jueves, 22 de octubre de 2015

Santa Mônica

Os olhos são intrusos. se metem onde não foram chamados. como no dia em que te vi, parado, imóvel - o que seria a mesma coisa - em frente à prateleira. eu não ia olhar. estava cansada, apesar da vida estar indo bem (mas eu me utilizei da fantasia pra escrever tudo isso. pra ficar menos óbvio e porque eu não sei escrever difícil. assim pareço mais verossímil? assimilável?).

o que senti naquele dia?
tédio?
vazio?

quero crer que sim.
quero crer que você não me ligou só para dizer "tenho algo a te dizer". e não disse. ficamos conversando sobre outras diversas coisas, e como eu sempre tendo a desviar do assunto (ou é você que faz isso?), fugimos. e fugimos tanto que eu perdi o caminho de volta. foi como quando entrei num ônibus que não sabia pra onde ia. eu estava no centro da cidade, girei a roleta e sentei ao lado de um velho barbudo e mal cheiroso. parei num bairro chamado santa mônica. quis ser santa, desejei com a força dos meus ossos nunca mais me apaixonar. mas o que eu sei sobre a paixão? absolutamente nada. fiquei ali, andando por um tempo - ou foi por uma tarde? - e quis não ser mais eu. quis ser a mônica santa. quis me transformar em uma pessoa melhor, em uma mulher melhor (quis ser mulher, afinal), que não se apaixona por ideias, que não se envolve com estranhos, que não sorri para mendigos, que não procura só pelo mais difícil. quis ser sóbria. mas parece que nasci errada, torta, prematura. faltou tempo para eu maturar e agora amadureço na crueza dos dias, e desse seu olhar tão doce.
eu tomava ansiolíticos aos 17 e talvez fosse melhor nunca ter me envolvido com a música pop. ela me tornou uma pessoa horrível, que escreve poesias. uma pessoa que ninguém quer ser.
(...)

me indago, agora, 12 anos depois: onde eu estava com a cabeça quando desci no santa mônica? por que você também estava lá? por um acaso se perdeu?
mas então, eu não disse nada. nunca. e tudo se transformou em uma grande novela cruel dentro da minha cabeça, e se meus órgãos internos pudessem falar, eles gritariam.
e então você me ligou.

- "esqueci de te dizer algo importante."
- pois diga.
- "não é assim que se aborda alguém que quer dizer algo importante."
- quis.
- "o quê?"
- você não disse que se esqueceu?
- "por que você não deixa escapar nada?"
- foi você que disse.

te incriminei. pelo esquecimento de palavras. afinal, você não tinha esquecido. só teve medo de dizer. mas agora era eu quem tremia de medo dessas palavras esquecidas. queria escutá-las?
você queria que eu desse as respostas.

- "tá, tudo bem. o erro foi meu de não ter dito no momento certo. o fato é que não consigo dormir."
- eu também não consigo dormir (desde santa mônica eu nunca mais dormi bem).
- "como faço para te dizer?"
- dizendo.
- "tenho medo da sua reação."
- seu suspense só faz piorar a situação. e rimar foi um acidente.
talvez tudo isso seja um acidente. o problema é que eu não tenho seguro. vou ter que pagar pelo conserto. sozinha.
- "eu também vou ter que pagar."
- estamos quites.

estremeci. afinal, era grave. era muito grave. era gravíssimo. a gradação só fazia diminuir a minha vontade de ter descido em santa mônica.

- eu não posso te ajudar. é preciso ter coragem.
- "mas eu sou medroso."

eu fui avisada.

você apareceu depois de um tempo, com seus tênis velhos. eu não sabia mais como descrever. abri a porta e te olhei como se nunca quisesse ter te reconhecido. mas eu reconhecia, meu corpo inteiro te reconhecia, minha pele reconhecia. minhas mãos reconheciam. e por fim, vieram os olhos. eles disseram. era o inferno na terra. mas você era doce.
sentou no meu sofá, disse que havia sido muito burro em ter esquecido. e fez algo pelo qual nunca vou te perdoar: você chorou.
fui até a cozinha e preparei um chá pra você. te servi na minha caneca favorita. com açúcar, com afeto. você agradeceu. e logo começou a contar.
eu não queria ouvir. nunca quis. mas eu não te avisei, pensei que os olhos pudessem fazer tudo isso por mim. mas eles não puderam.

- "passou muito tempo. ainda é possível dizer?"
- você se esquece que já está dizendo.
- "então por que você não responde?"
- porque eu preciso escutar primeiro.

você chorou mais. busquei papel higiênico pra você. te vi assoar o nariz. foi deprimente. e você tão doce. covarde como uma criança perdida no supermercado. eu queria ser a santa que perdoa tudo. mas eu era apenas mônica: humana.

- eu nunca vou te perdoar.
- "não?"
- não. eu não sou santa. eu não desejo que você se lasque. eu apenas não vou te perdoar. esse fardo é meu, não seu. minha vida foi marcada e agora não dá pra voltar atrás.
- "você está certa."
- não me importaria se estivesse errada.

eu poderia ser mônica, mas era apenas uma mulher qualquer. enfim agora havia me transformado em medusa? eu te paralisava e transformava em pedra?

você disse as piores coisas que alguém pode dizer. falou do presente. elogiou meu corte de cabelo. minha biografia do neruda. meu herman hesse. invadiu minha literatura. invadiu meu olhar naquela maldita tarde nublada. e sempre permaneceu imóvel, como no dia em que te encontrei imóvel em frente à prateleira.

- "eu não sei mais o que te dizer."
- você nunca soube.
- "não precisa ser cruel."
- você não lida bem com o fato de eu encarar as coisas de frente.
- "você não entende."
- foda-se.

desconstrui sua linha de raciocínio com um palavrão. você me olhou torto. ainda era doce, mas agora era alguém doce que me olhava torto. agora além de não ser santa não ser mônica e não ser nada eu era mal criada.

- vá embora. eu preciso dormir.
- "mas,"
- mas?

e o silêncio durou pra sempre.

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