lunes, 23 de noviembre de 2015

malformações

meu cardiologista interrompeu minhas tarefas cotidianas com um telefonema, às quatro da tarde. 

"foi encontrada uma malformação no ventrículo direito, o que faz com que o seu músculo cardíaco inche mais e mais a cada dia. será preciso tomar um medicamento ininterruptamente até o fim da sua vida, ou corre-se o risco de um infarto fulminante a qualquer momento." 

entendi algumas poucas palavras de seu vocabulário médico - graças ao professor de biologia do segundo grau -, mas pra mim o mundo continuou sendo esse lugar esquisito, em que médicos são mais valorizados do que jardineiros. há uma delicadeza em cuidar do desabrochar silencioso da vida, enquanto humanos cuidando da saúde de outros seres humanos são desumanizados. 

ainda restava uma esperança de que haveria poesia no fato de alguém ter escolhido cuidar do coração das pessoas e saber o significado simbólico de possuir um. mas hoje a humanidade me decepcionou. 
já passei por inúmeras desilusões-cardíacas, mas a grande ironia da vida foi ter meu coração partido pelo meu próprio cardiologista. pior do que isso, a descoberta de que ele mesmo não tem coração. 
pelo menos não no sentido que deveria. 

foda-se o ventrículo esquerdo. 

domingo, 15 de noviembre de 2015

*** recortes sobre o amor ***

sua lembrança me causa palidez estomacal. é como se eu estivesse cheia estando vazia. 
você é um poço de eternidade, e desde que te vi soube que seria um pouco difícil me recuperar do tombo. se identificar com alguém é sempre cair. pelo que a gente se apaixona no outro? por aquilo que o outro não é. por aquele olhar que não diz nada e a nossa ilusão completa todas as lacunas. amar é sempre solitário. amar é sempre um poço. amar sempre foi aquoso. explica-se porque pedras não amam; porque o amor não pode ser duro. nem na queda o amor é duro. a queda do amor é macia. o que machuca é o levantar-se. é sempre o movimento de sair do chão que causa dor nas articulações.

portanto, articulamos meios de não sofrer muito: não amar muito, não falar muito, não se entregar muito. mas o amor sofre de artrite reumatóide. o amor é uma doença auto imune. começa sozinho e só pode ser curado no consultório do analista, tendo em vista que nunca tem causa conhecida. e tudo o que não tem causa conhecida vai parar no consultório do analista (o médico me disse que esse aperto no peito é psicológico).

o amor é um charlatão, e quem se engana é a gente. nem se deveria mais tocar no nome do amor, escrever cartas de amor, fazer coisas por amor. tudo isso acaba mal. 

o amor não deixa eu me concentrar. o amor me dá sono. o amor não me deixa trabalhar. faz tempo que o conheço, e nunca aprendi a lidar. será um tipo de droga? você sabe que faz mal, e usa. tem ressaca, mas assim que se recupera, toma mais uma dose. céus, que tipo que coisa é essa que inventaram? 

vamos nos ver? hoje, agora, daqui cinco minutos. não, desculpa, eu não quis dizer isso, apaga, deleta. mas palavra não se apaga mas só essa por favor faça essa gentileza com a minha falta de tato. vamos nos ver vamos ver um pouco mais mas eu acho que quem tem problema de visão aqui é você. 
quer o telefone do meu oftalmologista? quem sabe poderíamos dividir os graus de miopia que ele me deu aos 11 anos? vamos ficar em silêncio enquanto esperamos a secretária nos chamar. 
nosso silêncio cabe inteiro dentro de mim. ele não persegue nem arromba, não me destrói nem descansa. nosso silêncio cabe no barulho do mundo. 

o amor é um fliperama. eu tenho moedas de 1996 que não servem mais. agora é tudo no débito. 
eu esqueci de me atentar às palavras, fiquei só com as batidas do meu coração. eu esqueci de olhar o outro. eu só quero poder recostar minha cabeça e descansar um pouco. eu preciso descansar um pouco, não me leve a mal. me leve pra casa. entre comigo e não diga nada. fiquemos em silêncio até às 3 ou 4 da manhã, que é quando começa a hora perigosa da madrugada. então falaremos no escuro, deitados na cama frente a frente com nossos hálitos quentes e submersos nas entrelinhas que dizem "vida". você vai me contar uma estória que é metade mentira metade verdade e eu vou fingir que acredito. eu vou te contar uma parte triste de tudo e você vai dizer que acha bonita a tristeza. então os nossos lábios irão se encostar e aí eu posso dormir em paz. eu quero estar em paz. 

                                                                                                               

                                                                                                                   mas o amor é uma guerra. 




o amor é uma coisa terrível muito terrível e a gente nem sabe como vai fazer pra ser-com-o-outro e continuar sendo inteiro. 



P.

lunes, 2 de noviembre de 2015

findado

finados e a garoa fina
que sempre antecede o aniversário do meu irmão.

finado é aquele que por força das circunstâncias findou antes de mim.
finado é aquele com quem a gente não consegue ser futuro,
mas mesmo assim está.

a morte é a visita incoveniente que nunca tem assuntos interessantes
e fica.

a ausência vai ficando confortável com o passar do tempo.
como é que uma ausência se torna confortável?
a ciência ainda não descobriu.
o fato é que a ausência, em certo momento, deixa de doer.
é como se a dor se acomodasse em alguma poltrona da nossa alma, sentasse, pegasse uma xícara de café e ali ficasse durante horas. mas ela fica por dias, semanas, décadas. é isso o que acontece com a ausência acostumada.

finado é aquele que chegou
ao fim
do que o destino
prometeu
e sempre cumpriu.


a garoa é uma forma de compaixão 
é como se deus se desculpasse pelos estragos causados 
pelo temporal da morte.