martes, 29 de septiembre de 2015

[meu coração
é um órgão inquieto
insone
tem olheiras por ficar acordado a noite toda
pulsando.
de manhã
em cima da mesa
(pulsa)
no fim da tarde
está cansado
mas sabe
que (ainda) há trabalho a fazer
porque não encontrou
o seu sentido
de ser.

meu coração resume-se
a uma rima pobre:
órgão passível
de comoção,
sensível
por vocação.

mesmo assim
o cadastrei na lista de doadores:
poeta, ansiosa e fumante.
coitado
do primeiro
na fila
do transplante] 

domingo, 27 de septiembre de 2015

notas sobre um deslizamento de terra. ninguém se feriu.

Em cima da mesa, o café mancha a toalha com galos bordados. A garrafa não foi enxugada corretamente, então, quando a apoio na toalha com galos bordados, mancha. 
O café mancha. Minha angústia escorre pelas paredes da casa, a fumaça do café se mistura com ela e torna tudo um pouco mais vivo, mais real.  
O café, ao menos, me salva. Me salva da minha própria moléstia, da minha própria solidão, do desespero que criei.
Esses dias me perguntaram se eu tinha uma "pessoa fixa". Respondi sinceramente: "Eu não tenho salário fixo, eu não tenho uma pessoa fixa. Eu não sou alguém fixo". 
Acha que fiz mal em ser tão sincero? 
Eu acho que sempre me dou mal quando sou sincero. As pessoas querem a mentira, é mais confortável. Você não. Você sempre quis a verdade. Entrego-lhe, como se passasse para os seus braços um bebê recém-nascido: com cuidado. 
As palavras devem ser manuseadas com cuidado. Especialmente aquelas que falam sobre o cômodo escuro que temos em nós. Desse cômodo, escorre uma água suja, toda vez que uma palavra não é dita. Nesse cômodo moram os incômodos. Os medos são inquilinos que nunca pagam o aluguel. Merda. Você sabe que não há cura para pessoas como nós, certo? Nunca existirá. Porque, eu já disse, as pessoas gostam da mentira. Elas gostam de se enganar. Por isso são enganadas. Assim é mais fácil. 

Sobre aquele dia, preciso lhe dizer algo: você achou que eu falava de amor, enquanto eu apenas falava da vida. Por favor, não confunda as coisas. 
Bem, mas acho que você não tem cura no que diz respeito a isso, não é? Tudo bem. Eu vou rezar por você. Quem sabe daqui há uns 10 anos você encontre alguém que também esteja falando de amor. 
Por favor, não se esqueça: quando encontrar essa pessoa, peça para que me ligue. Eu vou dizer algumas verdades a seu respeito. É melhor que seja eu a dizer as verdades sobre você. É melhor que as coisas já comecem claras desde cedo, não quero ver você se culpando mais uma vez. Meu telefone sempre será o mesmo. 

Te espero no bar de sempre, às nove. Dessa vez nada de exagerar na bebida. 

Ass: L. 

viernes, 25 de septiembre de 2015

se a associação poética fosse livre

dia de cão. dia de gato. dia de leão. um leão por dia. a palavra me assola, me assombra, me perfura e me arromba. bendita seja a palavra. bendita suas vísceras entre as mulheres. e homens. crianças e idosos primeiro, pelo portão à esquerda, por favor. passei o dia compondo, sentindo, tecendo, meio dormindo. meu corpo não respondia aos sinais vitais porque os sinais eram virtuais. um dois três: dois pra lá dois pra cá. mas eu gosto de dança contemporânea. quero morar no litoral de mim mesma: sempre perto de amar. pra eu não esquecer que eu jorro. gosto de molhar a cabeça, de andar descalça. sou palestina livre. sou bolsa família. mas uma coisa leva a outra e eu me levo a lugares que rimam. escolho restaurantes pelos sorrisos. cumprimento o motorista e o porteiro. sorrio para indigentes. índios que também são gente. família tradicional passou longe.
mas como eu ia dizendo afinal eu estou sempre dizendo alguma coisa e sempre perco as palavras no meio das frases e procuro senti-las ao invés de tocá-las e aí olho pra cima. um ponto uma mosca é josé é maria é madeira de vento tombo da ribanceira é mistério profundo. mas o dia de hoje foi duro. duro feito as pedras de gelo que caíram do céu e fez calor suei nos pés e no fim do dia deus me recompensou pelo meu sofrimento. me deu guarda chuva furado e banho de água de carro. eu sorri. os semáforos queimaram e os carros iam passando e eu ando ando ando. pedi carona na ciclovia conheci um estranho imaginário que me trouxe pra casa passamos café conversamos muito mesmo pra tentar nos conhecer carinha de cursinho que nada casamos e tivemos dois filhos que sempre pegavam recuperação em história uma vergonha para pais de humanas e de esquerda. fim da história porque era mentira. imaginei você vindo me visitar trazendo em uma das mãos uma sacola com pitangas. as pitangas que eu nunca comi porque em casa só tem água gelada preciso fazer mercado senhor jesus quanta coisa preciso comprar e não quero e não preciso porque tenho a mim mas nunca basta. deus me recompensou com o conforto desconfortável do meu lar e dos meus livros mas como sempre falta uma coisa e é o vazio que enche o saco eu imaginei você aqui. fomos felizes por uma noite que durou o mesmo tanto que esse dia quente cheio vazio tórrido besta insensível. eu pedi pra você ficar declarei meu amor no vidro embaçado enquanto você foi ao banheiro e quando escutei a maçaneta girar eu apaguei rápido porque sou tímido e espalhafatoso de perto ninguém é normal. mas deus me recompensou com um banho de chuva enquanto eu voltava pra casa e eu senti que a felicidade é uma coisa difícil muito difícil quase inalcançável mas deus me recompensou com a alegria difícil como disse lispector como eu disse pra você ler a biografia do mozart que eu nunca terminei. sentei no sofá da sala de espera e você abriu a porta com o sorriso que eu conheço e me ouviu porque é isso que você faz. enquanto eu falava ininterruptamente porque agora vou só uma vez na semana e tem tanta coisa pra contar aquele dia aquela noite aquela pessoa aquele sintoma aquela mãe perdida no meio da estrada aquele suspiro que eu dei quando me apaixonei e aquele medo que tive de enfim ser vista mas como ser amada sem ser vista eu não sei eu não sei. mas deus me recompensou e nem freud explica e nem quer explicar porque freud às vezes é chato. mas deus. recompensei você dos meus atrasos perdidos com um poema de guardanapo que você guardou na carteira mas que rasgou quando nos separamos e fui eu. aí eu conheci outra pessoa pessoas muitas pessoas fui promíscua com os meus sentimentos prostituta distribuindo amor pra quem nunca quer receber mas acho que confundi as bolas porque prostituta dá e não recebe e o amor é um puteiro. mas é um puteiro bonito com flores no vaso com mulheres de ancas enormes com tetas enormes como a grande mãe que me assombra e ao mesmo tempo acolhe. não não o amor não é um puteiro e não tem mais quartos do que uma pensão de putas me desculpa garcia marquez. meu amor é uma casa pequena com um só dormitório. quero dormir de conchinha com o amor até mesmo nos dias quentes até mesmo nos dias em que eu penso em morrer mas o amor me afasta do abismo mentira o amor aproxima. mas deus me recompensou e eu fui molhada pela água que caía do céu me lembrei quando era pequena e perguntei à minha mãe de onde vinha a água do céu. ela me deu uma resposta tão bonita e acho que foi aí que eu comecei a ser poesia. enquanto minha mãe pintava eu caçava gafanhotos no jardim. escrevi um livro aos 13 anos que ninguém leu nem você vai ler porque sempre tem coisas que é melhor a gente não revelar assim de cara vai que assusta vai que eu me assusto com a sua reação de aceitar as minhas imperfeições. mas você também não revelou aquela cirurgia de apendicite porque eu ia achar que era câncer e você ia brigar comigo dizendo que pra mim tudo é câncer e que um dia vai ser mesmo e eu vou chorar e você vai dizer que vai cuidar de mim mas eu não quero um amor assim. mas deus me recompensou e eu bolei um roteiro de um filme será que tento escrever mais me dá uma ideia o que você acha aqui fica melhor colocar outra personagem homem ou mulher tanto faz tudo selvagem. mas deus me recompensou e eu vim andando na chuva molhando as minhas alpargatas e a barra da minha saia. cheguei em casa tirei a roupa e entrei no banho quente que soou como abraço depois de amar. não tem nada pior do que abraço do amor. não tem nada pior. não tem nada. não tem. não. mas deus me recompensou e sei que ele existe porque eu pude senti-lo em mim quando fui humana e jamais santa. a verdade é que cheguei em casa e depois do banho quente estourei pipoca e comi o balde inteiro enquanto pensava no tanto que ainda há pra fazer mercado feira roupa meu quarto meu deus meu quarto minha vida me arrumar pra ir te ver. aleluia ainda não tenho filhos porque preciso arrumar meu quarto antes mas quem falou em filhos meu deus como você é precipitada. você deixou eu falar sobre filhos mas teve medo e meu deus por que tanto medo se filho é uma continuação e é sempre bonito se a gente explicar pra eles de onde vem a chuva de uma maneira poética. deus me recompensa quando eu posso ser eu mesma. e o melhor, mas o melhor de tudo, com vírgula e tudo, é quando a gente pode ser a gente mesmo com alguém que, sendo também alguém mesmo, tolera os furos da gente. e não tenta tampar com verborreia generalizada ou discurso machista disfarçado de tolerante. o melhor de tudo é poder ser inteiro mesmo estando faltando uma parte. mas se não faltasse não seria inteiro. se fosse inteiro seria uma desgraça. mas deus me recompensou com a esperança, e por isso sou uma niilista de meia tigela. não aguento nietzsche. 

martes, 22 de septiembre de 2015

[descobri
que em tudo
sempre haverá
esse lado
meio-vazio
como se no meio da multidão alegre
houvesse alguém parado
de olhar perdido,
como se a foto do aniversário
flagrasse alguém
de sorriso forçado.
descobri
que isso se deve
ao fato
da morte ter manchado
a minha pintura
enquanto eu estava distraída
borrou a tela
de tinta a óleo
e é impossível
retocar.
por isso
aceito
assino
assumo:
o pingo de chuva
no meio do dia,
o gosto amargo
no meio da língua,
esse aperto no peito
no meio da vida,
uma lágrima torta
no meio do riso,
um pedaço de angústia
no dia contente
essa quase predileção
por enxergar humanidade
onde a maioria
não]

domingo, 20 de septiembre de 2015

solitário

[queria
almoço de família
mas só sobrou
uma marmita fria

sobrou
o silêncio de quem já sabe
o que é estar sozinho
porque o barulho de uma pessoa só
é pequeno:
os vizinhos nunca reclamam
nem sequer
sentem.

os passos do solitário pela casa caminham rumo
à escuta
de outros talheres batendo
enquanto ele se satisfaz
em colocar a mesa
pra uma pessoa só]

sábado, 19 de septiembre de 2015

conclusões inacabadas



- nossa vida afetiva é uma orquestra que deveria estar afinada.

- preciso estudar composição e regência pra dar conta da minha. 
a vida se expressa
e não é no detalhe.
a vida berra quando,
finalmente,
me deito
e ouço no prédio ao lado
um bebê chorar
desesperadamente.
a vida tem fome
a vida fez um corte
de verbas
para melhorias da minha condição.

miércoles, 16 de septiembre de 2015

qual a palavra
que desabrocha
por cima do grito
que mesmo mudo
te ouço gritar?
qual a palavra
que arrebenta
o seu silêncio
o seu pesar
a sua perda
o aperto que sei que sente?
qual a palavra
que desabotoa
o seu peito
ensolarado?
qual a palavra
que ressoa
vem de dentro
que enquanto não sai
eu não sei?
eu não sei.

domingo, 13 de septiembre de 2015

[alguém
que me cure do status
de ninguém
que se ocupe de mim
sem me fazer de refém.
que me coce as costas
onde não alcanço
que me dê impulso
no balanço.
alguém
que entre comigo
na piscina da vida
porque sozinha

não dá pé]

viernes, 11 de septiembre de 2015

à analista

a que me escuta
me incute
me toca
naquilo que mais se aproxima de mim
me sabe
e sei que posso contar
(cantar, por vezes,
fica difícil).
a que me escuta
ouve também
os meus desafinos
desatinos
destinos escolhidos.
a que me escuta
está comigo
e mesmo
quando não está presente
está.
e estará.
a que me escuta
de certa forma
sou eu
apenas de um lugar
que nunca
havia sido escutado antes.