e me faz mulher.

lunes, 10 de agosto de 2015

passei o dia falhando
tentando encontrar um motivo
pra a minha tristeza
pra essa agonia

rodopiei em volta dos meus karmas
gostos, gestos
tive medo da morte
mas ainda mais
medo da vida.
o que será que ela quer de mim?
já tem a minha alma
tira a minha calma
o que mais ela quer?

tropeço enquanto ando
me despeço de mim todos os dias
e me parto
parto pra longe
parto normal.

no dia seguinte
nasce uma nova
mas essa
nasce de cesárea
porque acordar  é difícil
estar mergulhada na vida
é difícil
eu preciso de boias
pra essa água fria
pra esse banho gelado
de realidade
que tenho que tomar
todos os dias.

lunes, 3 de agosto de 2015

[ao arremessar verdades
cuidado com os obstáculos
seja cauteloso
com a força usada
para não quebrar verdades
desnecessárias.

ao podar defeitos
cuidado com as raízes
pregadas no chão
é preciso deixá-las
intactas
ou corre-se o risco
de perfeição.

é imperioso
ao quebrar vidraças,
copos ou taças
juntas os cacos
e embrulhá-los em jornal
para que ninguém se machuque
com uma dor
que não lhe pertence]



sábado, 18 de julio de 2015

inversamente proporcional

o inverno serve
para ser aquecido
pela tarde mansa
prematuramente anoitecida
que leva consigo
os pássaros pintados por deus em tons de zinco
o inverno é efêmero.

o inverno esquece
do coração sozinho
batendo em disparada
rumo à próxima estação.

o inverno só reacende a chama
dentro da solidão
clama por um amor
que nos recite de cor
feito tabuada.

inverno e inferno
e uma letra de diferença
entre o clima
e o estrago causado pela presença
do frio.

viernes, 17 de julio de 2015

chuvisco é melodia para o poeta.

domingo é o feriado da agonia

amigo é quem cura
coração partido

cerveja dilui afeto
e cria vários

madrugada é a hora mais esquisita do dia.
lá, tudo tem nome. os que dormem, normais. os que acordam, insones. os que trabalham, insanos. os que apenas despertam, são loucos.

farmácia é o shopping dos remédios.
outro dia vi uma promoção: "compre um anador e leve grátis uma dor de cabeça".

partitura é escrito do que não cabe no alfabeto.

dois e dois pode ser quatro, cinco, dez ou 467, depende da sua formação, ideologia e humor no dia.

manhã é o tempo que a gente passa tentando acordar,
tarde é o tempo que passa sem a gente notar,
noite é a hora que a gente sempre espera chegar
pra viver tudo de novo.
e reclamar.

analista é a mãe que a gente escolhe. e paga.

enquanto escrevia, o sol abriu
os botões da sua enorme camisa amarela, escancarou o peito
encheu os pulmões e disse
eu sempre apareço.
e começou a fazer o seu trabalho
secar trilhões de roupas,
levantar preguiçosos da cama,
ajudar todas as plantas na fotossíntese,
sintetizar o que a chuva bagunçou,
organizar pensamento do deprimido
deixar a mulher fazer planos
para o domingo.

viernes, 26 de junio de 2015

tem dia
que é mais pra dentro que se olha,
é mais ferida,
fratura
exposta pro espelho
ver.

tem dia
que não tem música
que consola,
é só o barulho
do serrote
da máquina de lavar
carregada com roupa já vivida,
da vida pulsando em todos os eletrodomésticos
e aqui dentro
meu estômago vazio
com fome de paz.

a cabeça anda acima do limite de velocidade
levo multa,
multas
por nunca parar.

tem dia que nem parece dia
parece noite avessa
escrota
amarga
absorta.
vagando pelas horas
sem nenhum sentido.

viver não se escolhe
apesar de alguns acreditarem que sim.
até pra morrer
é preciso ter os pulmões cheios
de um último ar.
até pra morrer
é preciso querer.
é preciso estar.
é preciso ser.
viver não se opta
como se opta comer couve flor
ou batata frita,
tomar vinho
ou marguerita.

viver é urgente,
é sempre ofegante,
como ultrapassar correndo todos os sinais vermelhos
e não morrer
por um triz
ou,
simplesmente
porque ainda
não é hora.

domingo, 14 de junio de 2015

esperando a hora
de ser feliz
encontrar um par
que queira ser par.
estar a par
das notícias
suas.
ficar nua
dançando gal,
morrer
de morte natural
como
se a vida fosse
uma intervenção artística.

jueves, 11 de junio de 2015

bilhete de amor manchado de café

em cima da pia, ao lado da torradeira, de pé, escrevi pra você o último bilhete de amor. fui buscar a bic em cima da minha mesa cheia de livros, uma bagunça total, e apoiei a xícara de café em cima do papel. manchou. 

você decidiu ir: uma proposta irrecusável, uma vida nova, um avião, 17 horas de voo, alguns remédios pra dormir, sua série favorita. eu fiquei, com a minha bicicleta, a minha mesa cheia de livros, o meu cesto cheio de roupa, a minha louça cheia de pia. eu fiquei, com o seu cheiro nas dobradiças das portas, nos vãos das janelas, em tudo quanto é buraco. 
apesar disso, cuidei de tudo antes de você partir. lembra do seu bilhete com algumas instruções? sua maior preocupação era a sua mãe e as  suas plantas. por que eu estava fazendo aquilo? por que eu cuidei de tudo?  

mas, fique tranquilo. eu cuidei de tudo. das suas plantas, da geleia de frutas vermelhas que morava na sua geladeira desde março. liguei pro banco cancelando o seu cartão e pra sua mãe, dizendo que você voltaria, porque eu precisava dar a ela alguma coisa para acreditar.
eu acreditei nos gerânios que você me deu, naquela manhã explodindo azul. 

sabe, preciso confessar uma coisa. eu quase fiquei pra trás nesse pega-pega, porque eu nunca fui muito boa em esportes. mas no amor eu me esforço. me falta fôlego e me falta tanto... mas no amor eu me esforço. eu estudo a matéria. eu faço aula particular. eu nunca quis reprovar. mas existe algo que nos diferencia. é a coragem. enquanto você parte, eu fico. enquanto você não encara as próprias plantas e a própria mãe, eu faço isso. eu me esforcei. você sabe o quanto eu quis uma casa com quintal, mesmo que pequeno; uma cadeira de balanço no jardim, o manjericão plantado ao lado do orégano. você sabe que eu me esforcei. você perdeu por w.o. e no amor, eu quero que vá pro inferno a máxima de que "é importante competir". porra nenhuma, no amor eu quero ganhar. agora sei porque cuidei de tudo. por isso. porque eu me esforcei, até o último instante, até ouvir a campainha do aeroporto anunciando a última chamada para o seu voo. depois disso, voltei pra casa e recomecei. 

jueves, 28 de mayo de 2015

a vida,
essa jazzera pesada
norte americana
transviada,
toca num compasso tão quebrado
que nem miles davis
consegue acompanhar

lunes, 25 de mayo de 2015

a morte atravessa a porta da vida sem bater. a melhor sorte que você pode ter é um tempo para dar uma espiadinha pelo olho mágico, ao menos.

domingo, 10 de mayo de 2015

a carta que nunca recebi

de súbito, despertei com o barulho da chuva. chovia como há muito não chovia. "do nada", diriam alguns. "vai esfriar mais", outros irão dizer. eu mesma não sei o que será do tempo. aproveitei o som da chuva para me virar de lado e voltar a dormir. era para ser simples. mas, antes, como se eu estivesse com uma doença incurável das emoções, como se me invadisse um pensamento que eu não pudesse evitar, como se eu fosse uma escrava do calendário e simplesmente não fosse possível ficar incólume ao tempo, senti meus ombros pesarem sob o colchão: hoje é dia dez de maio. 

como um corpo que se descobre vivo, como alguém que não sabe, ainda, dizer daquilo que sente, como sempre, resolvi escrever. porque quando a gente coloca as palavras organizadas numa sentença, é como se fosse possível driblar a própria dor. não que eu queira fugir da minha dor, na verdade eu quase nunca consigo, mas escrever é como conseguir entender aquilo que eu ainda não entendo. e provavelmente permanecerei sem entender. mas não importa, uma vez que eu possa escrever.

se fosse possível, minha mãe me escreveria uma carta hoje. eu não. já é batido tal tema, já escrevi muito pra ela, sem nunca obter uma só resposta. minha mãe mora longe, não nos falamos há... bem, hoje está fazendo 9 anos que não nos falamos. mas eu ainda penso e elaboro muitas coisas a seu respeito, e tenho certeza de que ela também. tenho certeza que ela se assusta, assim como eu, com essa ausência que vai ficando confortável com o passar do tempo. como pode uma ausência se tornar confortável? pois é, não sabemos disso ainda. mas o fato é que a ausência de alguém, mesmo que importante, em certo momento, deixa de doer. a dor se acomoda em alguma poltrona da nossa alma, senta, pega uma xícara de chá e ali fica durante horas, dias, semanas, meses, décadas. é isso o que acontece. é isso que aconteceu com a ausência de minha mãe. e é por isso que ela resolveu me escrever logo hoje, quando esta ausência fica marcada por dois motivos: 1) é dia das mães 2) faz 9 anos que não sento e tenho uma boa conversa com ela.

acordei e havia uma carta na soleira da minha porta. dizia assim:


Filha,

Deve ser estranho receber esta carta, logo hoje. Peço desculpas. Talvez sejam despertadas emoções que você não aprecie tanto, mas, por favor, não se prenda muito a elas. Apenas por um momento, sim? Apenas até este dia terminar. 
Escrevo porque ontem me lembrei de você. Escutei uma música da Rita Lee e me veio a sua imagem rodopiando pela casa, gargalhando, com uma taça de vinho em uma das mãos. Você sempre foi muito musical e eu já te disse isso antes, incrível como isso ainda continua vivo em você! Me surpreende. Você sempre me surpreende, filha. Me surpreende desde que eu descobri que estava grávida de você, me surpreendeu quando entrei em trabalho de parto prematuro, no dia 29 de novembro de 1987, quando senti fortes dores na parte baixa da barriga e achei que fossem cólicas intestinas. Você sempre me surpreendeu. Sempre foi muito poética (estou sabendo que anda escrevendo), artista, musicista, sensível e um pouco maluquinha. Cuidado nas maluquices!
Mas eu sei que você sabe se cuidar. Sei que você sabe se virar, e me orgulho disso. Deixa eu me vangloriar um pouco, vai, hoje é o meu dia!
Inclusive, chegamos ao ponto crucial desta carta: a sua sobrevivência. 
Me faz muito feliz saber que você sobreviveu. Fez bonito na vida, e sei que vai continuar fazendo. 
Você sobreviveu com estilo, colocou poesia nos seus dias, alegria na vida das pessoas que te rodeiam, e além disso, faz um trabalho lindo todos os dias. Você tem a imaginação solta, conservou algo que nos dias de hoje é uma raridade, minha filha: o espírito infantil. Sua criança interna não aguenta ficar sentada durante muito tempo, ela logo começa a se sacodir por aí, sai rodopiando e cantarolando... E ai de quem estiver cabisbaixo! Você logo conta uma piada, dá um tapinha nas costas e diz "vamos rodar!". E é isso, filha, que eu gostaria que conservasse. Este é o motivo pelo qual eu mais te admiro. Essa espontaneidade jovial, essa risada solta, essa capacidade de tornar a vida mais leve, sempre levando na mochila a ansiedade e a angústia inerentes ao estar vivo. Viu como eu também sei das coisas? Você me ensinou muito!
Por isso, filha, por isso e por tanto mais, eu digo que você deve comemorar o dia de hoje. Por ser essa pessoa incrível, por estar viva! Quer coisa melhor do que isso? A tristeza faz parte, você sabe disso, já estamos carecas de saber! Mas não se trata de tristeza. Ela não é a protagonista dessa história. A protagonista é o momento presente, este dia, esta vida, sua espontaneidade capaz de fazer com que mesmo os pequeninos momentos tenham um grande significado. Não é assim? Viu como sei bastante a seu respeito, apesar da minha ausência? Fui eu que te pari, eu que te criei, e sabia desde o início que você seria diferente. Talvez isto faça você sofrer um pouco além da cota estimada para pessoas da sua idade, mas não tem problema. Eu percebi há muito que a frase "se cuide para não sofrer tanto" seria praticamente inválida para você. Você sempre foi como a sua avó, minha mãe, espalhafatosa, extrovertida, sempre quis viver as coisas até o último gole (por isso tem tantas ressacas, não é?). Eu guardei um pouco deste traço também, e talvez tenha aprendido com ele ao longo de minha vida. Tomar decisões impulsivas não faz de nós mulheres mais independentes, mais femininas, menos submissas, enfim... Nos faz sofrer. Mas você já tem aprendido com isso, muito antes do que eu aprendi. E isto é bom. Porque só então você poderá sofrer de outras dores, e não mais das mesmas que eu sofri. Isso seria injusto e eu ficaria muito puta da vida... Mas é pra isso que estou aqui, mesmo que não se justifiquem os meus nove longos anos de ausência: para te dizer que você precisa errar os próprios erros, construir a própria casa, criar os próprios filhos. De certo modo, minha ausência irá te ajudar nessas tarefas, uma vez que sem mim você vai ter que descobrir por si só (e intuir, minha filha, intuir muito) como é fazer essas coisas. Minha ausência, que daqui pra frente só irá aumentar (como numa estrada, em que quanto mais nos distanciamos de casa, mais perdemos as referências, esquecemos onde deixamos os chinelos, e até mesmo qual a cor da parede da cozinha) como é fazer essas coisas. Irá criar as próprias referências. Claro que ninguém é feito sem raízes, ninguém se constitui sozinho, mas o meu papel eu já cumpri: cedo ou tarde, eu cumpri. Algo meu ficou em você e muito seu ficou em mim. Depois, você tem a oportunidade de conviver com a minha mãe, e isso por si só já foi um grande aprendizado. Muito do que ela te ensina irá ficar marcado em você. Converse com ela sempre que puder, enquanto é tempo. Chore hoje, se for preciso. Chore bastante. Mas depois se levante, você tem uma vida pela frente (pare de dizer que irá morrer jovem, ou que 27 é "velha demais", por favor), coisas a aprender, erros a errar, um homem bom a encontrar e todo o resto virá... espontâneo como você é e sempre será.
Seja você, e nunca irá se arrepender de nada.

O feliz dia das mães é para nós duas. Eu fiz o meu trabalho, cumpri minha tarefa. E você dá continuidade a ela todos os dias, sendo sua própria mãe. 

Com amor,

                     K. 






viernes, 8 de mayo de 2015

é tão difícil viver tudo
que a gente não cabe
nem mesmo dentro da vida
(por isso a morte).
nos lançam no existir
como se fosse bonito
como se fosse dádiva
como se fosse só isso
(e é).

de repente a gente vê que se expande,
cresce
encontra com outra gente
também inquieta
também atenta
também deslocada
e é como se a gente coubesse
(o amor).

aí tem hora
que a gente miudece
fica pequeno feito grão de alguma coisa
e depois de um tempo incubado
nasce florido
cheira perfume
cabe na vida de novo.

seguimos,
não tem outro jeito:
vai ser sempre
essa coisa esquisita.
a gente coloca
pedra
papel
poesia
tesoura
pra ver se dá conta
desse parto
constante
da mesma pessoa.

jueves, 7 de mayo de 2015

sobre a saudade

a saudade é tipo a vida
ela nos acompanha
dita ritmos
não faz muita festa
precisa, por vezes, ficar sem rima
pra entender do que é feita a prosa.

a saudade é tipo isso
mas só quem sente pra saber
do que se trata
esse sentimento que maltrata
e ao mesmo tempo cura
orgulho,
ego ferido,
briga de amigo.

a saudade vem pra mostrar
que a vida é isso mesmo:
curta
breve
fortuna que quem não sabe aproveitar,
empobrece.

miudezas

se por um acaso
perguntarem,
diga que eu sempre admirei os pores-do-sol
especialmente
os cor-de-rosa-laranjados
que pude apreciar
enquanto caminhava do trabalho
pra casa.

se por um acaso
quiserem saber,
diga que eu adorava ouvir
gargalhadas de mulheres,
especialmente das velhas,
que quando riem
batem suas palmas das mãos nas coxas
ou deixam à mostra
as rugas do pescoço,
ou o início do decote,
ou ainda
a alça do sutiã
que se mostra à medida em que o riso se torna
incontrolável.

diga que eu sempre fui destas
que prestava atenção aos detalhes,
pequeninos
mínimos:
a que observava, atentamente,
pelo espelho
alguém lamber a colherzinha do café
antes de dar o primeiro gole.

domingo, 3 de mayo de 2015

a vida passa
a morte é certa
acerta em cheio
o peito.
o coração me atravessa
a esquina:
paro,
olho,
cuido para não ser atropelada
pois,
o que é a vida
se não
uma sucessão de atropelamentos -
suspensos,
difusos,
loucos,
medonhos

e belos?

domingo, 5 de abril de 2015

assunção

me encontro no meu desalinho
me ajusto no meu desencontro
e sucedo
do que não sabia que já fui.
um dia eu chego
exatamente na esquina
do passado com o presente
do futuro pretérito imperfeito.
eu me desdobro,
renasço,
transformo,
transbordo,
floresço,
pra estar mais próxima
do que posso me tornar um dia.
quando este dia chegar
direi tranquila
"deus, agora pode me matar".

sábado, 28 de marzo de 2015

pour quoi ne pas vivre?

O mundo comanda? Sem dúvida, mas cada um tem o seu, ou pelo menos sua maneira de habitá-lo. O frescor luminoso da manhã, desta manhã, o amigo que está cantando, a criança que está brincando, o calor dentro do peito, dir-se-ia uma felicidade, esse amor, essa doçura, essa lentidão... Não sabemos se devemos rir ou chorar, ou melhor, ambos estariam deslocados, e calamos, e a vida está aí, simples e difícil, e continua, e morre, e a vida é essa morte de instante a instante que se nega e se perpetua, que se supera, que se inventa e se esquece, que nos carrega e nos leva... Mal se pode dizer que somos, observava Montaigne, já que não paramos de mudar, de já não ser, de não ser ainda, já que "nosso estado é inimigo de consistência", já que vamos "afundando e rolando sem parar", já que somos apenas um clarão entre duas noites: tornamo-nos, resistimos, desaparecemos, vivemos, numa palavra, e é o que nos lembra esse gosto de nada na boca ou na alma, esse gosto renitente de ser mortais... Alain tem razão, aliás ele se atém a seguir Montaigne: a vida é "deliciosa por si mesma, e acima dos incovenientes". Claro, já que todo inconveniente que a supõe só pode estragá-la na medida em que ela é boa. E quem, melhor que Montaigne, soube amar a vida como ela é, em suas dificuldades, em suas contradições, em suas incertezas, e aprová-la inteira? "A vida", escrevia ele, "é um movimento material e corporal, ação imperfeita de sua própria essência, e desregrada; empenho-me em vivê-la de acordo com ela". Ainda assim é preciso morrer, e a própria doçura do prazer é como que realçada pelo amargor ou pela raridade. Fragilidade de viver. Fugacidade de viver. É a vida mesma, e o sabor da vida. "O duro desejo de durar..." Sempre satisfeito, uma vez que se vive, sempre frustrado, uma vez que se morre. Qual felicidade que não esteja ameaçada? Qual amor que não esteja assustado? Montaigne ainda: "Que coisa terna é a vida, e fácil de perturbar..." Mas quem por isso renunciaria à felicidade, ao amor, à vida?

(André Comte-Sponville em "Bom dia, Angústia!")

viernes, 27 de marzo de 2015

ciranda


recém chegada
temo
pouco
 muito
em torno
 apuro
peito cheio
vazio

a palavra
vaza

esvazia
o recipiente

persisto
parida
  perdida
       achada
o cordão enrolado no pesoço
o sangue escorrendo pelo dorso:
recém nascida
há tanto tempo.

miércoles, 25 de marzo de 2015

a gente quer sempre nascer de novo.

se engana quem pensa que se nasce apenas uma vez
em um dia
que coincidentemente fica marcado
como o dia em que comemoramos o aniversário.

se engana quem pensa que se morre:
a gente fica pra sempre marcado na memória dos que ainda seguem adiante.

é difícil viver com intensidade
a maioria das pessoas só quer a mansidão,
a calmaria
molhar os pés na superfície.

começa-se uma análise para se descobrir
para nascer
para dar voz ao inconsciente - este que não conhecemos, este que é estranho, porém familiar.
este que nos assusta, assombra;
mas o que assombra mesmo é deixá-lo nas sombras
à mercê
de qualquer embarcação
com qualquer comandante

eu decidi
velejar

dói.

mas esse barco
quem toca
sou eu.

quase sempre
estou só
mas nesse barco
quem manda
sou eu.

sábado, 21 de marzo de 2015

contrato

quando se conheceram, ele vestia um jeans exemplar. ela, também jeans, mas nada exemplar.
ele se mostrou muito falante, muito eloquente, muito muito muito. ela era um pouco menos. estava tímida, mas não porque estivesse nervosa.
ela fingiu ter paciência, saber usar o cartão crédito, saber beber, achar as piadas dele engraçadas. ele fingiu gostar de mulheres tímidas, fingiu que aceitava o fato dela beber, fingiu fazer tantas piadas pra disfarçar a tristeza que sentia.

para pedi-la em casamento, ele ajoelhou na  escadaria do prédio dela. disse que tudo seria perfeito na medida do possível, com a condição de que ela fizesse panquecas para os dois todos os domingos. ela achou muito espirituoso, como sempre. gargalhou como há muito não fazia. aceitou o pedido.

viveram feliz como um casal normal. decoraram a casa, brigaram pela casa. ela o ensinou a lavar as camisas, ele a ensinou a usar o cartão de crédito. ela resolveu o enigma cortando o cartão.
ele, mandando as camisas para a lavanderia.

ele ia para o trabalho às 9 e ela, às 7. ela tinha horário de almoço, ele não. ela chegava em casa às 20, ele, às 22. ela sempre chegava com alguma coisa da rua, principalmente estórias.
certo dia, ela chegou em casa mais cedo e ele estava sentado no sofá, assistindo bobagens.
"você não sabe o que vi na rua hoje! uma cena linda: uma garotinha de uns 6 anos com seu avô, passeando com o cachorro. de repente, a garotinha diz "vô, amarra o meu cadarço?". o avô dá a coleira do cachorro pra ela segurar, se agacha com alguma dificuldade e, enquanto ele amarrava os cadarços da netinha, a menina passa delicadamente a mão nos poucos cabelos brancos do avô".

só que ele não ouviu.
e nem perguntou depois.

ela saiu, foi fazer outras coisas.

no dia em que se separaram, ela fez as malas sozinha. ele ficou na sala, com cara de nada. com cara de quem não tem forças. com cara de quem não tem nada pra dar.

ela pegou uma das malas, foi até a sala e parou.
"estou indo", ela disse.
"tudo bem", ele respondeu.
"tudo bem é o caralho", ela pensou e não disse, também não tinha mais o que dar.

ela esperava que ele fizesse a vida valer a pena por um mísero minuto, pegando-a pelo braço, chutando a mala, trancando a porta da sala pra ela não sair, beijando-a loucamente e dizendo o quanto a amava e o quanto ele havia sido um imbecil. ela gostaria que ele gerundiasse mais.
ele não tinha energia nem ao menos para gerundiar.

ela saiu pela porta que entraram três anos atrás, desceu pelas escadarias em que ele a pediu em casamento, dizendo que só tinha uma condição: que ela fizesse panquecas para os dois todos os domingos.

"enfie as panquecas no cu" foram as últimas palavras dela. aos gritos.

jueves, 19 de marzo de 2015

equilibristas

a gente se segura
como quem não quer cair
como quem não quer morrer
a gente se equilibra
como quem não quer mostrar
que nem sempre está
sempre firme.
a gente se segura
nessa corda inexistente
e tão real
chamada vida.

viernes, 13 de marzo de 2015

miércoles, 11 de marzo de 2015

diferenciar sapo de príncipe
princesa de gata borralheira: eis a minha encruzilhada.

disfarçada de borralheira
no fundo, quer ser vista como princesa
mas ninguém vê.
aí a princesa chora sozinha
abandonada,
enquanto a gata borralheira
continua beijando sapos.

martes, 10 de marzo de 2015

estou me descobrindo
como é que pode alguém passar a vida inteira se descobrindo?
viver é gerúndio, e eu aprendo enquanto caminho, nunca na chegada, nunca na partida, só durante.
é o durante que me faz, é do durante que sou feita.
sou o entre.
estou entre duas coisas,
a que fui e a que serei,
e quando me tornar algo, ainda serei instante
a vida é gerúndio.

domingo, 8 de marzo de 2015

juntas somos melhores

porque quando uma de nós sofre, e encontra uma caverna no meio da cidade grande,
pra desabafar, chorar e ter as suas dores compartilhadas, percebemos o quanto precisamos umas das outras. as dores são similares, os machucados nos mesmos lugares (é cultural, em primeiro lugar),
as questões... ter uma outra, igual, para dividir tudo isso, é benção.
abençoados sejam nossos clãs, nossas rodas de conversa, nossas mesas de bar, nossos círculos de dança e rituais. que sempre tenhamos uma mão estendida pra ajudar, quando o caminhar for pesado demais. 

 

jueves, 5 de marzo de 2015

odeio

odeio gente
que se entrega
e depois
se nega

odeio gente que seduz
e depois
ofusca a minha luz

chega desse flerte barato
desalmado.

o que eu quero
é ser amado.

domingo, 1 de marzo de 2015

roda-viva

eu pensava que a gente tivesse que reinventar a vida -
e o céu, e as árvores, e os diferentes tons de todas as cores que estão no mundo, e nosso sentimento pelas pessoas, tudo, absolutamente tudo -
para vencer a monotonia
mas não.
porque a reinvenção também chega a um ponto de exaustão,
em que não é possível reinventar nada: tudo é igual, as horas são iguais, os dias são iguais, até as coisas diferentes são iguais.
aí vem o amor, e muda os rumos, o cabelo, a casa, a cama, mesa e banho.
um terror, sim, mas se assim não fosse, qual seria a graça?
o amor tem um slogan:
por que não bagunçar um pouco? a casa, o cabelo, a cama, a rotina?

mas amor também acaba.
deixa vazio.
às vezes não acaba,
mas sai pela mesma porta que entrou
e nos deixa cheio de dor.

a nossa missão
é arrumar tudo de novo
quando o amor vai embora
a gente arruma um jeito novo,
se veste de um jeito novo,
arruma um amor novo
feito ovo,
que nasce de novo
(quem veio primeiro: a paixão ou a miséria do seu fim?)
amor é um jogo de controvérsias loucas
em que a gente aprende, na marra, a amar nossos opostos.

quando a gente ama, tudo é novo.
mesmo que aconteça tudo de novo.
levantar da cama ganha uma nova graça
mesmo o mundo sendo uma desgraça.
quando o amor escassa
tudo perde graça:
é hora da comparsa
da boa e velha
cachaça.

domingo, 22 de febrero de 2015

vida real x vida virtual

As redes sociais tornam as pessoas mais deprimidas. Sei que este estudo já foi feito, já foi comprovado, mas na época em que eu o li, achei que fosse mais um dentre aqueles mil artigos que vemos no feed de notícias, aquilo que quase já trocamos pela nossa própria - e real - linha do tempo. 
Eu sei que este assunto que só nos conhecemos virtualmente está batido, mas acaba de me afetar. Como um tiro no peito, sinto que fui abalada por isso tudo: a tecnologia da rapidez das conversas no whatsapp, ou mesmo as mensagens de voz; os infinitos "curtir" que dispensam uma ligação que pode dizer "porra, vi esse filme e me lembrei de você!", dentre outros demônios da vida de hoje em dia. Não sou saudosista a ponto de dizer que há 20 anos as coisas eram melhores, na minha infância eu subia em árvore (mentira, eu nunca conseguia), e blábláblá, mas as redes sociais têm nos tornado pessoas tristes, presas a toda essa parafernália virtual, conectados o tempo todo e - pronto, lá vai um clichezão - desconectados da nossa própria realidade. Sim, a vida é dura, sim, a rotina é massacrante, sim, os amigos estão distantes, sim, o salário não dá pra nada; mas olhar as fotos no facebook ou no instagram de outra pessoa - geralmente, na praia, no pôr do sol da Turquia, ou na última viagem para a Europa - e pensar "ah, isso que é vida!" ou qualquer outra coisa que coloque você e sua vida real em decadência, é demais. Pra não acharem que estou julgando outras pessoas, jogo em suas feições um exemplo que aconteceu comigo. 
Estava eu, sendo eu, humana, em pleno domingo, sem horário de verão. Em primeiro lugar, cabe dizer que adoro o horário de verão, esse lance de escurecer mais tarde me dá mais vida, me deixa mais feliz mesmo. Enfim. Eu havia acabado de me recuperar de uma ressaca leve, matado minha rotina de exercícios matinais (por conta da dor de cabeça insistente, existente em todo final de garrafa). Depois de algum tempo sem fazer isso, resolvi gastar algum dinheiro em um almoço por delivery. Assisti a um filme, fiz minha refeição, levantei, coloquei outra máquina de roupa pra lavar, lavei a louça quase esquecida na pia, limpei o banheiro das minhas gatas. Quando, finalmente, tive uma alegria leve ao pensar que hoje iria assistir ao Oscar, me lembrei das roupas que estavam penduradas na porta do meu quarto, esperando para serem passadas. Me lembrei que não tenho uma tábua de passar roupa. Adaptei a única mesa da casa (onde moram livros, mais livos, dois notebooks, mais livros e uma fruteira meio triste) para que eu pudesse partir ao trabalho. Passando as roupas, comecei a suar. Me irritei. Amaldiçoei a falta de uma tábua, a falta de um apartamento com sacada, a falta de alguém que pudesse quebrar aquele galho pra mim, a falta de dinheiro, a inconstância da minha profissão, e por aí vai. Imediatamente depois disso, fui guardar as roupas e aproveitei para checar as porras das redes sociais (não tinha me dado conta antes, mas talvez eu precise de tratamento, tenho checado o facebook e o instagram umas 5 ou 6 vezes por dia). Com o que me deparo? Uma foto de um pôr do sol na balsa que liga duas praias do litoral paulista, com uma legenda linda, falando sobre a beleza da vida e das coisas da natureza; a foto de amigos reunidos tomando cerveja neste domingo, com uma legenda falando sobre a amizade e os domingos, bem óbvio; a foto de uma colega que foi passar 15 dias na Europa, também com uma legenda e hashtags discorrendo sobre a bondade da vida. Atônita, deixei o celular do lado e sentei na minha cama. Olhei em volta. Meu quarto, com a minha cama (com lençóis recém trocados), minha janela, com tela (por causa das gatas, moro no quinto andar), e um pôr do sol real, #nofilter, lá fora. Olho para o outro lado: uma das minhas gatas deitada em cima das minhas roupas recém passadas. Penso "Isto é a vida. Esta é a vida real"! E me assusto ao pensar isso. Então essa é a vida real? Com coisas saindo dos meus planos, gatas deitando em cima das minhas roupas passadas, louças na pia, roupeiro lotado, ressaca, comida que não é lá essas coisas pedida por delivery, apartamento sem sacada? E concluo, aliviada: é. Esta é a vida. Sem filtro, sem cortes, sem legendas animadoras, sem efeitos especiais, sem edições. Apenas vida. Real. Cheia de vieses, e ainda assim, aos olhos atentos, nos presenteia com a miudeza do pôr do sol em meio a todo o caos. Redes sociais facilitam, conectam, nos ajudam a pedir comida no domingo, mas não se trata da realidade por inteiro. Se trata de uma fatia, uma porção dela. E mais: uma porção de realidade que apanhamos (ou seja, selecionamos aquela parte em que o cabelo está mais bonito e a família é unida), editamos, colocamos um filtrinho, uma hashtagzinha, recortamos o braço gordinho, e de quebra adicionamos um trecho da nossa música favorita (Elton John, quem sabe?). No restante da vida, fora das redes, não dá pra fazer nada disso. O sapato aperta, faz bolha, o cabelo fica oleoso, a família é problemática, e a música sincronizada quase nunca acontece. Isso não significa que temos que viver sem paixão, sem esperança, sem um toque de magia (eu, por exemplo, não daria conta); mas que viver isso é justamente viver a vida como ela é. 
Talvez a gente precise dessa vida virtual para conseguir levar a vida real, talvez um filtro aqui e uma edição ali deixem a nossa história - ou, pra ser menos profunda, nossa rotina - mais leve e mais fácil de ser encarada (quem sabe dê até pra colocar uma foto de capa?). Mas são adendos, vírgulas, e viver isso como se fosse a verdade, é uma mentira. Daí aquele choque quando, no natal, encontramos com aquele parente distante, que passou o ano todo postando mensagens de zen-yoga-blaster, autoajuda e amor ao próximo, xingar a família inteira por não encontrar pavê de figo (o seu predileto) dentre as sobremesas. Viveu mais o virtual do que o real. O real seria o quê, o tal parente postar "bom dia é o caralho, tudo vai mal"? Ou "simplesmente" arcar com a sua vida medíocre e tentar mudá-la, por exemplo, falando disso a um analista?
Minha analista que me aguarde na próxima quarta feira...

lunes, 26 de enero de 2015

um escrito de muito tempo atrás... agora reescrito.


[porque se não escrevo é como se me entupissem as veias
as artérias e os poros
é como se me faltasse o ar 
o riso, o tédio
é como se me enchesse de pó 
teias de aranha, folhas amareladas

se não escrevo me sobra
se digo, esqueço de dizer o óbvio
então, como se não me restassem alternativas
escrevo cartas, prosas e poesias
como se me descobrisse nessas linhas tortas
nas pausas sóbrias das vírgulas
e na finitude infinita dos pontos finais.]