domingo, 15 de noviembre de 2015

*** recortes sobre o amor ***

sua lembrança me causa palidez estomacal. é como se eu estivesse cheia estando vazia. 
você é um poço de eternidade, e desde que te vi soube que seria um pouco difícil me recuperar do tombo. se identificar com alguém é sempre cair. pelo que a gente se apaixona no outro? por aquilo que o outro não é. por aquele olhar que não diz nada e a nossa ilusão completa todas as lacunas. amar é sempre solitário. amar é sempre um poço. amar sempre foi aquoso. explica-se porque pedras não amam; porque o amor não pode ser duro. nem na queda o amor é duro. a queda do amor é macia. o que machuca é o levantar-se. é sempre o movimento de sair do chão que causa dor nas articulações.

portanto, articulamos meios de não sofrer muito: não amar muito, não falar muito, não se entregar muito. mas o amor sofre de artrite reumatóide. o amor é uma doença auto imune. começa sozinho e só pode ser curado no consultório do analista, tendo em vista que nunca tem causa conhecida. e tudo o que não tem causa conhecida vai parar no consultório do analista (o médico me disse que esse aperto no peito é psicológico).

o amor é um charlatão, e quem se engana é a gente. nem se deveria mais tocar no nome do amor, escrever cartas de amor, fazer coisas por amor. tudo isso acaba mal. 

o amor não deixa eu me concentrar. o amor me dá sono. o amor não me deixa trabalhar. faz tempo que o conheço, e nunca aprendi a lidar. será um tipo de droga? você sabe que faz mal, e usa. tem ressaca, mas assim que se recupera, toma mais uma dose. céus, que tipo que coisa é essa que inventaram? 

vamos nos ver? hoje, agora, daqui cinco minutos. não, desculpa, eu não quis dizer isso, apaga, deleta. mas palavra não se apaga mas só essa por favor faça essa gentileza com a minha falta de tato. vamos nos ver vamos ver um pouco mais mas eu acho que quem tem problema de visão aqui é você. 
quer o telefone do meu oftalmologista? quem sabe poderíamos dividir os graus de miopia que ele me deu aos 11 anos? vamos ficar em silêncio enquanto esperamos a secretária nos chamar. 
nosso silêncio cabe inteiro dentro de mim. ele não persegue nem arromba, não me destrói nem descansa. nosso silêncio cabe no barulho do mundo. 

o amor é um fliperama. eu tenho moedas de 1996 que não servem mais. agora é tudo no débito. 
eu esqueci de me atentar às palavras, fiquei só com as batidas do meu coração. eu esqueci de olhar o outro. eu só quero poder recostar minha cabeça e descansar um pouco. eu preciso descansar um pouco, não me leve a mal. me leve pra casa. entre comigo e não diga nada. fiquemos em silêncio até às 3 ou 4 da manhã, que é quando começa a hora perigosa da madrugada. então falaremos no escuro, deitados na cama frente a frente com nossos hálitos quentes e submersos nas entrelinhas que dizem "vida". você vai me contar uma estória que é metade mentira metade verdade e eu vou fingir que acredito. eu vou te contar uma parte triste de tudo e você vai dizer que acha bonita a tristeza. então os nossos lábios irão se encostar e aí eu posso dormir em paz. eu quero estar em paz. 

                                                                                                               

                                                                                                                   mas o amor é uma guerra. 




o amor é uma coisa terrível muito terrível e a gente nem sabe como vai fazer pra ser-com-o-outro e continuar sendo inteiro. 



P.

No hay comentarios:

Publicar un comentario