sábado, 28 de marzo de 2015

pour quoi ne pas vivre?

O mundo comanda? Sem dúvida, mas cada um tem o seu, ou pelo menos sua maneira de habitá-lo. O frescor luminoso da manhã, desta manhã, o amigo que está cantando, a criança que está brincando, o calor dentro do peito, dir-se-ia uma felicidade, esse amor, essa doçura, essa lentidão... Não sabemos se devemos rir ou chorar, ou melhor, ambos estariam deslocados, e calamos, e a vida está aí, simples e difícil, e continua, e morre, e a vida é essa morte de instante a instante que se nega e se perpetua, que se supera, que se inventa e se esquece, que nos carrega e nos leva... Mal se pode dizer que somos, observava Montaigne, já que não paramos de mudar, de já não ser, de não ser ainda, já que "nosso estado é inimigo de consistência", já que vamos "afundando e rolando sem parar", já que somos apenas um clarão entre duas noites: tornamo-nos, resistimos, desaparecemos, vivemos, numa palavra, e é o que nos lembra esse gosto de nada na boca ou na alma, esse gosto renitente de ser mortais... Alain tem razão, aliás ele se atém a seguir Montaigne: a vida é "deliciosa por si mesma, e acima dos incovenientes". Claro, já que todo inconveniente que a supõe só pode estragá-la na medida em que ela é boa. E quem, melhor que Montaigne, soube amar a vida como ela é, em suas dificuldades, em suas contradições, em suas incertezas, e aprová-la inteira? "A vida", escrevia ele, "é um movimento material e corporal, ação imperfeita de sua própria essência, e desregrada; empenho-me em vivê-la de acordo com ela". Ainda assim é preciso morrer, e a própria doçura do prazer é como que realçada pelo amargor ou pela raridade. Fragilidade de viver. Fugacidade de viver. É a vida mesma, e o sabor da vida. "O duro desejo de durar..." Sempre satisfeito, uma vez que se vive, sempre frustrado, uma vez que se morre. Qual felicidade que não esteja ameaçada? Qual amor que não esteja assustado? Montaigne ainda: "Que coisa terna é a vida, e fácil de perturbar..." Mas quem por isso renunciaria à felicidade, ao amor, à vida?

(André Comte-Sponville em "Bom dia, Angústia!")

viernes, 27 de marzo de 2015

ciranda


recém chegada
temo
pouco
 muito
em torno
 apuro
peito cheio
vazio

a palavra
vaza

esvazia
o recipiente

persisto
parida
  perdida
       achada
o cordão enrolado no pesoço
o sangue escorrendo pelo dorso:
recém nascida
há tanto tempo.

miércoles, 25 de marzo de 2015

a gente quer sempre nascer de novo.

se engana quem pensa que se nasce apenas uma vez
em um dia
que coincidentemente fica marcado
como o dia em que comemoramos o aniversário.

se engana quem pensa que se morre:
a gente fica pra sempre marcado na memória dos que ainda seguem adiante.

é difícil viver com intensidade
a maioria das pessoas só quer a mansidão,
a calmaria
molhar os pés na superfície.

começa-se uma análise para se descobrir
para nascer
para dar voz ao inconsciente - este que não conhecemos, este que é estranho, porém familiar.
este que nos assusta, assombra;
mas o que assombra mesmo é deixá-lo nas sombras
à mercê
de qualquer embarcação
com qualquer comandante

eu decidi
velejar

dói.

mas esse barco
quem toca
sou eu.

quase sempre
estou só
mas nesse barco
quem manda
sou eu.

sábado, 21 de marzo de 2015

contrato

quando se conheceram, ele vestia um jeans exemplar. ela, também jeans, mas nada exemplar.
ele se mostrou muito falante, muito eloquente, muito muito muito. ela era um pouco menos. estava tímida, mas não porque estivesse nervosa.
ela fingiu ter paciência, saber usar o cartão crédito, saber beber, achar as piadas dele engraçadas. ele fingiu gostar de mulheres tímidas, fingiu que aceitava o fato dela beber, fingiu fazer tantas piadas pra disfarçar a tristeza que sentia.

para pedi-la em casamento, ele ajoelhou na  escadaria do prédio dela. disse que tudo seria perfeito na medida do possível, com a condição de que ela fizesse panquecas para os dois todos os domingos. ela achou muito espirituoso, como sempre. gargalhou como há muito não fazia. aceitou o pedido.

viveram feliz como um casal normal. decoraram a casa, brigaram pela casa. ela o ensinou a lavar as camisas, ele a ensinou a usar o cartão de crédito. ela resolveu o enigma cortando o cartão.
ele, mandando as camisas para a lavanderia.

ele ia para o trabalho às 9 e ela, às 7. ela tinha horário de almoço, ele não. ela chegava em casa às 20, ele, às 22. ela sempre chegava com alguma coisa da rua, principalmente estórias.
certo dia, ela chegou em casa mais cedo e ele estava sentado no sofá, assistindo bobagens.
"você não sabe o que vi na rua hoje! uma cena linda: uma garotinha de uns 6 anos com seu avô, passeando com o cachorro. de repente, a garotinha diz "vô, amarra o meu cadarço?". o avô dá a coleira do cachorro pra ela segurar, se agacha com alguma dificuldade e, enquanto ele amarrava os cadarços da netinha, a menina passa delicadamente a mão nos poucos cabelos brancos do avô".

só que ele não ouviu.
e nem perguntou depois.

ela saiu, foi fazer outras coisas.

no dia em que se separaram, ela fez as malas sozinha. ele ficou na sala, com cara de nada. com cara de quem não tem forças. com cara de quem não tem nada pra dar.

ela pegou uma das malas, foi até a sala e parou.
"estou indo", ela disse.
"tudo bem", ele respondeu.
"tudo bem é o caralho", ela pensou e não disse, também não tinha mais o que dar.

ela esperava que ele fizesse a vida valer a pena por um mísero minuto, pegando-a pelo braço, chutando a mala, trancando a porta da sala pra ela não sair, beijando-a loucamente e dizendo o quanto a amava e o quanto ele havia sido um imbecil. ela gostaria que ele gerundiasse mais.
ele não tinha energia nem ao menos para gerundiar.

ela saiu pela porta que entraram três anos atrás, desceu pelas escadarias em que ele a pediu em casamento, dizendo que só tinha uma condição: que ela fizesse panquecas para os dois todos os domingos.

"enfie as panquecas no cu" foram as últimas palavras dela. aos gritos.

jueves, 19 de marzo de 2015

equilibristas

a gente se segura
como quem não quer cair
como quem não quer morrer
a gente se equilibra
como quem não quer mostrar
que nem sempre está
sempre firme.
a gente se segura
nessa corda inexistente
e tão real
chamada vida.

viernes, 13 de marzo de 2015

miércoles, 11 de marzo de 2015

diferenciar sapo de príncipe
princesa de gata borralheira: eis a minha encruzilhada.

disfarçada de borralheira
no fundo, quer ser vista como princesa
mas ninguém vê.
aí a princesa chora sozinha
abandonada,
enquanto a gata borralheira
continua beijando sapos.

martes, 10 de marzo de 2015

estou me descobrindo
como é que pode alguém passar a vida inteira se descobrindo?
viver é gerúndio, e eu aprendo enquanto caminho, nunca na chegada, nunca na partida, só durante.
é o durante que me faz, é do durante que sou feita.
sou o entre.
estou entre duas coisas,
a que fui e a que serei,
e quando me tornar algo, ainda serei instante
a vida é gerúndio.

domingo, 8 de marzo de 2015

juntas somos melhores

porque quando uma de nós sofre, e encontra uma caverna no meio da cidade grande,
pra desabafar, chorar e ter as suas dores compartilhadas, percebemos o quanto precisamos umas das outras. as dores são similares, os machucados nos mesmos lugares (é cultural, em primeiro lugar),
as questões... ter uma outra, igual, para dividir tudo isso, é benção.
abençoados sejam nossos clãs, nossas rodas de conversa, nossas mesas de bar, nossos círculos de dança e rituais. que sempre tenhamos uma mão estendida pra ajudar, quando o caminhar for pesado demais. 

 

jueves, 5 de marzo de 2015

odeio

odeio gente
que se entrega
e depois
se nega

odeio gente que seduz
e depois
ofusca a minha luz

chega desse flerte barato
desalmado.

o que eu quero
é ser amado.

domingo, 1 de marzo de 2015

roda-viva

eu pensava que a gente tivesse que reinventar a vida -
e o céu, e as árvores, e os diferentes tons de todas as cores que estão no mundo, e nosso sentimento pelas pessoas, tudo, absolutamente tudo -
para vencer a monotonia
mas não.
porque a reinvenção também chega a um ponto de exaustão,
em que não é possível reinventar nada: tudo é igual, as horas são iguais, os dias são iguais, até as coisas diferentes são iguais.
aí vem o amor, e muda os rumos, o cabelo, a casa, a cama, mesa e banho.
um terror, sim, mas se assim não fosse, qual seria a graça?
o amor tem um slogan:
por que não bagunçar um pouco? a casa, o cabelo, a cama, a rotina?

mas amor também acaba.
deixa vazio.
às vezes não acaba,
mas sai pela mesma porta que entrou
e nos deixa cheio de dor.

a nossa missão
é arrumar tudo de novo
quando o amor vai embora
a gente arruma um jeito novo,
se veste de um jeito novo,
arruma um amor novo
feito ovo,
que nasce de novo
(quem veio primeiro: a paixão ou a miséria do seu fim?)
amor é um jogo de controvérsias loucas
em que a gente aprende, na marra, a amar nossos opostos.

quando a gente ama, tudo é novo.
mesmo que aconteça tudo de novo.
levantar da cama ganha uma nova graça
mesmo o mundo sendo uma desgraça.
quando o amor escassa
tudo perde graça:
é hora da comparsa
da boa e velha
cachaça.