viernes, 26 de junio de 2015

tem dia
que é mais pra dentro que se olha,
é mais ferida,
fratura
exposta pro espelho
ver.

tem dia
que não tem música
que consola,
é só o barulho
do serrote
da máquina de lavar
carregada com roupa já vivida,
da vida pulsando em todos os eletrodomésticos
e aqui dentro
meu estômago vazio
com fome de paz.

a cabeça anda acima do limite de velocidade
levo multa,
multas
por nunca parar.

tem dia que nem parece dia
parece noite avessa
escrota
amarga
absorta.
vagando pelas horas
sem nenhum sentido.

viver não se escolhe
apesar de alguns acreditarem que sim.
até pra morrer
é preciso ter os pulmões cheios
de um último ar.
até pra morrer
é preciso querer.
é preciso estar.
é preciso ser.
viver não se opta
como se opta comer couve flor
ou batata frita,
tomar vinho
ou marguerita.

viver é urgente,
é sempre ofegante,
como ultrapassar correndo todos os sinais vermelhos
e não morrer
por um triz
ou,
simplesmente
porque ainda
não é hora.

domingo, 14 de junio de 2015

esperando a hora
de ser feliz
encontrar um par
que queira ser par.
estar a par
das notícias
suas.
ficar nua
dançando gal,
morrer
de morte natural
como
se a vida fosse
uma intervenção artística.

jueves, 11 de junio de 2015

bilhete de amor manchado de café

em cima da pia, ao lado da torradeira, de pé, escrevi pra você o último bilhete de amor. fui buscar a bic em cima da minha mesa cheia de livros, uma bagunça total, e apoiei a xícara de café em cima do papel. manchou. 

você decidiu ir: uma proposta irrecusável, uma vida nova, um avião, 17 horas de voo, alguns remédios pra dormir, sua série favorita. eu fiquei, com a minha bicicleta, a minha mesa cheia de livros, o meu cesto cheio de roupa, a minha louça cheia de pia. eu fiquei, com o seu cheiro nas dobradiças das portas, nos vãos das janelas, em tudo quanto é buraco. 
apesar disso, cuidei de tudo antes de você partir. lembra do seu bilhete com algumas instruções? sua maior preocupação era a sua mãe e as  suas plantas. por que eu estava fazendo aquilo? por que eu cuidei de tudo?  

mas, fique tranquilo. eu cuidei de tudo. das suas plantas, da geleia de frutas vermelhas que morava na sua geladeira desde março. liguei pro banco cancelando o seu cartão e pra sua mãe, dizendo que você voltaria, porque eu precisava dar a ela alguma coisa para acreditar.
eu acreditei nos gerânios que você me deu, naquela manhã explodindo azul. 

sabe, preciso confessar uma coisa. eu quase fiquei pra trás nesse pega-pega, porque eu nunca fui muito boa em esportes. mas no amor eu me esforço. me falta fôlego e me falta tanto... mas no amor eu me esforço. eu estudo a matéria. eu faço aula particular. eu nunca quis reprovar. mas existe algo que nos diferencia. é a coragem. enquanto você parte, eu fico. enquanto você não encara as próprias plantas e a própria mãe, eu faço isso. eu me esforcei. você sabe o quanto eu quis uma casa com quintal, mesmo que pequeno; uma cadeira de balanço no jardim, o manjericão plantado ao lado do orégano. você sabe que eu me esforcei. você perdeu por w.o. e no amor, eu quero que vá pro inferno a máxima de que "é importante competir". porra nenhuma, no amor eu quero ganhar. agora sei porque cuidei de tudo. por isso. porque eu me esforcei, até o último instante, até ouvir a campainha do aeroporto anunciando a última chamada para o seu voo. depois disso, voltei pra casa e recomecei.