viernes, 22 de julio de 2016

crescer para baixo

não sei bem ao certo
mas posso afirmar
que o fruto deu flor:

nunca estive tão sóbria
cercada de loucos,
nunca voei tão alto
tendo os pés no chão,
nunca controlei tanto a vida
ciente dos imprevistos desvios de rota.

me desliguei da ilusão
e quando não consigo lidar com a realidade,
eu salto.
mergulhada em mim
o fundo é belo
porque sou eu.

cultivo rasuras
de cara lavada,
me ligo às sutilezas
habitando o mundo real,
conservo a capacidade de ser criança
sempre que o mundo exige
mais uma responsabilidade:
a cada minuto a menos que ganho
desadulteço.

domingo, 3 de julio de 2016

um amor para (re)acordar



lembrei 
das caminhadas infindáveis que fazíamos juntos,
dos dias em que nos sentávamos em botafogo 
pra tomar sangria às quatro da tarde,
da cama compartilhada indevidamente
porque eu gostava de dormir juntinho e ele queria espaço.
nos quereríamos
se não fosse eu.
se não fosse ele.

se eu fosse ele,
haveria de ter me querido
mas querido tanto
que até ligaria 
e diria
"te amo".

mas, essa maneira de conjugar os verbos
cujo nome da gramática não recordo
é típica de quem já pode falar de amor antigo
sem doer,
sem gemido baixinho à noite, quando desperta, mas ainda dorme e lembra o sonho que teve,
sem alegria hipócrita,
sem nada.

essa forma de escrever
descreve como as feridas
(até mesmo as mais graves)
se curam
depois de cozidas por longas horas
no fogo da vida.

o verbo fica conjugado
na beleza da comprovação
de que a Terra gira
quando a gente lembra de alguém
que de tão (ultra)passado
parece
nunca
ter
existido.