martes, 25 de agosto de 2015

o poeta é um eterno insatisfeito

o poeta é um eterno insatisfeito.
não encontra, em outras palavras, aquilo que expressa a sua verdade, a sua cólera ou a sua agonia.
por isso, o poeta faz palavras com as próprias mãos.
pois, não havendo ainda, para ele, palavra suficiente no mundo, ele as cria, recria, ele as tira de um estado de latência e as traz de volta para o centro do seu ser, para encontrar um sentido.
o poeta está sempre com o estômago roncando.
se desfaz em palavras
e se refaz com as mesmas palavras que outrora atirou ao lixo.
mastiga os papeis em que escreve,
digere o mundo inteiro que não coube no verso e defeca palavras ásperas, palavras de desapontamento, palavras que a vida dá todos os dias, com seus normais percalços.
o poeta traça o próprio caminho porque não suporta a ignomínia de outro alguém colocar palavras em sua boca
e apesar de lê-las, não fazem total sentido porque não são dele.
o poeta é um profundo egoísta, vendo por este lado.

o poeta é também alguém com enorme coração.
porque distribui ao mundo, sem muito pudor, suas vísceras, cheias de anseio por algo que seja diferente da mesmice, que esteja para além do amor banal.
o poeta é tudo e nada. é compositor barroco e é também a puta pobre na esquina escura, com o esmalte velho, as unhas roídas, o dinheiro amassado dentro do sutiã.
o poeta tem medo de ser roubado pela rotina, de ser engolido pela falta de sentido.
o poeta é algo que jamais se viu e é o que mais se vê, em tempos como os de agora.
o poeta é uma palavra que rima com qualquer coisa e que não rima com nada.
o poeta é difícil e é fácil.
o poeta é e não é.
não tentem definir o poeta. não elogiem o poeta. não esqueçam o poeta. comprem os livros do poeta. paguem cervejas ao poeta. dêem risada com o poeta. ajudem o poeta. não achem que o poeta é um louco, abstrato feito pintura do Miró, onde apenas vislumbres humanos podem ser vistos. o poeta é colorido, é cinza, é preto, branco, é o espectro de espelhos. é o dark side of the moon. o poeta é física quântica e é leite apodrecido. o poeta é a fruta mofada esquecida na fruteira. o poeta é a caixa de suco integral que custa dez reais. o poeta é o caviar na boca dos velhos ricos e burros. o poeta é rico. o poeta é pobre. mas não é contradição. repare bem.
o poeta é simples, come sem guardanapo, não sabe se começa pelos talheres de dentro pra fora ou vice-versa. o poeta vira amigo do garçom, do mendigo, da empregada. o poeta é a escória.
o poeta gosta de árvore, mato, água, planta, café, gato, silêncio e barulho. o poeta gosta de segunda-feira, terça sexta e domingo. o poeta gosta de ficar olhando as coisas serem coisas, insípidas, infinitas por um segundo. o poeta gosta de ônibus, de andar a pé, mas dêem carona para o poeta.
o poeta não lê camões. o poeta é o objeto indireto jogado no mundo, à procura de.
o poeta detesta bons modos, mas não abre a geladeira em casa alheia.
o poeta não tem mãe.
o poeta é órfão de insensibilidade, condenado a ser tolo.
o poeta não sabe dizer as coisas.
o poeta não sabe a medida das coisas.
o poeta erra a receita.
o poeta erra.
o poeta tem duas pernas, mas também tem asas. e não voa.
o poeta só voa enquanto escreve. quando a poesia acaba, ele desaba. cai no chão feito fruto maduro. que ninguém vê e pisa. que ninguém vê e por isso não come.
salvem o poeta. ele está se afogando. mas ele não quer uma boia. ele quer uma palavra, aquela palavra. ele quer paixão, ele quer amor, ele quer comer, beber, ele quer nascer mil vezes. o poeta precisa pagar a conta de luz vencida. o poeta não sabe lidar com a realidade. o poeta tem um problema com a realidade. o poeta tem déficit de atenção, ele só consegue se concentrar em linhas curtas. o poeta se apega às prosas que passam rápido feito os dias.
o poeta admira os que nunca precisaram escrever uma só linha para esboçar um relance de felicidade ou júbilo. o poeta inveja os engenheiros. o poeta inveja o sapateiro, que nem se preocupa com as palavras. o poeta amaldiçoa o dia em que aprendeu a ler. mais ainda, o dia em que percebeu que não poderia viver sem escrever. um só dia. este foi o dia de sua condenação.
mas este também foi o dia de maior alegria na vida do poeta: o dia em que escreveu.
e não há um só dia em que não escreva que faça sentido para o poeta.
não há um só dia em que o poeta não anseie chegar, pra ver qual é a palvra que vai parir.
quando o poeta for se deitar e pensar
'amanhã não quero me levantar'
mandem-o à poesia que o pariu.

jueves, 20 de agosto de 2015

a poesia
é uma forma de confissão
disfarçada

assim como
o olhar
denuncia o amor
o verso
denuncia
o autor.
[ao lado do prédio em que trabalho
há um prédio menor
onde trabalha o sapateiro,
ele conserta sapatos.
eu conserto palavras.

esses dias pela rua
reconheci o sapateiro,
fumando, cabisbaixo
com a camisa suja:
uma mão ia no bolso,
o caminhar ia certeiro.

pensei
"com o que se preocupa?"
solas sem solução?
cadarços esgarçados?
saltos quebrados?
eu não sei.

entre eu
e o sapateiro
há uma ligeira semelhança
enquanto ele cola palmilhas
eu colo palavras
que andam soltas.

o que me diferencia do sapateiro
não é o ofício
nem o nível de instrução
o sapateiro
só deve ser mais livre
do que eu.]



martes, 18 de agosto de 2015


[a minha solidão
é a coisa mais povoada que conheço
nela moram artistas, rebeldes, ativistas.
a rima, não.
esta me ocorre apenas por acidente,
assim como você
assim como eu.

somos uma batida de frente
no meio da rodovia.
nenhum ferido,
mas a polícia veio
checar o que houve.
atrapalhamos o trânsito
de um dia normal:
"calma, senhores, é só uma atração
nada fatal
nada banal
um pouco carnal".

nada de mais, afinal.

nada de mais.

mesmo assim
nos levaram ao hospital
para alguns exames.
desconfiam de uma fratura interna
intensa
hemorragia grave
morte lenta
e horrorosa.

não é nada de mais.

mas o meu coração
- este órgão que é cego,
surdo,
mudo
e apenas pulsa;
este órgão
a quem dotamos sentido,
fiascos,
temores,
e poderes sobrenaturais -
diz que não.

assumo, por fim:
foi um pouco grave.
mas antes uma batida de frente,
encarar de uma vez por todas
o demônio com seu tridente
(o amor, enfim)
do que passar uma vida inteira
dirigindo dentro do limite de velocidade]

domingo, 16 de agosto de 2015

[uma poesia cai no chão.
o barulho que ela faz é limpo
é puro,
imperceptível
aos olhos insensíveis.

uma poesia cai no chão
e não é preciso varrer
porque as palavras vão se juntando
aos azulejos
formando azaleias,
baleias,
formas insignificantes
aos olhos menos românticos.

uma poesia cai no chão
seu barulho é grosso
e meu vizinho de baixo
reclama.
pobre vizinho,
não sabe que tudo tem um sentido
e o único sentido da poesia
é cair.
para que pisem nela,
para que pisoteiem-na
como são pisoteadas as uvas
com os pés descalços
- já cansados -
para dar origem
ao mais consagrado vinho.

vinho que beberão
os pobres
os negros
as mulheres
os grandes e os pequenos
que tiverem nascido
com o mesmo defeito congênito:
o de enxergar belezas
em palavras vacilantes]

sábado, 15 de agosto de 2015

estou cercada de prédios
janelas
construções
janelas
grades
prédios
janelas
telas de proteção

esses prédios
ó deus
altos
baixos
gordos
magros
assimétricos
arquitetos
engenheiros
mestres de obra
mestres em subir tijolos
armar concretos

janelas
telas
janelas
grades
janelas

meu grito
é abafado
pelos prédios
minha vida
não é privada
da minha janela
só mais janelas
janelas
acesas
apagadas
com telas
janelas
fechadas
janelas
abertas

hoje em dia
ver o céu
é privilégio
por isso
ando nas ruas
olhando pra cima.

viernes, 14 de agosto de 2015

eu preciso reagir
eu preciso agir
eu preciso ir
eu preciso.

é imprecioso viver
mas preciso
com certa imprecisão
estar
e parir
esta que já sou
enterrar aquela que já fui
pois não quero morrer.
ninguém quer morrer.
quem quer morrer
teme muito mais a vida
porque não existe nada mais assustador
do que estar vivo.
há vida.
entretantos
desencontros
a vida me procura
me acha escondida nos cantos
a vida me procura
e quando me acha
me pega pela cintura
me reinaugura
e me faz mulher.

lunes, 10 de agosto de 2015

passei o dia falhando
tentando encontrar um motivo
pra a minha tristeza
pra essa agonia

rodopiei em volta dos meus karmas
gostos, gestos
tive medo da morte
mas ainda mais
medo da vida.
o que será que ela quer de mim?
já tem a minha alma
tira a minha calma
o que mais ela quer?

tropeço enquanto ando
me despeço de mim todos os dias
e me parto
parto pra longe
parto normal.

no dia seguinte
nasce uma nova
mas essa
nasce de cesárea
porque acordar  é difícil
estar mergulhada na vida
é difícil
eu preciso de boias
pra essa água fria
pra esse banho gelado
de realidade
que tenho que tomar
todos os dias.

lunes, 3 de agosto de 2015

[ao arremessar verdades
cuidado com os obstáculos
seja cauteloso
com a força usada
para não quebrar verdades
desnecessárias.

ao podar defeitos
cuidado com as raízes
pregadas no chão
é preciso deixá-las
intactas
ou corre-se o risco
de perfeição.

é imperioso
ao quebrar vidraças,
copos ou taças
juntas os cacos
e embrulhá-los em jornal
para que ninguém se machuque
com uma dor
que não lhe pertence]