sábado, 21 de marzo de 2015

contrato

quando se conheceram, ele vestia um jeans exemplar. ela, também jeans, mas nada exemplar.
ele se mostrou muito falante, muito eloquente, muito muito muito. ela era um pouco menos. estava tímida, mas não porque estivesse nervosa.
ela fingiu ter paciência, saber usar o cartão crédito, saber beber, achar as piadas dele engraçadas. ele fingiu gostar de mulheres tímidas, fingiu que aceitava o fato dela beber, fingiu fazer tantas piadas pra disfarçar a tristeza que sentia.

para pedi-la em casamento, ele ajoelhou na  escadaria do prédio dela. disse que tudo seria perfeito na medida do possível, com a condição de que ela fizesse panquecas para os dois todos os domingos. ela achou muito espirituoso, como sempre. gargalhou como há muito não fazia. aceitou o pedido.

viveram feliz como um casal normal. decoraram a casa, brigaram pela casa. ela o ensinou a lavar as camisas, ele a ensinou a usar o cartão de crédito. ela resolveu o enigma cortando o cartão.
ele, mandando as camisas para a lavanderia.

ele ia para o trabalho às 9 e ela, às 7. ela tinha horário de almoço, ele não. ela chegava em casa às 20, ele, às 22. ela sempre chegava com alguma coisa da rua, principalmente estórias.
certo dia, ela chegou em casa mais cedo e ele estava sentado no sofá, assistindo bobagens.
"você não sabe o que vi na rua hoje! uma cena linda: uma garotinha de uns 6 anos com seu avô, passeando com o cachorro. de repente, a garotinha diz "vô, amarra o meu cadarço?". o avô dá a coleira do cachorro pra ela segurar, se agacha com alguma dificuldade e, enquanto ele amarrava os cadarços da netinha, a menina passa delicadamente a mão nos poucos cabelos brancos do avô".

só que ele não ouviu.
e nem perguntou depois.

ela saiu, foi fazer outras coisas.

no dia em que se separaram, ela fez as malas sozinha. ele ficou na sala, com cara de nada. com cara de quem não tem forças. com cara de quem não tem nada pra dar.

ela pegou uma das malas, foi até a sala e parou.
"estou indo", ela disse.
"tudo bem", ele respondeu.
"tudo bem é o caralho", ela pensou e não disse, também não tinha mais o que dar.

ela esperava que ele fizesse a vida valer a pena por um mísero minuto, pegando-a pelo braço, chutando a mala, trancando a porta da sala pra ela não sair, beijando-a loucamente e dizendo o quanto a amava e o quanto ele havia sido um imbecil. ela gostaria que ele gerundiasse mais.
ele não tinha energia nem ao menos para gerundiar.

ela saiu pela porta que entraram três anos atrás, desceu pelas escadarias em que ele a pediu em casamento, dizendo que só tinha uma condição: que ela fizesse panquecas para os dois todos os domingos.

"enfie as panquecas no cu" foram as últimas palavras dela. aos gritos.

No hay comentarios:

Publicar un comentario