domingo, 22 de febrero de 2015

vida real x vida virtual

As redes sociais tornam as pessoas mais deprimidas. Sei que este estudo já foi feito, já foi comprovado, mas na época em que eu o li, achei que fosse mais um dentre aqueles mil artigos que vemos no feed de notícias, aquilo que quase já trocamos pela nossa própria - e real - linha do tempo. 
Eu sei que este assunto que só nos conhecemos virtualmente está batido, mas acaba de me afetar. Como um tiro no peito, sinto que fui abalada por isso tudo: a tecnologia da rapidez das conversas no whatsapp, ou mesmo as mensagens de voz; os infinitos "curtir" que dispensam uma ligação que pode dizer "porra, vi esse filme e me lembrei de você!", dentre outros demônios da vida de hoje em dia. Não sou saudosista a ponto de dizer que há 20 anos as coisas eram melhores, na minha infância eu subia em árvore (mentira, eu nunca conseguia), e blábláblá, mas as redes sociais têm nos tornado pessoas tristes, presas a toda essa parafernália virtual, conectados o tempo todo e - pronto, lá vai um clichezão - desconectados da nossa própria realidade. Sim, a vida é dura, sim, a rotina é massacrante, sim, os amigos estão distantes, sim, o salário não dá pra nada; mas olhar as fotos no facebook ou no instagram de outra pessoa - geralmente, na praia, no pôr do sol da Turquia, ou na última viagem para a Europa - e pensar "ah, isso que é vida!" ou qualquer outra coisa que coloque você e sua vida real em decadência, é demais. Pra não acharem que estou julgando outras pessoas, jogo em suas feições um exemplo que aconteceu comigo. 
Estava eu, sendo eu, humana, em pleno domingo, sem horário de verão. Em primeiro lugar, cabe dizer que adoro o horário de verão, esse lance de escurecer mais tarde me dá mais vida, me deixa mais feliz mesmo. Enfim. Eu havia acabado de me recuperar de uma ressaca leve, matado minha rotina de exercícios matinais (por conta da dor de cabeça insistente, existente em todo final de garrafa). Depois de algum tempo sem fazer isso, resolvi gastar algum dinheiro em um almoço por delivery. Assisti a um filme, fiz minha refeição, levantei, coloquei outra máquina de roupa pra lavar, lavei a louça quase esquecida na pia, limpei o banheiro das minhas gatas. Quando, finalmente, tive uma alegria leve ao pensar que hoje iria assistir ao Oscar, me lembrei das roupas que estavam penduradas na porta do meu quarto, esperando para serem passadas. Me lembrei que não tenho uma tábua de passar roupa. Adaptei a única mesa da casa (onde moram livros, mais livos, dois notebooks, mais livros e uma fruteira meio triste) para que eu pudesse partir ao trabalho. Passando as roupas, comecei a suar. Me irritei. Amaldiçoei a falta de uma tábua, a falta de um apartamento com sacada, a falta de alguém que pudesse quebrar aquele galho pra mim, a falta de dinheiro, a inconstância da minha profissão, e por aí vai. Imediatamente depois disso, fui guardar as roupas e aproveitei para checar as porras das redes sociais (não tinha me dado conta antes, mas talvez eu precise de tratamento, tenho checado o facebook e o instagram umas 5 ou 6 vezes por dia). Com o que me deparo? Uma foto de um pôr do sol na balsa que liga duas praias do litoral paulista, com uma legenda linda, falando sobre a beleza da vida e das coisas da natureza; a foto de amigos reunidos tomando cerveja neste domingo, com uma legenda falando sobre a amizade e os domingos, bem óbvio; a foto de uma colega que foi passar 15 dias na Europa, também com uma legenda e hashtags discorrendo sobre a bondade da vida. Atônita, deixei o celular do lado e sentei na minha cama. Olhei em volta. Meu quarto, com a minha cama (com lençóis recém trocados), minha janela, com tela (por causa das gatas, moro no quinto andar), e um pôr do sol real, #nofilter, lá fora. Olho para o outro lado: uma das minhas gatas deitada em cima das minhas roupas recém passadas. Penso "Isto é a vida. Esta é a vida real"! E me assusto ao pensar isso. Então essa é a vida real? Com coisas saindo dos meus planos, gatas deitando em cima das minhas roupas passadas, louças na pia, roupeiro lotado, ressaca, comida que não é lá essas coisas pedida por delivery, apartamento sem sacada? E concluo, aliviada: é. Esta é a vida. Sem filtro, sem cortes, sem legendas animadoras, sem efeitos especiais, sem edições. Apenas vida. Real. Cheia de vieses, e ainda assim, aos olhos atentos, nos presenteia com a miudeza do pôr do sol em meio a todo o caos. Redes sociais facilitam, conectam, nos ajudam a pedir comida no domingo, mas não se trata da realidade por inteiro. Se trata de uma fatia, uma porção dela. E mais: uma porção de realidade que apanhamos (ou seja, selecionamos aquela parte em que o cabelo está mais bonito e a família é unida), editamos, colocamos um filtrinho, uma hashtagzinha, recortamos o braço gordinho, e de quebra adicionamos um trecho da nossa música favorita (Elton John, quem sabe?). No restante da vida, fora das redes, não dá pra fazer nada disso. O sapato aperta, faz bolha, o cabelo fica oleoso, a família é problemática, e a música sincronizada quase nunca acontece. Isso não significa que temos que viver sem paixão, sem esperança, sem um toque de magia (eu, por exemplo, não daria conta); mas que viver isso é justamente viver a vida como ela é. 
Talvez a gente precise dessa vida virtual para conseguir levar a vida real, talvez um filtro aqui e uma edição ali deixem a nossa história - ou, pra ser menos profunda, nossa rotina - mais leve e mais fácil de ser encarada (quem sabe dê até pra colocar uma foto de capa?). Mas são adendos, vírgulas, e viver isso como se fosse a verdade, é uma mentira. Daí aquele choque quando, no natal, encontramos com aquele parente distante, que passou o ano todo postando mensagens de zen-yoga-blaster, autoajuda e amor ao próximo, xingar a família inteira por não encontrar pavê de figo (o seu predileto) dentre as sobremesas. Viveu mais o virtual do que o real. O real seria o quê, o tal parente postar "bom dia é o caralho, tudo vai mal"? Ou "simplesmente" arcar com a sua vida medíocre e tentar mudá-la, por exemplo, falando disso a um analista?
Minha analista que me aguarde na próxima quarta feira...