domingo, 24 de enero de 2016

ainda bem
que os minutos passam
os dias
anos
e as dores
fazem aniversário

ainda bem
que existe a poesia
pra gente enfeitar
a rotina
fingir que a coisa toda
é bonita

ainda bem
que existe
o tempo
a xícara
o cinzeiro
o lixeiro
o analista
e os artigos
indefinidos

ainda bem
que podemos usar
gerúndios
particípios
do presente

ainda bem
que o olhar diz mais
que mil palavras
que o corpo
fala
que a boca
beija
que a pele
esquenta

ainda bem
que existe você
que existe eu

agora só falta
a gente
se conhecer:
aí então eu vou dizer
ainda bem
que tem nós dois.

eu sei porque o amor mata

o amor sempre foi uma ameaça à minha integridade física, psíquica e social. o amor sempre foi perigoso. você está lá, na sua zona de conforto, e de repente, tudo se resume à zona de confronto. uma letra fora do lugar e tudo dá errado. um passo em falso e você descamba. o amor é uma zona de perigo. é uma zona, no fim das contas. 

mas ele pode ser calmo, sim. quando você está lá, deitada de barriga pra cima, contando sonhos tolos e planejando viagens insólitas com o ser amado, tudo é lindo. quando ele arrota é lindo. quando ele peida é lindo. ele vai ao banheiro e você sabe que está fazendo as suas intimidades, limpando a bunda à maneira dele, e acha lindo. (...). O amor é tudo isso. Uma grande cagada. 
Depois te descartam, como se fosse rejeito mesmo. Lixo. Merda. Já aconteceu comigo algumas vezes. Ser descartada não é nada fácil, mas ensina muito. Acreditei por algum tempo que eu mesma não passava de um pedaço de lixo comum, que não servia pra nada, só porque eu havia sido descartada por alguém com quem eu havia me deitado de barriga pra cima e sonhado sonhos tolos e planejado onde os quadros seriam pendurados. Não foi nada fácil. Eu precisei de muita coisa quando fui deixada. E inacreditavelmente, quando mais o tempo passa, de mais coisas eu preciso. 
Preciso de amigos. De álcool. Cigarros. Livros. Mais livros. Mais sessões de análise por semana. Mais comida. Já mencionei álcool?
Por fim, passa. Como tudo na vida. Passa. 
Alguns demoram mais do que outros. Alguns doem mais do que outros. Alguns simplesmente são descartados assim como somos: de uma hora pra outra. 
Mas até mesmo com os amores mais bonitos e com aqueles com quem a gente faz planos bonitos de uma vida menos miserável, tudo também pode acabar de uma hora pra outra:
- "Não te amo mais". 
- Mas você amava até semana passada!
- "Pois é, mas agora não amo mais". 
- Mas como isso é possível? Não pode ser. É mentira. Ei, volte aqui. Me ame de novo! O que eu posso fazer pra você me amar? O que quer que eu faça? Me diga, e eu farei. Por favor, não faça as malas. Pense melhor. Não! Por favor! Eu te amo! Vamos dar mais uma chance a nós dois. Prometo nunca mais ser uma idiota. Por favor, não... Não... Não vá...

E a porta se fecha. 

Pranto. Você escorrega devagar encostada na parede e chora até às duas ou três da manhã, vai engatinhando até o banheiro, faz xixi, mal se limpa e vai engatinhando até o quarto. Dorme. Sonha um milhão de coisas terríveis, Acorda aos prantos. Pensa em morrer. Pensa em se matar. Pensa em matá-lo. Então você acorda e resolve abrir a garrafa de tequila que está no armário há dois anos. Bebe. Bebe muito. Vomita no bidê enquanto tem uma caganeira. Chora mais. Chora tanto que acha que nunca mais será capaz de chorar assim por algo ou alguém. E dorme de novo. Até que você precisa ir trabalhar. E vai. Faz um puta de um bom trabalho, apesar da ressaca. Apesar das olheiras. Apesar de você. E assim vai. Dia após dia. Até que você percebe que está estragando o seu corpo e resolve começar a correr. Vira vegetariana e fica sem fumar por dois meses. Suspende o álcool do cardápio. Começa a pensar em tudo o que aconteceu. Lista os seus erros. Lista os erros dele. Lista os erros dos dois. Lista os erros de Deus. Promete nunca mais amar ninguém. Mas você não tem mais 15 anos, e se apaixona de novo, na fila da padaria, 8 meses depois de ter vomitado no bidê o nome do ex. 




miércoles, 13 de enero de 2016

quarta-feira

abro o olhos
abro a outra metade da janela
abro o pote de café
e a lata de patê para as gatas
abro o gás
abro a térmica
abro o açúcar e ao som do primeiro gole quente
abrem-se as alas do meu dia

abre meu pranto
abre um pouco
a tristeza
essa coisinha incômoda que ainda não descobri o motivo
abro o requeijão
abro o pacote de torradas

levanto da mesa
abro o livro da matilde campilho
leio quatro ou cinco poemas
de pé
não tenho tempo, penso

eu e o tempo,
essa coisa aberta
pulsante
viril
patriarcal
que me toma outro tanto de espaço
para ler poesias
maldito tempo.

mas eu tenho tempo, penso
duas horas, penso
ok, quase duas
mas já é alguma coisa

leio os poemas
sobre duas patas
porque o relógio
mata meu instinto
pueril.

martes, 5 de enero de 2016

há algo aqui
que não posso entender
há algo aqui
que não posso
algo
que
não.

há algo em mim

que não disse o motivo
a que veio
algo
que não me quis
mas não pode fugir
(uma vez que não posso fugir de mim)

sendo assim
construo castelos
de palavras
só para derrubar depois

há uma coisa que não consigo
entender
que não acalma
nunca passa
e ultrapasssa
o número de caracteres
permitidos

uma palavra sem caráter
e eu também.

se apossa
de mim
algo
que não sei.

no fim das contas
resta
um.