jueves, 28 de mayo de 2015

a vida,
essa jazzera pesada
norte americana
transviada,
toca num compasso tão quebrado
que nem miles davis
consegue acompanhar

lunes, 25 de mayo de 2015

a morte atravessa a porta da vida sem bater. a melhor sorte que você pode ter é um tempo para dar uma espiadinha pelo olho mágico, ao menos.

domingo, 10 de mayo de 2015

a carta que nunca recebi

de súbito, despertei com o barulho da chuva. chovia como há muito não chovia. "do nada", diriam alguns. "vai esfriar mais", outros irão dizer. eu mesma não sei o que será do tempo. aproveitei o som da chuva para me virar de lado e voltar a dormir. era para ser simples. mas, antes, como se eu estivesse com uma doença incurável das emoções, como se me invadisse um pensamento que eu não pudesse evitar, como se eu fosse uma escrava do calendário e simplesmente não fosse possível ficar incólume ao tempo, senti meus ombros pesarem sob o colchão: hoje é dia dez de maio. 

como um corpo que se descobre vivo, como alguém que não sabe, ainda, dizer daquilo que sente, como sempre, resolvi escrever. porque quando a gente coloca as palavras organizadas numa sentença, é como se fosse possível driblar a própria dor. não que eu queira fugir da minha dor, na verdade eu quase nunca consigo, mas escrever é como conseguir entender aquilo que eu ainda não entendo. e provavelmente permanecerei sem entender. mas não importa, uma vez que eu possa escrever.

se fosse possível, minha mãe me escreveria uma carta hoje. eu não. já é batido tal tema, já escrevi muito pra ela, sem nunca obter uma só resposta. minha mãe mora longe, não nos falamos há... bem, hoje está fazendo 9 anos que não nos falamos. mas eu ainda penso e elaboro muitas coisas a seu respeito, e tenho certeza de que ela também. tenho certeza que ela se assusta, assim como eu, com essa ausência que vai ficando confortável com o passar do tempo. como pode uma ausência se tornar confortável? pois é, não sabemos disso ainda. mas o fato é que a ausência de alguém, mesmo que importante, em certo momento, deixa de doer. a dor se acomoda em alguma poltrona da nossa alma, senta, pega uma xícara de chá e ali fica durante horas, dias, semanas, meses, décadas. é isso o que acontece. é isso que aconteceu com a ausência de minha mãe. e é por isso que ela resolveu me escrever logo hoje, quando esta ausência fica marcada por dois motivos: 1) é dia das mães 2) faz 9 anos que não sento e tenho uma boa conversa com ela.

acordei e havia uma carta na soleira da minha porta. dizia assim:


Filha,

Deve ser estranho receber esta carta, logo hoje. Peço desculpas. Talvez sejam despertadas emoções que você não aprecie tanto, mas, por favor, não se prenda muito a elas. Apenas por um momento, sim? Apenas até este dia terminar. 
Escrevo porque ontem me lembrei de você. Escutei uma música da Rita Lee e me veio a sua imagem rodopiando pela casa, gargalhando, com uma taça de vinho em uma das mãos. Você sempre foi muito musical e eu já te disse isso antes, incrível como isso ainda continua vivo em você! Me surpreende. Você sempre me surpreende, filha. Me surpreende desde que eu descobri que estava grávida de você, me surpreendeu quando entrei em trabalho de parto prematuro, no dia 29 de novembro de 1987, quando senti fortes dores na parte baixa da barriga e achei que fossem cólicas intestinas. Você sempre me surpreendeu. Sempre foi muito poética (estou sabendo que anda escrevendo), artista, musicista, sensível e um pouco maluquinha. Cuidado nas maluquices!
Mas eu sei que você sabe se cuidar. Sei que você sabe se virar, e me orgulho disso. Deixa eu me vangloriar um pouco, vai, hoje é o meu dia!
Inclusive, chegamos ao ponto crucial desta carta: a sua sobrevivência. 
Me faz muito feliz saber que você sobreviveu. Fez bonito na vida, e sei que vai continuar fazendo. 
Você sobreviveu com estilo, colocou poesia nos seus dias, alegria na vida das pessoas que te rodeiam, e além disso, faz um trabalho lindo todos os dias. Você tem a imaginação solta, conservou algo que nos dias de hoje é uma raridade, minha filha: o espírito infantil. Sua criança interna não aguenta ficar sentada durante muito tempo, ela logo começa a se sacodir por aí, sai rodopiando e cantarolando... E ai de quem estiver cabisbaixo! Você logo conta uma piada, dá um tapinha nas costas e diz "vamos rodar!". E é isso, filha, que eu gostaria que conservasse. Este é o motivo pelo qual eu mais te admiro. Essa espontaneidade jovial, essa risada solta, essa capacidade de tornar a vida mais leve, sempre levando na mochila a ansiedade e a angústia inerentes ao estar vivo. Viu como eu também sei das coisas? Você me ensinou muito!
Por isso, filha, por isso e por tanto mais, eu digo que você deve comemorar o dia de hoje. Por ser essa pessoa incrível, por estar viva! Quer coisa melhor do que isso? A tristeza faz parte, você sabe disso, já estamos carecas de saber! Mas não se trata de tristeza. Ela não é a protagonista dessa história. A protagonista é o momento presente, este dia, esta vida, sua espontaneidade capaz de fazer com que mesmo os pequeninos momentos tenham um grande significado. Não é assim? Viu como sei bastante a seu respeito, apesar da minha ausência? Fui eu que te pari, eu que te criei, e sabia desde o início que você seria diferente. Talvez isto faça você sofrer um pouco além da cota estimada para pessoas da sua idade, mas não tem problema. Eu percebi há muito que a frase "se cuide para não sofrer tanto" seria praticamente inválida para você. Você sempre foi como a sua avó, minha mãe, espalhafatosa, extrovertida, sempre quis viver as coisas até o último gole (por isso tem tantas ressacas, não é?). Eu guardei um pouco deste traço também, e talvez tenha aprendido com ele ao longo de minha vida. Tomar decisões impulsivas não faz de nós mulheres mais independentes, mais femininas, menos submissas, enfim... Nos faz sofrer. Mas você já tem aprendido com isso, muito antes do que eu aprendi. E isto é bom. Porque só então você poderá sofrer de outras dores, e não mais das mesmas que eu sofri. Isso seria injusto e eu ficaria muito puta da vida... Mas é pra isso que estou aqui, mesmo que não se justifiquem os meus nove longos anos de ausência: para te dizer que você precisa errar os próprios erros, construir a própria casa, criar os próprios filhos. De certo modo, minha ausência irá te ajudar nessas tarefas, uma vez que sem mim você vai ter que descobrir por si só (e intuir, minha filha, intuir muito) como é fazer essas coisas. Minha ausência, que daqui pra frente só irá aumentar (como numa estrada, em que quanto mais nos distanciamos de casa, mais perdemos as referências, esquecemos onde deixamos os chinelos, e até mesmo qual a cor da parede da cozinha) como é fazer essas coisas. Irá criar as próprias referências. Claro que ninguém é feito sem raízes, ninguém se constitui sozinho, mas o meu papel eu já cumpri: cedo ou tarde, eu cumpri. Algo meu ficou em você e muito seu ficou em mim. Depois, você tem a oportunidade de conviver com a minha mãe, e isso por si só já foi um grande aprendizado. Muito do que ela te ensina irá ficar marcado em você. Converse com ela sempre que puder, enquanto é tempo. Chore hoje, se for preciso. Chore bastante. Mas depois se levante, você tem uma vida pela frente (pare de dizer que irá morrer jovem, ou que 27 é "velha demais", por favor), coisas a aprender, erros a errar, um homem bom a encontrar e todo o resto virá... espontâneo como você é e sempre será.
Seja você, e nunca irá se arrepender de nada.

O feliz dia das mães é para nós duas. Eu fiz o meu trabalho, cumpri minha tarefa. E você dá continuidade a ela todos os dias, sendo sua própria mãe. 

Com amor,

                     K. 






viernes, 8 de mayo de 2015

é tão difícil viver tudo
que a gente não cabe
nem mesmo dentro da vida
(por isso a morte).
nos lançam no existir
como se fosse bonito
como se fosse dádiva
como se fosse só isso
(e é).

de repente a gente vê que se expande,
cresce
encontra com outra gente
também inquieta
também atenta
também deslocada
e é como se a gente coubesse
(o amor).

aí tem hora
que a gente miudece
fica pequeno feito grão de alguma coisa
e depois de um tempo incubado
nasce florido
cheira perfume
cabe na vida de novo.

seguimos,
não tem outro jeito:
vai ser sempre
essa coisa esquisita.
a gente coloca
pedra
papel
poesia
tesoura
pra ver se dá conta
desse parto
constante
da mesma pessoa.

jueves, 7 de mayo de 2015

sobre a saudade

a saudade é tipo a vida
ela nos acompanha
dita ritmos
não faz muita festa
precisa, por vezes, ficar sem rima
pra entender do que é feita a prosa.

a saudade é tipo isso
mas só quem sente pra saber
do que se trata
esse sentimento que maltrata
e ao mesmo tempo cura
orgulho,
ego ferido,
briga de amigo.

a saudade vem pra mostrar
que a vida é isso mesmo:
curta
breve
fortuna que quem não sabe aproveitar,
empobrece.

miudezas

se por um acaso
perguntarem,
diga que eu sempre admirei os pores-do-sol
especialmente
os cor-de-rosa-laranjados
que pude apreciar
enquanto caminhava do trabalho
pra casa.

se por um acaso
quiserem saber,
diga que eu adorava ouvir
gargalhadas de mulheres,
especialmente das velhas,
que quando riem
batem suas palmas das mãos nas coxas
ou deixam à mostra
as rugas do pescoço,
ou o início do decote,
ou ainda
a alça do sutiã
que se mostra à medida em que o riso se torna
incontrolável.

diga que eu sempre fui destas
que prestava atenção aos detalhes,
pequeninos
mínimos:
a que observava, atentamente,
pelo espelho
alguém lamber a colherzinha do café
antes de dar o primeiro gole.

domingo, 3 de mayo de 2015

a vida passa
a morte é certa
acerta em cheio
o peito.
o coração me atravessa
a esquina:
paro,
olho,
cuido para não ser atropelada
pois,
o que é a vida
se não
uma sucessão de atropelamentos -
suspensos,
difusos,
loucos,
medonhos

e belos?