jueves, 20 de agosto de 2015

[ao lado do prédio em que trabalho
há um prédio menor
onde trabalha o sapateiro,
ele conserta sapatos.
eu conserto palavras.

esses dias pela rua
reconheci o sapateiro,
fumando, cabisbaixo
com a camisa suja:
uma mão ia no bolso,
o caminhar ia certeiro.

pensei
"com o que se preocupa?"
solas sem solução?
cadarços esgarçados?
saltos quebrados?
eu não sei.

entre eu
e o sapateiro
há uma ligeira semelhança
enquanto ele cola palmilhas
eu colo palavras
que andam soltas.

o que me diferencia do sapateiro
não é o ofício
nem o nível de instrução
o sapateiro
só deve ser mais livre
do que eu.]



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