lunes, 23 de noviembre de 2015

malformações

meu cardiologista interrompeu minhas tarefas cotidianas com um telefonema, às quatro da tarde. 

"foi encontrada uma malformação no ventrículo direito, o que faz com que o seu músculo cardíaco inche mais e mais a cada dia. será preciso tomar um medicamento ininterruptamente até o fim da sua vida, ou corre-se o risco de um infarto fulminante a qualquer momento." 

entendi algumas poucas palavras de seu vocabulário médico - graças ao professor de biologia do segundo grau -, mas pra mim o mundo continuou sendo esse lugar esquisito, em que médicos são mais valorizados do que jardineiros. há uma delicadeza em cuidar do desabrochar silencioso da vida, enquanto humanos cuidando da saúde de outros seres humanos são desumanizados. 

ainda restava uma esperança de que haveria poesia no fato de alguém ter escolhido cuidar do coração das pessoas e saber o significado simbólico de possuir um. mas hoje a humanidade me decepcionou. 
já passei por inúmeras desilusões-cardíacas, mas a grande ironia da vida foi ter meu coração partido pelo meu próprio cardiologista. pior do que isso, a descoberta de que ele mesmo não tem coração. 
pelo menos não no sentido que deveria. 

foda-se o ventrículo esquerdo. 

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